Aline Oliveira, rainha de bateria da Mocidade Alegre, vai desfilar tocando instrumento: 'Responsa'

Bailarina clássica e educadora física também toca surdo de terceira, tamborim e agogô.
Por Bárbara Muniz, TV Globo/G1
Aline Oliveira, rainha de bateria da Mocidade Alegre (Foto: Celso Tavares/G1)
Aline Oliveira, 27 anos, é a rainha de bateria da Mocidade Alegre, escola de samba do bairro do Limão, Zona Norte de São Paulo, que frequenta há 16 anos.
Bailarina clássica, Aline já cansou de ouvir que é "muito branca e magra para o posto", mas acha que não precisa mais provar nada para ninguém.
"As pessoas criaram esse protocolo de que precisa ser negra e gostosona para ser rainha. Mas parei de ‘levar para o fígado’ esses comentários. Se não fosse para dar certo eu não estaria há sete anos na frente da bateria", diz ela.
Este ano, a Mocidade Alegre vai levar para a avenida um enredo sobre a cantora Alcione, que está completando 70 anos de idade e 45 de carreira. Veja a letra e ouça o samba.
1) Você é educadora física. Como foi parar no carnaval?
A primeira vez que pisei na escola, pensei ‘O que é que eu estou fazendo aqui?’. Eu tinha 9 anos e era muito tímida, então minha irmã mais velha me levou para a aula de teatro que tinha na escola de samba. Comecei a me envolver e fiquei.
Segui estudando balé clássico e aprendi a tocar instrumentos porque sempre achei o máximo mulher tocando. Em 2012 eu já estava na faculdade e pensava em sair da escola porque precisava estudar, mas aí me convidaram para ser rainha.
Aline Oliveira diz que já cansou de ouvir que é "muito branca e magra para o posto", mas acha que não precisa mais provar nada para ninguém. (Foto: Celso Tavares/G1)
2) É o sonho de toda mulher ser rainha de bateria?
Não acredito que seja o sonho de toda mulher não, mas quando se gosta de dançar e é picado pelo bichinho do samba (risos)... Quem começa a frequentar uma escola sonha com esse cargo! Mas o pré-carnaval é cansativo, não é só glamour, é muito trabalho e responsabilidade.
Eu venho sozinha à frente da bateria, é uma responsa de peso. Mas também é uma emoção única. Quando você está lá não tem como definir, é maravilhoso. Desfilar no coração da escola é imensurável.
Aline Oliveira: 'Desfilar no coração da escola é imensurável' (Foto: Celso Tavares/G1)
3) Quais instrumentos você toca?
No desfile eu toco surdo de terceira, mas fora isso eu toco tamborim e agogô.
Aline Oliveira toca surdo de terceira, tamborim e agogô. (Foto: Celso Tavares/G1)
4) O que já aconteceu de pior com você durante o desfile na avenida?
Já aconteceu comigo do costeiro quebrar e ter de correr em soldeiro no dia do desfile. O salto ainda você tira e sai descalça. Em 2011, o carro não entrou e eu era destaque, foi surreal. É uma dor e você não pode fazer nada. Vi a escola passar da televisão e foi desesperador.
Por mais que a gente se organize, sempre acontece uma coisinha ou outra. A preparação é nos ensaios técnicos, quando a gente sente melhor onde deve trabalhar a coreografia. No dia, tudo é três vezes maior porque tem a fantasia, o salto e a cabeça. A gente chega cedo no hotel, leva uma alimentação bacana. Passo uma hora com as pernas para cima me concentrando.
Aline Oliveira costuma ficar uma hora com as pernas para cima antes do desfile, se concentrando. (Foto: Celso Tavares/G1)
5) O que o público pode esperar da sua fantasia? O que você vai representar no enredo?
Não posso adiantar nada, não posso estragar a surpresa! Mas vai ser incrível e mais leve, o que é um ponto bom, positivo, e me deixa livre na hora de fazer uma performance diferente.
Aline Oliveira guarda segredo sobre a fantasia de 2018, mas adianta: a roupa será algo leve, que a deixará livre para fazer uma performance diferente. (Foto: Celso Tavares/G1)
6) A Mocidade Alegre vai homenagear a cantora Alcione. O que você achou do tema da escola este ano?
