O divórcio de Trump e Bannon

O casamento de sucesso na campanha fracassa no governo – e os conservadores derrotam os nacionalistas no Partido Republicano
Steve Bannon com Roy Moore, que perdeu a eleição para senador pelo Alabama. Derrota foi golpe fatal na relação com Trump (Foto: Reuters/Jonathan Bachman)
A ruptura oficial entre o presidente americano Donald Trump e o ex-chefe de sua campanha Steve Bannon representa a vitória dos conservadores republicanos tradicionais sobre os nacional-populistas ligados a Bannon.
“Steve Bannon nada tem a ver comigo ou com minha presidência”, informou Trump ontem em comunicado. “Quando foi demitido, ele não apenas perdeu seu emprego, perdeu também a cabeça.”
As palavras de Trump foram uma reação à divulgação ontem, pelo jornal britânico The Guardian, dos primeiros trechos de Fire and Fury (Fogo e fúria), livro do colunista de mídia Michael Wolff sobre os primeiros nove meses do governo.
No relato de Wolff, Bannon usa as palavras “traiçoeiro” e “impatriótico” para referir-se ao episódio em que Donald Trump Jr. recebera uma advogada russa que lhe traria “material comprometedor” sobre Hillary Clinton. O filho de Trump, disse Bannon, “deveria ter chamado o FBI imediatamente”. O episódio desempenha papel central no caso que apura a intervenção russa na eleição.
Bannon saiu da Casa Branca logo depois de aconselhar Trump a condenar “ambos os lados” depois das manifestações neonazistas que deixaram um morto em Charlottesville em agosto passado. Mesmo assim, continuou a exercer influência sobre Trump. Nomes ligados a ele, como os assessores Stephen Miller ou Kellyanne Conway, permanecem no governo.
Seu prestígio sofreu um golpe fatal com o resultado na eleição para senador no Alabama. O democrata Doug Jones derrotou o republicano Roy Moore num estado em que os republicanos não perdiam nenhuma eleição havia mais de dez anos, vencido por Trump em 2016 com uma margem de 28 pontos percentuais.
A pedido de Bannon, Trump apoiara Moore, apesar das acusações de abuso sexual de menores que despertaram revolta entre os próprios republicanos. Moore era peça-chave entre as candidaturas para as quais Bannon fazia propaganda por meio de seu site Breitbart, com o objetivo de tomar espaço da ala conservadora tradicional do Partido Republicano nas eleições legislativas deste ano.
O discurso nacionalista de Bannon – um misto de fechamento de fronteiras à imigração, protecionismo econômico, combate ao multiculturalismo e saudosismo de uma era de ouro mitológica – foi essencial para a vitória de Trump. Com ele, Bannon deu alguma consistência ideológica ao estilo espontâneo e desprovido de conteúdo de Trump. A simbiose entre os dois é narrada em detalhes por Joshua Green em Devil’s Bargain (leia mais aqui).
Mas, como todo político sabe, governar é diferente de ganhar eleição. Uma das revelações do livro de Wolff é que, segundo Bannon, a própria campanha de Trump não esperava a vitória. O objetivo era, como na comédia The Producers, de Mel Brooks, usar a exposição como trampolim para a carreira dos envolvidos.
Num trecho extenso publicado pela revista New York, Wolff conta que, “no espaço de pouco mais de uma hora, na observação algo irônica de Bannon, um Trump atordoado se transformou num Trump incrédulo, então num Trump horrorizado”. Até ele se convencer, de repente, que merecia e era capaz de ser presidente.
Uma vez na Casa Branca, Bannon preparou uma lista de 200 decretos e passou a acompanhar em sua sala a execução das promessas de Trump nos primeiros cem dias de governo – da bem-sucedida saída do Tratado da Parceria Transpacífica (TPP) à fracassada revogação do programa de saúde Obamacare.
Foi Bannon o artífice do veto imigrantes de sete países de maioria muçulmana, medida tomada sem consultar o Departamento de Justiça nem nenhum organismo envolvido na implementação. Ela só entrou em vigor depois de modificada e, até hoje, enfrenta questionamento judicial.
Diante da necessidade de apoio no Congresso para governar, Trump foi obrigado a se aproximar das nêmeses de Bannon, os líderes da Câmara (Paul Ryan) e do Senado (Mitch McConnell). Ideias estapafúrdias, como a saída da Otan, cederam espaço ao programa republicano tradicional, que culminou na aprovação da reforma tributária no final do ano passado, a primeira medida legislativa de sucesso de Trump.
“Se há uma guerra civil no Partido Republicano, os conservadores estão vencendo”, escreveu David French em análise na National Review (tradicional publicação conservadora). A ala da Casa Branca representada por Jim Mattis (secretário da Defesa), H.R. McMaster (conselheiro de segurança nacional) e John Kelly (secretário da Casa Civil) conquistou o domínio sobre o dia a dia do governo.
Mas a situação está longe da estabilidade. A personalidade de Trump é imprevisível. Isso ficou claro mais uma vez na sequência frenética de 16 tuítes preventivos que lançou na terça-feira, já sabendo do terremoto que o livro de Wolff causaria – entre eles, a impagável disputa com o tirano coreano Kim Jong-Un pelo tamanho do… botão nuclear.
“À medida que se aproximam as eleições legislativas, conselheiros e políticas só podem ir até determinado ponto”, diz French. “Há ainda a questão do caráter (de Trump) e, se caráter é mesmo destino, então o Partido Republicano deve estar preparado para a derrota.” (G1)

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