EDITORIAL ESTADÃO - Os mais vulneráveis à crise


As novas e escassas oportunidades de trabalho não chegam aos menos preparados
Desocupação, insegurança e pobreza continuam sendo o horizonte dos menos educados e mais vulneráveis, enquanto os motores da economia se reaquecem lentamente e surgem os primeiros sinais de melhora no mercado de trabalho. As novas e escassas oportunidades têm sido distribuídas desigualmente, sem chegar aos menos preparados, como já mostraram números do Ministério do Trabalho. Além disso, muitos beneficiados com uma vaga só foram admitidos de forma precária, sem carteira assinada. Enfim, sem ter conseguido uma oportunidade, mesmo precária, muitos tiveram de aceitar um retorno à dependência da ajuda governamental, voltando à fila, de novo crescente, dos candidatos ao Bolsa Família.
O emprego, dirão os mais pacientes, é a última condição a melhorar depois de uma recessão. No Brasil, desta vez, alguns sinais de melhora já apareceram, mas insuficientes para desafogar milhões de famílias privadas de um sustento regular e para impedir a recaída de muitas na pobreza. O quadro até poderá piorar, se a insegurança política se prolongar e a recuperação econômica, ainda incipiente e frágil, for freada ou mesmo interrompida.
Poucos, em Brasília, parecem ter dado alguma atenção, ou atribuído alguma importância, a alguns dados muito preocupantes divulgados nas últimas semanas. Apesar da redução do desemprego, de 13,7% para 13% da força de trabalho entre o primeiro e o segundo trimestres, continuaram desocupadas 13,5 milhões de pessoas. Isso é mais que o dobro da população desempregada no trimestre final de 2014, no começo da recessão. A comparação entre esses números deve dar uma ideia do estrago remanescente
Mas a boa notícia veio acompanhada de um detalhe ruim. Naquele intervalo, 442 mil pessoas foram empregadas sem registro em carteira e 396 mil passaram a trabalhar por conta própria. A melhora do quadro do emprego dependeu de grande aumento da informalidade. Algumas dessas pessoas eram certamente qualificadas. Muitas outras provavelmente eram bem menos preparadas e menos capazes de conseguir uma vaga com carteira assinada.
A situação especialmente ruim dos trabalhadores menos educados foi evidenciada mais uma vez, há algumas semanas, com a divulgação de um relatório do Ministério do Trabalho.
Segundo esse informe, as oportunidades de emprego formal criadas de janeiro a maio beneficiaram principalmente os candidatos com maior escolaridade. Os números acumulados no ano mostram uma clara diferença. Em cinco meses, o saldo de empregos formais foi negativo para os trabalhadores com formação até o curso fundamental completo. Feito o balanço entre criação e extinção de vagas, o resultado foi o fechamento de 102.483 postos. O mesmo balanço foi positivo, no período, no caso das pessoas com formação até o ensino médio (43.069 vagas criadas) e até o curso superior (84.647 postos abertos).
O saldo positivo geral (25.233) correspondeu à contratação de pessoas educadas pelo menos até o curso médio incompleto. O melhor resultado foi o dos trabalhadores com formação superior completa ou incompleta. No acumulado de 12 meses, quando houve perdas para todas as categorias, os trabalhadores mais afetados foram os de menor escolaridade, com fechamento de quase 250 mil postos.
Não surpreende, nesse quadro, o retorno de muitas famílias à condição de dependência da ajuda governamental. Neste ano 143.866 famílias voltaram ao Bolsa Família, segundo noticiou o jornal Valor, com base em informação atribuída ao Ministério do Desenvolvimento Social. A fila de espera, zerada no primeiro bimestre, voltou a crescer e chegou a 525 mil. O ministro Osmar Terra, segundo o jornal, prometeu liquidar a fila até agosto.
Isso poderá aliviar temporariamente essas famílias, mas os grandes desafios permanecerão e poderão aumentar, se a insegurança política perdurar. O mais premente desses problemas é a geração de empregos. O outro, de enorme importância a médio prazo, é a educação da mão de obra, há muito tempo negligenciada.

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