'Já trabalhei e fiz curso, mas tá difícil', lamenta jovem sem emprego

Média de jovens que nem estudam e nem trabalham no estado é maior que a nacional, indica IBGE
A proporção dos jovens “nem-nem” na Bahia - termo usado para os que nem estudam nem trabalham - cresceu a partir de 2014, com maior intensidade entre 2015 e 2016 – reflexo principalmente, segundo o IBGE, da saída de jovens de ocupações no mercado de trabalho. A baiana Denise Araújo, 26 anos, trabalhou pela última vez há três anos e meio, terminou um curso profissionalizante em maio e está em busca de uma oportunidade.
“Eu já trabalhei como caixa e como atendente de lanchonete. Fiz curso de segurança recentemente para tentar mudar de profissão e dar uma alavancada, mas tá difícil do mesmo jeito”, lamenta a jovem.
Pesquisa do IBGE divulgada nessa sexta-feira (15) mostrou que um em cada três jovens baianos entre 16 e 29 anos de idade não estuda e nem trabalha. Esse número, referente a 2016, representa cerca de 1 milhão de baianos (30,5% dos jovens). A média nacional é de 25,8%.
“Esse termo (nem-nem) surgiu na Europa para caracterizar jovens que ficavam por muito mais tempo nas casas dos pais, prolongando sua passagem para a vida adulta autônoma. Por aqui, a precária formação educacional, a falta de atratividade da escola, as dificuldades objetivas de permanência na universidade e uma conjuntura de escassez de postos de trabalho afetam diretamente os mais jovens”, afirma Cláudia Monteiro, pesquisadora em Sociologia da Universidade Federal da Bahia (Ufba).
Denise Araújo, 26 anos, terminou um curso profisssionalizante em maio e está há três anos e meio sem trabalhar (Foto: Mauro Akin Nassor/CORREIO)
Explicações
Embora não exista um perfil por estado desses jovens, segundo a análise preliminar do IBGE, os que têm menor nível de instrução, os pretos ou pardos e as mulheres estão mais sujeitos à condição de “nem-nem”. “Uma das características é o baixo nível de instrução, já que existem mais jovens “nem-nem” entre os que têm menos instrução. A outra característica é a questão do sexo, porque a maior incidência é entre as mulheres. Entre jovens pretos ou pardos, mais vulneráveis socialmente, há também maior incidência, e talvez isso possa influenciar o indicador na Bahia, onde você tem uma população preta ou parda expressiva”, analisa Luanda Botelho, pesquisadora do IBGE.
A pesquisadora Cláudia Monteiro afirma que “somente com políticas sociais e investimentos na redução dessas desigualdades" é que se resolve o problema: "Ações afirmativas, políticas educacionais e sociais que priorizem quem mais precisa”.
Considerando-se aqueles de 16 a 29 anos de idade, na Bahia, a porcentagem dos que não estudavam nem trabalhavam se manteve relativamente estável entre 2012 (26,0%) e 2015 (25,5%). Em 2016, no entanto, ela passou aos 30,5% (1 milhão de pessoas). O aumento dos “nem-nem” no estado foi o quarto maior comparando-se 2012 com 2016 e o segundo maior do país entre 2015 e 2016, abaixo apenas que o verificado em Pernambuco.
Nem procuram
Dos cerca de 1 milhão de baianos de 16 a 29 anos sem trabalho ou estudo, em 2016, 36,4% (cerca de 371 mil) estavam procurando trabalho e, por isso, foram considerados desocupados. Já 63,5% dos que não trabalhavam nem estudavam (647 mil pessoas aproximadamente) não estavam buscando uma ocupação, ou seja, foram considerados fora da força de trabalho.
Taís Menezes, 25, fez graduação em Administração, começou a trabalhar na área logo após sua formatura, em 2015, e pediu demissão em 2016.
“Depois que eu não consegui outro emprego, passei a querer me dedicar mais a encontrar algo no qual eu tivesse vontade de empreender. Mas eu descobri em maio que estava grávida, preferi me dedicar à minha gestação e, depois que o bebê nascer, eu volto a me dedicar ao mercado de trabalho”, planeja.
Questão de gênero
O estudo também mostra que, no ano passado, os trabalhadores informais ganhavam 52,1% menos que os trabalhadores formais no país (R$ 1.169 contra R$ 2.021). Essa diferença era ainda maior na Bahia, onde os informais (R$ 753) tinham rendimento 58,4% menor que os formais (R$ 1.287).
Tanto no Brasil quanto na Bahia, essa desigualdade causada pela informalidade atingia seu pico entre as mulheres. No estado, uma trabalhadora informal (R$ 559) ganhava 65,6% menos que uma trabalhadora formal (R$ 1.623); nacionalmente, a diferença era de -58,3%, ou seja, R$ 866 era o rendimento das mulheres em trabalhos informais, contra R$ 2.079 das formais.
O rendimento das mulheres em trabalhos informais na Bahia (R$ 559) era o segundo menor do país, acima apenas do registrado no Piauí (R$ 487).
Taís Menezes conta que perdeu uma vaga de emprego para a qual era qualificada por ser mulher: “Uma vez fui atrás de uma vaga que era meu sonho, e acabou não dando certo pelo fato de eu ser mulher. Eles queriam contratar um homem”, lembra a jovem.
A pesquisadora do IBGE Luanda Botelho afirma que o problema não é exclusivo do Brasil.
“Aqui no Brasil, em 2016 as mulheres tinham 1,7 vezes mais chances do que os homens de serem não estudantes não ocupadas. Em países como Turquia e México as mulheres chegam a ter entre 3 a 4 vezes mais chance que os homens de se encontrarem nessa situação”, ela conta.
O fator que dificulta o estudo e a procura por emprego mais apontado entre as mulheres é o trabalho doméstico. “Entre as mulheres, o motivo mais apontado foi que elas têm que cuidar dos afazeres domésticos, cuidar dos filhos e outros parentes. Entre os homens, o mais apontado foi “não havia ocupação na localidade”, conta a pesquisadora.
É possível reverter esse fatos, de acordo com ela: “Existem países onde essa desigualdade não se verifica, como na Bélgica e na Suíça, dando um sinal pra gente que esse é um problema que dá para enfrentar”. (correio24hs)

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