EDITORIAL FOLHA S.PAULO - Seleção migratória

Imigrantes balançam bandeiras dos EUA em cerimônia que concedeu cidadania americana
O presidente dos EUA, Donald Trump, anunciou seu endosso a um projeto do Congresso americano com vistas a reduzir a imigração legal pela metade num prazo de dez anos. A proposta, de dois senadores republicanos, institui um sistema baseado em "méritos" para a concessão do "green card" —o direito de residência no país.
Hoje, 1 milhão de pessoas recebem esse benefício a cada ano. A população dos EUA é de cerca de 326 milhões de habitantes e estima-se que 11 milhões de imigrantes vivam ilegalmente no país.
Propõe-se agora que passem a ter prioridade candidatos que demonstrem padrões elevados de capacitação profissional, educação e conhecimento da língua inglesa.
A principal mudança é a restrição das regras que estendem o direito a parentes de imigrantes legalizados. Estatística referente a 2015 mostra que 64,6% dos que obtiveram residência permanente se valeram de relações de parentesco.
Também cogita-se limitar a 50 mil o número de refugiados que podem ingressar no país a cada ano —em 2016, o presidente Barack Obama autorizou a entrada de cerca de 100 mil.
O governo argumenta que o projeto segue normas de outros países, como o Canadá, que adotam sistema baseado em qualificações.
O debate levanta críticas ideológicas e práticas. No primeiro caso, o fato de a mudança ter o patrocínio de Trump ressaltaria sua filiação ao ideário nacionalista e discriminatório que o presidente professa e reitera desde os tempos de sua candidatura.
A medida seria uma espécie de "muro" legal a barrar os mais pobres, como latinos e árabes.
Do ponto de vista pragmático, argumenta-se que, com menos imigrantes, uma série de atividades —na agricultura e nos serviços, por exemplo— ficaria ameaçada ou passaria a exigir salários mais elevados na tentativa, incerta, de atrair mão de obra com acesso a postos mais qualificados.
A alegação do governo de que o plano defende os assalariados do país foi contestada por economistas que não veem conexão direta entre redução de imigrantes e promoção de americanos no mercado.
Afirma-se, ainda, que uma economia de desemprego baixo, num país em processo de envelhecimento, requer mão de obra estrangeira —cortá-la limitaria a expansão.
Trump, contudo, não parece se sensibilizar com os questionamentos. Pretende levar a proposta adiante, mesmo sob o risco de acrescentar mais um foco de desavenças aos muitos impasses que sua agenda já enfrenta no Congresso.

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