EDITORIAL DO JORNAL O GLOBO: Acordo político na Alemanha reforça o centro e a UE

Conservadores e socialistas chegam a acerto para mais um mandato de Angela Merkel, pondo fim a meses de negociações e incertezas. Pacto recoloca país na liderança do bloco
Após um longo mês de tensas conversas, que culminaram numa maratona final de 24 horas de negociações, os líderes do Partido Social-Democrata (SPD, na sigla em alemão) e da União Democrática Cristã (CDU, de centro-direita) chegaram a um acordo que, se for ratificado pela base do SPD, que tem 464.300 filiados, permitirá a formação de um governo nas próximas semanas, o quarto mandato da chanceler Angela Merkel. Pelo acordo, os socialistas ficarão com os ministérios de Finanças, do Trabalho e de Relações Exteriores, ampliando o poder da esquerda na coalizão de centro.
A união entre os dois maiores partidos da Alemanha não é nova, mas ficou abalada após o pífio desempenho do partido socialista nas últimas eleições. Analistas viram na derrota histórica do SPD, em setembro do ano passado, quando tiveram menos de 20% dos votos, o preço cobrado ao partido por sua aliança com os conservadores. A simbiose com o partido de Merkel abalou a identidade ideológica dos socialistas.
O líder do partido, Martin Schulz, decidiu, ouvindo o clamor das bases, desfazer a coalizão, o que levou Merkel a buscar uma nova combinação, dessa vez com os liberais e os verdes. Mas as negociações também fracassaram, e o CDU se viu sem os votos necessários para formar um governo. Agora, para atrair os socialistas, a chanceler teve que fazer importantes concessões, irritando setores da base conservadora.
Sem um pacto que garanta maioria no Parlamento, novas eleições serão convocadas, abrindo espaço para mais um avanço da extrema-direita e outros grupos nacionalistas e contrários à integração europeia. Nesse sentido, o acordo entre as forças de centro da Alemanha tem importância para toda a União Europeia (UE), podendo reforçar a liderança de Merkel no bloco.
A dificuldade para formar um governo fez a Alemanha perder espaço na arena global, num momento em que o presidente francês, Emmanuel Macron, emergiu como um importante líder europeu, invocando a renovação da UE. Além disso, o bloco enfrenta desafios complexos, como o distanciamento dos EUA na gestão de Donald Trump, enfraquecendo o fluxo do comércio internacional e estimulando o avanço de China e Rússia. Isto sem falar nas questões que afetam diretamente a UE, como o Brexit, a crise humanitária de refugiados e imigrantes e o fechamento do regime turco, de Recep Tayyip Erdogan.
or outro lado, se o acordo for confirmado pela base socialista, a Alemanha poderá voltar a assumir um papel de liderança na UE, ao lado da França. Emitirá também um importante sinal aos demais países do bloco, reforçando a defesa de uma integração globalmente, responsável em termos fiscais e sustentável politicamente, além de enfrentar em melhores condições de força a ideologia nacional-populista, que vem crescendo, sobretudo nos países da Europa do Leste.

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