EDITORIAL ESTADÃO - Sem pânico inflacionário

Economistas e consultores preveem que a inflação continuará bem abaixo da meta de 4,5%, mesmo com o aumento do PIS-Cofins sobre os combustíveis
A inflação continuará bem abaixo da meta de 4,5%, neste ano, mesmo com o aumento do PIS-Cofins sobre os combustíveis – pelo menos segundo economistas de instituições financeiras e consultorias consultados na pesquisa Focus do Banco Central (BC). Apesar de previsões catastróficas divulgadas por alguns meios de comunicação, os especialistas parecem ter ficado imunes ao pânico. A mediana de suas projeções para 2017 passou de 3,29% na semana anterior para 3,33% na sondagem fechada na sexta-feira passada e divulgada ontem. Já na sexta-feira, profissionais consultados pela Agência Estado haviam antecipado uma pequena variação nos cálculos e novas estimativas nada assustadoras. A avaliação dos diretores do próprio BC deve ser conhecida amanhã à noite, quando for anunciada sua nova decisão sobre a taxa básica de juros, a Selic, atualmente fixada em 10,25%.
Por enquanto, os economistas do mercado mantêm suas principais apostas em relação aos juros. No fim do ano, segundo a mediana das projeções, a Selic estará em 8%, nível já projetado na semana anterior. A taxa indicada para o fim de 2018 também ficou inalterada em 8%. Para dezembro de 2019, a estimativa foi baixada de 8,13% para 8%.
Não há sinal, nessas projeções, de preocupação quanto a algum grande choque inflacionário. As previsões de alta do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) continuaram em 4,20% para 2018 e 4,25% para 2019. No fim do próximo ano a taxa, embora superior à de 2017, continuará abaixo da meta. No ano seguinte estará, segundo a projeção, exatamente na nova meta, recém-estabelecida, de 4,25%.
As estimativas de câmbio também permaneceram sem grandes alterações – R$ 3,30 por dólar em 2017, R$ 3,43 em 2018 (pouco menor que a indicada na semana anterior) e R$ 3,50 no ano seguinte. Todas as projeções, é claro, especialmente as de períodos mais longos, podem ser desmentidas pelos fatos, mas o detalhe importante, neste momento, é outro: os técnicos especializados em explorar o futuro pouco mudaram suas apostas sobre inflação, juros e câmbio depois de anunciado o aumento da tributação sobre a gasolina e outros combustíveis. Esse aumento deve produzir algum efeito no conjunto dos preços, mas nada bastante grande para justificar o terrorismo de uma parte do noticiário.
Alguns defensores da avaliação catastrofista ainda poderão insistir, no entanto, apontando a variação proporcional dos números coletados na pesquisa Focus. Afinal, a taxa de 3,33% estimada para a inflação em 2017 é 12,16% maior que a estimada uma semana antes (3,29%). É verdade. Uma diferença de 12,16% é considerável, quando se pensa em termos de proporções. Mas, por esse critério, o aumento da inflação nas economias avançadas tem sido e continuará catastrófico.
Segundo a classificação do Fundo Monetário Internacional (FMI), a inflação ao consumidor passou de 0,3% em 2015 para 0,8% em 2016 naquelas economias. A taxa mais que dobrou e ficou 166% maior. Se a projeção para 2017 estiver correta, as famílias daqueles países terão enfrentado, até dezembro, mais um ano desastroso. Afinal, a taxa esperada para este ano, de 2%, é 150% maior que a de 2016. Nesse quadro, a experiência dos consumidores alemães tem sido especialmente dramática. Sua inflação saltou de 0,1% em 2015 para 0,4% em 2016, ou seja, foi multiplicada por quatro.
Seria muito melhor, é claro, se o governo brasileiro pudesse evitar o aumento de tributos e mesmo assim entregar o resultado fiscal prometido para este ano, um déficit primário igual ou inferior a R$ 139 bilhões. As principais dificuldades foram explicadas quando o ministro do Planejamento, Dyogo Oliveira, divulgou a terceira revisão bimestral de receitas e despesas. Houve, nos últimos dias, quem cobrasse maior contenção de gastos. Em princípio, a ideia é muito boa, mas cortes mais significativos dependem da reforma da Previdência e de mudanças para tornar o Orçamento menos engessado. Houve muito menos protestos quando os governos petistas, atendendo a interesses eleitorais, aumentaram o engessamento das contas da União.

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