Protestos marcam sete anos de revolução na Tunísia

Em Túnis, capital do país, milhares comemoraram queda de ditador Zine El-Abidine Ben Ali e pediram melhoras na economia
O Estado de S.Paulo
TÚNIS - Com protestos e confrontos com a polícia, os tunisianos marcaram neste domingo, 14, o sétimo aniversário da revolução que pôs fim a 23 anos de ditadura de Zine El Abidine Ben Ali, que foi o estopim da Primavera Árabe. A data foi marcada por um misto de orgulho pelo aniversário da queda do ditador, e por raiva diante da persistência das mesmas mazelas que continuam a afligir o país: pobreza, desemprego e corrupção.
Sob forte esquema de segurança, centenas de partidários de diferentes movimentos foram à avenida Habib Burguiba, epicentro dos protestos de janeiro de 2011, marcar o aniversário da revolta que causou a queda de Zine El-Abidine Ben Ali após 23 anos de poder. 
No berço da Primavera Árabe, milhares tunisianos protestam contra reforma fiscal do presidente Beji Caid Essebsi Foto: AP Photo/Hassene Dridi
Membros do coletivo cidadão "Manich Msamah" ("Eu não perdoarei", em tradução livre) desfilaram exibindo fotos de mártires da revolução, enquanto jovens manifestantes pediam emprego. Partidos políticos instalaram estandes. 
A revolução "é a melhor coisa que poderia ter acontecido, apesar das dificuldades. Enquanto houver pessoas (que acreditam nela), haverá esperança", afirmou Mohamed Wajdi, jovem tunisiano que participou das comemorações.
Sete anos após a queda de Ben Ali, que vive exilado na Arábia Saudita, muitos tunisianos acreditam que ganharam liberdade, mas perderam em padrão de vida.
Onde estão os líderes da Primavera Árabe hoje
Apesar do sucesso relativo de sua transição democrática, a Tunísia não se livrou da morosidade econômica e social. Na semana passada, protestos pacíficos e distúrbios noturnos abalaram várias cidades.
Cesto vazio
Alimentado por um desemprego persistente - de 15%, segundo dados oficiais -, o descontentamento social tem sido exacerbado pelos aumentos de impostos previstos para 2018, abocanhando um poder de compra que também é afetado pelo aumento da inflação - mais de 6% no final de 2017.
Os manifestantes exigem a revisão do orçamento votado em dezembro, mas também uma luta mais efetiva contra a corrupção.
Em frente à sede do poderoso sindicato UGTT, milhares de pessoas se manifestaram, como Fued El-Arbi, que exibia uma cesta vazia com a menção "2018". "Esta cesta vazia resume a nossa situação medíocre sete anos após a revolução", criticou este professor de filosofia.
O UGTT convocou uma passeata no centro da cidade, assim como a Frente Popular, de oposição. O partido esquerdista foi acusado pelo primeiro-ministro Yussef Chahed de ser responsável pela agitação desde o começo do ano, quando cerca de 803 pessoas foram presas por suspeitas de violência, roubos e saques, de acordo com o Ministério do Interior.
Organizações locais e internacionais de defesa dos direitos humanos denunciam, no entanto, que entre os detidos estão ativistas e jornalistas, em uma aparente campanha de intimidação por parte do governo.
O presidente Beji Caid Essebsi marcou o aniversário visitando o bairro de Ettadhamen, na periferia de Túnis, onde ocorreram confrontos entre jovens manifestantes e as forças de segurança na semana passada.
'Livres, mas com fome'
A revolução tunisiana foi desencadeada pela autoimolação, em 17 de dezembro de 2010, em Sidi Buzid - cidade no interior do país - do vendedor Mohamed Buazizi, desesperado com a pobreza e a humilhação da polícia. 
Sob pressão popular, o presidente Ben Ali fugiu do país em 14 de janeiro. O levante fez 338 mortos.
Para a cientista político Olfa Lamloum, a agitação social dos últimos dias "revela uma raiva carregada pelas mesmas pessoas que se mobilizaram em 2011 e não conseguiram nada". 
"Faz sete anos que não vemos nada entrar. Temos a liberdade, é verdade, mas estamos com mais fome do que antes", resumiu Walid, um desempregado de 38 anos em Teburba, perto de Túnis.
O movimento social foi lançado no início de janeiro sob o lema "Fech Nestannew" ("O que estamos esperando?"), cujos instigadores exigem mais justiça social em resposta aos aumentos de impostos decididos no novo orçamento.
Em dificuldade financeira, especialmente após a crise no setor turístico ligada a uma série de ataques jihadistas em 2015, a Tunísia obteve em 2016 um empréstimo de € 2,4 bilhões ao longo de quatro anos do Fundo Monetário Internacional (FMI). Em troca, comprometeu-se a reduzir seu déficit público e reformas econômicas.
Para conter o ambiente de tensão, o governo anunciou ontem que reajustará o auxílio estatal das famílias mais necessitadas para amenizar os efeitos dos ajustes fiscais exigidos pelo FMI. / AFP E EFE

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