Depoimento revela frieza de assassino confesso de psicóloga em Ipanema

Valter Higino contou à polícia que ainda terminou serviço de pintura que realizava no prédio após o crime
POR VERA ARAÚJO/O GLOBO
Valter Higino já havia trabalhado em obras no apartamento da vítima - Reprodução / DH
RIO - A prisão do assassino confesso da psicóloga aposentada Maria Lúcia Magalhães, de 72 anos, deixou perplexos os moradores do edifício, em Ipanema, onde a vítima foi morta. Apontado pela Delegacia de Homicídios da Capital (DH) como autor do crime, Valter Higino convivia com todos do prédio há três anos, desde que foi contratado para a manutenção do condomínio. No último 11 de setembro, dia do crime, Higino pintava a porta da lixeira no terceiro andar, onde Maria Lúcia morava, quando ela teria saído do apartamento e reclamado da bandeja com tinta em sua porta. Em sua versão, Higino conta que, largou o serviço, discutiu com a aposentada e a empurrou. A idosa caiu, sofreu uma lesão traumática na coluna vertebral, ocasionando a ruptura da medula. Receoso de que ela não estivesse morta, amarrou as mãos da vítima e enfiou um saco plástico em sua cabeça, colocando o corpo numa banheira cheia d’água. Mas Higino demonstrou ainda mais frieza quando voltou à lixeira para concluir a pintura. O corpo só foi descoberto dois dias depois, quando a faxineira chegou para fazer a limpeza.
No dia do crime, Higino prosseguiu com a sua rotina normalmente. Ao término do serviço na lixeira do terceiro andar, foi até o playground e pintou todo o pátio. Entre um trabalho e outro, no entanto, trocou de camisa. Havia percebido que, na altura do ombro, havia uma mancha de sangue de Maria Lúcia que poderia chamar atenção. Uma análise das imagens das câmeras de segurança do edifício fez com que os investigadores da DH Capital percebessem a troca e começassem a desconfiar dele. Mesmo assim, pelo fato de ser pintor, não seria tão improvável tal substituição de roupa. Ainda havia poucas provas contra ele. Higino trabalhou normalmente no prédio até a última sexta-feira, dia 19, quando, ao ser chamado para depôr pela segunda vez, caiu em várias contradições e acabou confessando o crime.
A falta de uma câmera instalada no andar de Maria Lúcia dificultou as investigações. O trabalho da perícia feita pelo Grupo Especial de Local de Crime (GELC) foi fundamental para comprovar o envolvimento de Higino. No entanto, a real motivação ainda não está clara. Embora uma testemunha tenha contado que o pintor já teria feito um serviço para a vítima, e uma vizinha tivesse ouvido Maria Lúcia, aos gritos, dizer que não daria mais dinheiro, justamente no dia do crime, o suspeito conta outra versão. Em seu segundo depoimento à DH Capital, Higino conta que ficou com raiva dela, porque a aposentada o insultou. Por isso, ele disse que a empurrou. Chegou até a dizer que ela gritou, quando bateu a cabeça num banco, na sala do apartamento.
— Higino teve uma discussão com Maria Lúcia, alegando ter sido vítima de racismo. A versão dele é de que ela, ao ver o material de pintura em frente à sua porta, teria reclamado, chamando-o de "macaco". É óbvio que não temos como confirmar uma coisa dessas. Mesmo assim, nada justifica crime tão brutal — explica o delegado-assistente da DH Capital Rodrigo Brand.
A notícia da prisão de Higino também trouxe alívio para os moradores. Afinal, o autor do crime da vizinha, que era também era pesquisadora aposentada da Fundação Getúlio Vargas, vivia fazendo “bicos” nos apartamentos. Até a última sexta-feira, ele continuava circulando no prédio, não solucionando em nada o fato de o condomínio ter reforçado a segurança instalando mais câmeras.
— Estamos todos aliviados. É um coro aqui no prédio. Desde que o crime aconteceu, não tínhamos mais paz. Imagina, ter um assassino andando pelos corredores! Esperamos que a justiça seja feita — disse um morador, que não quis se identificar.
Nos três anos em que trabalhou no Edifício Solar do Príncipe João, na Rua Barão da Torre, em Ipanema, Higino, de 53 anos, sempre demonstrou ser um bom funcionário. Nunca chegava atrasado e executava os serviços com perfeição. Era considerado simpático, principalmente com as mulheres. Algumas empregadas domésticas que trabalhavam no edifício chegaram a reclamar de assédio por parte dele.
Antes de a polícia confirmar a identidade do assassino, ainda durante os primeiros depoimentos na delegacia, em setembro, houve quem desconfiasse de Higino. Ainda na sala de espera da Delegacia de Homicídios da Capital (DH), na Barra da Tijuca, onde funcionários, síndico e um morador do prédio aguardavam a hora de prestar depoimento, o assunto era um só: quem poderia ter assassinado, com requintes de crueldade, a moradora Maria Lúcia?
Na roda de conversa, eles lembravam que o pintor tinha feito um serviço para a aposentada, fato que Higino negou na delegacia. Depois de depôr por quase duas horas, pálido, o pintor saiu apressado da DH, quase sem se despedir. Não perdeu tempo nem para reclamar com um dos colegas de trabalho, que brincou com ele: 'pensei que tivesse ficado preso'.
O titular da DH Capital, Fábio Cardoso, ressaltou a importância de as pessoas terem colaborado para a elucidação do crime. Ele lembrou ainda que o assassino convivia com a psicóloga:
— Várias pessoas indignadas com a covardia e a violência com que o autor cometeu o homicídio de Maria Lúcia ajudaram com informações. Esta contribuição, junto com o trabalho técnico desenvolvido pela DH Capital nesta investigação, permitiu que identificássemos e prendêssemos uma pessoa extremamente perigosa e desleal, que assassinou friamente, por motivo totalmente insignificante e bobo, uma senhora de 72 anos. Vale lembrar que ele conhecia e convivia com ela, dentro do seu próprio apartamento. Ele teve o ardil criminoso de procurar forjar um local do crime, visando dificultar a investigação do homicídio que cometera, ficando assim impune.
Higino responderá pelo crime de homicídio. Fábio Cardoso ressalta que ele não irá mais aterrorizar os moradores dos 112 apartamentos, nos 14 andares do edifício, em Ipanema.
— Imagina conviver com uma pessoa que pode voltar a matar só por se sentir contrariado? — questiona Cardoso.

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