Ishaan Tharoor - Expansão da China é auxiliada por recuo de Trump

‘Trump é o Gorbachov dos EUA’, o que não é boa referência; na China o russo é tido como aquele que derrubou um império
A primeira parada do presidente da França, Emmanuel Macron, na viagem à China esta semana não foi, curiosamente, Pequim. Macron chegou à China central por Xi’an, um município famoso por sua tumba imperial repleta de guerreiros em terracota, assim como por seu papel histórico como saída para a Rota da Seda. O presidente francês estava deliberadamente buscando o sentido de patrimônio histórico da China.
“Nossa relação está ancorada no tempo e, em minha opinião, é baseada em civilização, no sentido de que França e China são duas nações com culturas bastante distintas, mas que possuem uma vocação universal”, afirmou Macron à imprensa chinesa. “São dois países que sempre estiveram ávidos, em meio à distância, por encontrar e reconhecer o outro. É por todas essas razões que optei por começar minha visita de Estado por Xi’an — uma forma de vivenciar a antiga China.”
Macron aproveitou a ocasião para estender a mão a Pequim: “O que vim dizer é que a Europa está de volta”, afirmou, sinalizando um contraste entre o nacionalismo do tipo “EUA em primeiro lugar” do presidente Donald Trump com a abertura da China em relação a outros interlocutores no Ocidente. Por sua vez, o presidente Xi Jinping enfatizou seu desejo de “proteger o multilateralismo” e os pilares da economia global.
A retórica por si só já é um exemplo dramático do quão longe a China andou. Por décadas, o governante Partido Comunista atacou publicamente o “século de humilhação” sofrido pela China nas mãos dos poderes imperiais da Europa entre meados de 1800 a meados de 1900. O ressentimento em relação a esta experiência de bullying e coerção colonial, subjugação e guerra, permanece como um argumento crucial ao nacionalismo chinês.
Mas este discurso está sendo substituído por outro, uma narrativa nacionalista mais confiante, baseada no reassentamento da primazia histórica da China. Projeta-se que o Produto Interno Bruto do país vai superar o dos EUA até o fim da década. Os líderes chineses veem seus novos e ambiciosos projetos econômicos — tais como a vasta iniciativa de infraestrutura intitulada “Um cinturão, uma estrada” em toda a região central da Eurásia — como instrumentos para restaurar o papel tradicional de Pequim, como principal potência comercial da Ásia, lançando sombra sobre uma rede de países menos influentes.
“Dos poderes que dominaram o século XIX, a China é o único império rejuvenescido. O Partido Comunista comanda um amplo território arregimentado pelos dirigentes de etnia manchu da dinastia Qing por meio de guerra e diplomacia”, escreveu Ed Wong, ex-chefe da sucursal de Pequim do “New York Times”. “E o domínio pode crescer: a China está usando suas Forças Armadas para testar o controle potencial de fronteiras sob disputa, do Mar do Sul da China ao Himalaia, enquanto turbina o nacionalismo internamente.”
Os críticos da China veem sua assertividade sobre os mares e as manobras geopolíticas desde a África à Ásia Central como o trabalho de um Estado expansionista, autoritário que está exercitando seus músculos. Até mesmo Macron conclamou Pequim a ser justo em sua iniciativa de criar uma nova Rota da Seda para o século XXI. “Estas rotas não podem ser aquelas de uma nova hegemonia que transforma em vassalos aqueles com quem entra em contato”, disse ele esta semana.
Nenhum pensador sério acredita que a China irá suplantar os EUA como principal potência mundial. Mas o crescimento inexorável do país foi posto em evidência pelo ostensivo recuo americano determinado por Trump, que apagou o projeto de integração econômica com a Ásia da era Obama e se aproximou de Xi e da China com agendas e impulsos incoerentes.
“Com as pegadas da China por toda a região da Ásia-Pacífico já bastante disseminadas, os países da região estão percebem que os EUA estão se resignando a ter uma crescente irrelevância econômica”, escreveu no mês passado o ex-primeiro-ministro da Austrália Kevin Rudd. “As instituições financeiras americanas continuarão, é claro, importantes, assim como o Vale do Silício, como fonte de extraordinária inovação. Mas o padrão de comércio, a direção do investimento, e, cada vez mais, a natureza dos fluxos de capital intra-regional estão pintando um quadro distinto daquele que dominou a Ásia do pós-Guerra.”
Isso não representa necessariamente uma fonte de júbilo para os estrategistas chineses. A economia da China floresceu ao passo que a dos EUA, com ampla presença militar, ancorou a ordem regional no Pacífico. Pequim não está pronto nem interessado em substituir Washington em seu papel global.
“Trump parece ter pensado: se a China pegou carona, por que não podemos fazer o mesmo? Mas o problema é que os EUA são grandes demais. Talvez a melhor solução seja a China ajudar os EUA a dirigirem o ônibus, disse Jia Qingguo, reitor do Departamento de Diplomacia, da Universidade de Pequim, a Evan Osnos, da revista “New Yorker”. “O pior cenário é a China levar o veículo sem estar preparada. Além de não ter experiência, é muito custoso.”
“Creio que Trump é o Gorbachev dos EUA”, afirmou ao jornalista da “New Yorker” Yan Xuetong, reitor do Instituto de Modernas Relações Internacionais da Universidade de Tsinghua. Isto não é uma boa referência, como explicou Osnos: “Na China, Mikhail Gorbachev é conhecido como o líder que levou um império ao colapso.”
Mas ainda há temores sobre o significado para o mundo de um robusto império chinês, independentemente de quando isso venha a ocorrer. Sob Xi, desapareceram as esperanças de uma liberalização política; o espaço da sociedade civil encolheu e os dirigentes chineses estabeleceram um sofisticado e amplo estado de segurança tecnológico. A rósea narrativa de Xi sobre um destino compartilhado esconde uma sombra escura.
“Os cidadãos chineses e o mundo ganhariam se a China se tornasse um império cujo poder se baseie tanto em ideias, valores e cultura como em poder militar e econômico”, escreveu Wong do “Times”. “Por enquanto, o Partido Comunista recorre à força e à coerção, e pode ser isso que venha a substituir a minguante hegemonia dos EUA no palco global.”
Ishaan Tharoor é colunista de ais do “Washington Post”
(matéria foi publicada no jornal O Globo de 12.01.2018)

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