CARLOS ANDREAZZA - O negócio do voto

Eleição, neste país, é operação precificada a partir de redes de relacionamentos, pessoais, historicamente estabelecidas
A referencial revista eletrônica “Amálgama” publicou artigo incontornável à compreensão do sistema político-eleitoral brasileiro; ao entendimento de por que não convém contar com renovação representativa de nosso Parlamento em 2018, tampouco com a ascensão de um outsider capaz de desbancar os medalhões de sempre. Tem por título “Onde os fracos não têm vez”, trata do que — o negócio do voto no Brasil — constitui-se ainda num verdadeiro tabu entre nós, pois imporia reconhecer a precariedade de uma democracia da qual é etiqueta se orgulhar, e explica por que, atropelando lava-jatos, o establishment afinal triunfará.
O autor, Eduardo Matos de Alencar, especialista em políticas públicas, trabalhou em várias prefeituras do Nordeste e como gestor na implantação da UPP Social na favela da Rocinha, aquilo que deveria ser o desdobramento cidadão da mentira marqueteira em que consistiu o projeto das Unidades de Polícia Pacificadora. O que se depreende de seu texto é estarrecedor: que a democracia no Brasil tem, sim, valor; no caso, preço. Que, num país em que mais de 50 milhões vivem abaixo da linha da pobreza, o volume de pessoas sujeitas — e habituadas — ao mercado do voto, à cultura de vender o próprio sufrágio, é gigantesco e decisivo à eleição tanto de um vereador quanto de um presidente. O autor presenciou esse varejo — como prática cotidiana.
Eleição, neste país, é operação precificada a partir de redes de relacionamentos — pessoais — historicamente estabelecidas e nem sequer balançadas pela espuma do que se engatinha para descobrir. As investigações sobre caixa dois em curso são eloquentes a esse respeito: dedicam-se a apurar as trocas ilícitas entre políticos e empresários, por cima, mas — talvez para preservar algo de legitimidade ao sistema político nacional — negligenciam a corrupção, ocorrida por baixo, resumida no balcão para compra de votos, traficância que necessita de dinheiro livre, vivo, e que não entra em prestação de contas.
Não existe impessoalidade na atividade política brasileira — e uma complexa estrutura de relações, não raro de sobrevivência, perfeitamente funcional, depende da curiosa segurança garantida nesse comércio informal. Política, no Brasil, é política local. Voto, no Brasil, tem dono e entreposto — não raro traficantes, milicianos, bicheiros. Falo de economia política. Em significativa porção, vence quem detém (ou controla quem tem) o mapa da mina regional — falo mesmo de dominar o who is who de microcosmos tão restritos como um bairro. Essa teia de negociação territorial é muito mais ampla e eficaz que qualquer rede de mobilização expressa (e supervalorizada) na internet. É também silenciosa; mecanismo que só se dispara uma vez iniciada a campanha eleitoral.
Não é novidade que partidos políticos têm pouca relevância ideológica no Brasil. Sem o alcance deles, porém, não se vence eleição. Um partido brasileiro é tão grande quanto maior sua ascendência sobre comunidades específicas. É importante ter clareza de que partido brasileiro é estrutura para aprofundamento de capilaridade, sendo o Estado a principal moeda de prospecção, e de que aquilo que se conhece como ação social — daí a força eleitoral do PT, sobretudo a partir de 2006 — outra coisa não é que mecanismo de cadastramento de referências comunitárias e testes sobre sua real capacidade de transferir votos.
Referindo-me à polarização — PT x PSDB — cristalizada há 20 anos, já escrevi acerca do que chamo de recall eleitoral: não apenas a memória do eleitor sobre em quem votou nas últimas, pelo menos, quatro eleições; mas também a do eleito sobre como conquistou esse voto. Na prática, uma coisa é querer votar em fulano e assim se declarar em pesquisas; outra, na hora H, é precisar votar em outro. Também por isso aposto na desidratação da candidatura de Jair Bolsonaro quando a máquina eleitoral se puser a mercadejar. Ele não tem — não terá — um partido com memória, com musculatura capaz de atuar no negócio do voto; noção que talvez explique em parte seu desassossego por encontrar (e dirigir) um com dinheiro e algum tentáculo.
Não se pode analisar — não a sério — o tabuleiro para as eleições de 2018 sem pesar o mapa eleitoral estabelecido no pleito municipal de 2016. Daí por que muito crescerá, de modo mesmo a colocá-la no segundo turno, a candidatura de Geraldo Alckmin. As trapalhadas de seus caciques são desprezíveis ante o fato de que o partido avançou consistentemente na última eleição: foi o mais votado, nacionalmente, para prefeito, e terminou tecnicamente empatado com o PMDB (o aliado desejado por qualquer um que pretenda vencer) no número de votos para vereador.
Ninguém elege cerca de 800 prefeitos e mais de cinco mil vereadores, como os tucanos, sem que se projete esse capital sobre a próxima disputa. Isso também explica por que partidos amorfos como PSD, PSB, PDT, PP, PTB e PR são tão cobiçados para coligações — não apenas pelo tempo de TV, mas porque elegeram muitos representantes e têm acesso material às pontas mais remotas e aos núcleos urbanos mais fechados do país. É como — onde — se vence.
Tapa na cara de quem crê na saúde institucional brasileira, o texto pode ser lido em: www.revistaamalgama.com.br/01/2018/eleicao-2018-jair-bolsonaro-os-fracos-nao-tem-vez.
Carlos Andreazza é editor de livros e colunista de O Globo
Artigo publicado no jornal O Globo, em 09.01.2018

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