Achei o tema incrível. Não conhecia a fundo a história dela. É um tributo em vida por tudo o que ela faz para o nosso samba não morrer. Está sendo incrível descobrir tanta coisa que ela já fez e pelo que lutou. Estou amando e estou muito confiante. Nós, do samba, gostamos de resgatar a essência. E ela é uma fofa!
Aline Oliveira diz que já sofreu preconceito bo carnaval por ser magrinha. (Foto: Celso Tavares/G1)
7) Você sofre preconceito por participar do carnaval?
Preconceito por ser do carnaval, não, mas já sofri por ser magrinha. Muita gente me falava que eu não tenho peito nem bunda - até hoje eu ainda escuto isso. As pessoas criaram esse protocolo que para ser rainha de bateria tem de ser negra e gostosona. Mas parei de levar para o fígado. Se não fosse para dar certo, eu não estaria lá há sete anos.
Aline Oliveira: "As pessoas criaram esse protocolo que para ser rainha de bateria tem de ser negra e gostosona. Mas parei de levar para o fígado. Se não fosse para dar certo, eu não estaria lá há sete anos. " (Foto: Celso Tavares/G1)
8) No último ano milhares de mulheres romperam o silêncio e denunciaram assédios que sofreram nas suas vidas e no trabalho. O que você achou deste movimento? Acha que mudou alguma coisa na relação entre os homens e as mulheres (em geral) e entre homens e musas de escolas de samba?
Eu acho que é sensacional esse tipo de manifestação. As mulheres estão a cada dia mais fortes e independentes, e acho que temos de nos manifestar e denunciar mesmo. Eu acho muito bacana esse tipo de movimento. E acho que as coisas já estão mudando.
Antes os homens mexiam mais com as mulheres nas ruas. Hoje em dia a gente já se impõe e vai para cima. Não tem mais essa do cara mexer e a gente passar de cabeça baixa. No samba isso já chegou também. Eu sinto um respeito muito grande em relação a mim, sinto que as pessoas estão respeitando mais. Mas também vai da forma como nos impomos. Eu acho que tem de levantar a cabeça, não podemos aceitar.
Aline Oliveira sobre assédio: "Tem de levantar a cabeça, não podemos aceitar." (Foto: Celso Tavares/G1)
9) Recentemente, as celulites da cantora Anitta no clipe ‘Vai Malandra’ provocaram uma forte reação na internet. O que você achou da Anitta se mostrar como é? O que faz para evitar a celulite na avenida? E se elas não desaparecerem a tempo do desfile, o que você acha?
Eu sou muito fã da Anitta, achei sensacional. Ela tem uma vida, tem coisas para cuidar, então é o mundo como ele é. A gente não precisa se maquiar. Tem os momentos de você se maquiar, mas somos seres humanos.
Eu dou muita aula de ginástica e também por isso sou magrinha, então não tenho tanta celulite, mas tenho estrias. Na avenida tem os truques de passar óleo. Fico louca, fico possuída. Só não uso meia porque não dá, mas tenho meus truques.
Aline Oliveira diz que tem seus truques para entrar na avenida, como passar óleo no corpo. "Só não uso meia porque não dá", diz. (Foto: Celso Tavares/G1)
10) Algumas escolas de carnaval estão inseridas em locais em que a violência é cotidiana. Como é no caso da sua escola? Você acha que o carnaval tem alguma função positiva neste cenário, acha que pode ajudar a trazer algum tipo de alegria ou esperança para estas populações?
Ajuda sim, sem dúvida. As escolas são escolas de samba. Não é só o desfile com plumas e paetês. Na Mocidade temos várias ações durante o ano e várias pessoas vêm conhecer e fazer aulas, temos ações de arrecadar brinquedos para crianças carentes no Dia das Crianças... É muito importante ter a escola inserida nesse meio e unir as pessoas sem preconceito. Não podemos nos esquecer disso, é o ano todo trabalhando para uma comunidade de verdade, aquela que rodeia a escola.
Aline Oliveira: "As escolas são escolas de samba. Não é só o desfile com plumas e paetês. Na Mocidade temos várias ações durante o ano e várias pessoas vêm conhecer e fazer aulas." (Foto: Celso Tavares/G1)

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