O sermão do meu filho

Com o ralo da corrupção aberto, qualquer discurso de ajuste é conversa. E o servidor, alvo fácil - em marcha de carnaval ou na ‘caça aos marajás’ de Collor.
Por Lillian Witte Fibe/veja
Toda vez que defendo o servidor público, meu filho me dá uma bronca.
Com seis anos na Universidade de Princeton no currículo, ele defende o estado mínimo, acha uma aberração o tamanho da máquina pública no Brasil, e fica danado quando lê algumas das coisas que a mãe escreve.
Ontem, ele começou a me mandar links, links e mais links sobre o funcionalismo: estudo do Banco Mundial, comparações com outros países da América Latina, ranking internacional, diferença salarial de advogado recém-formado na iniciativa privada e no setor público etc.
Eu já desisti de argumentar.
A menos que ele mexa com meu brio profissional, como sabe tão bem fazer, e diga que não entendeu meu ponto. Aí, me sinto obrigada a esclarecer…
Mas além do sermão do meu filho, apareceu também, a propósito do mesmo texto, um curto comentário de Carlos Antabi no meu Facebook, perguntando se meu perfil havia sido hackeado: “você anda estranha ultimamente…”
Bom, fiquei duplamente intrigada.
Seguinte: por óbvio, não acho nem certo nem saudável que qualquer governo tenha uma gorda folha de pagamento. Ou centenas de empresas.
Mas reitero: é uma questão de prioridade. De legitimidade. De foco.
Interessado em desviar as atenções do noticiário policial da corrupção, o governo se empenha em virar a opinião pública contra os privilégios de seus próprios funcionários.
Enquanto isso, trabalha dia e noite para esvaziar as investigações das organizações criminosas com as quais compactua. 
Infelizmente, é aí que começa o déficit público, e não na outra ponta.
Sabe o que vai acontecer com o dinheiro que o governo, eventualmente, poupar com a previdência?
Adivinhou: será surrupiado pelos coronéis da política com foro privilegiado, cujos crimes só vemos prescrever. 
Deixar o ralo da corrupção aberto e fingir que está fazendo o ajuste pelo lado da folha de pagamento não tem nem pé nem cabeça. 
Em 1989, Fernando Collor de Mello se elegeu presidente graças ao slogan da caça aos marajás, apaixonadamente defendido pela mídia.
É um assunto fácil e que sempre faz sucesso no Brasil.
Foi meu marido quem me lembrou ontem, se divertindo ao acompanhar a conversa entre mim e meu filho no nosso grupo de WhatsApp, que a marcha de carnaval “Maria Candelária” fez um tremendo sucesso no meio do século passado.
Dei um Google: consta que foi eleita a melhor música do carnaval de 1952. 
Virou uma febre.
Seguem a letra e, em seguida, o site onde tive a curiosidade de ouvi-la, na voz do maravilhoso Blecaute:
Maria Candelária / É alta funcionária Saltou de páraquedas /
Caiu na letra “O”, oh, oh, oh, oh /
Começa ao meio-dia /
Coitada da Maria Trabalha, trabalha, trabalha de fazer dó oh, oh, oh, oh /
À uma vai ao dentista / Às duas vai ao café / Às três vai à modista
Às quatro assina o ponto e dá no pé /
Que grande vigarista que ela é.

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