EDITORIAL O GLOBO - Violência ultrapassa todos os limites no Rio

Pergunta-se por que o Plano Integrado, já entregue pelo governo federal às autoridades fluminenses, ainda repousa nas gavetas da Secretaria de Segurança
O que impressiona na dramática escalada da violência no Rio é a quebra diária de paradigmas sem que nada seja feito para interromper esse avanço da barbárie. Na quarta-feira da semana passada, a Linha Amarela foi fechada por quatro vezes, num intervalo de apenas duas horas, em consequência de um confronto entre policiais militares e traficantes que deixou três mortos na Cidade de Deus. As cenas de terror protagonizadas por motoristas e passageiros — mães com crianças correndo para se proteger dos tiros, policiais usando carros particulares como barricadas — foram captadas pelas câmeras de telefones celulares e rapidamente viralizaram nas redes. No dia seguinte, as imagens já eram velhas, pois um novo tiroteio nas imediações da Cidade de Deus levou à interdição da Linha Amarela, por cerca de 40 minutos, depois que uma viatura da Polícia Militar foi atacada por traficantes. E o pesadelo se repetiu. Mas isso também já ficou ultrapassado. Anteontem, faltando somente três dias para o carnaval, a Linha Amarela, a Linha Vermelha e a Avenida Brasil — as três principais vias expressas do Rio — foram bloqueadas de uma só vez, fato inédito na cidade, devido a uma operação policial no Complexo da Maré.
Às cenas de pânico e impotência diante do poderio cada vez maior dos bandidos, somou-se a dor de mais uma tragédia. O adolescente Jeremias Moraes, de 13 anos, que jogava futebol num campinho da Favela Nova Holanda, na Maré, foi morto com um tiro no peito durante confronto entre PMs e traficantes. O crime que choca a cidade soa como uma contundente rotina na comunidade. Como mostrou reportagem do GLOBO, o complexo de favelas registrou 108 tiroteios em 2017, com 42 mortos, mais que o dobro do ano anterior.
Na mesma terça-feira sangrenta, a menina Emilly Sofia, de 3 anos, foi morta durante tentativa de assalto em Anchieta. Ela havia acabado de sair de uma lanchonete com os pais quando bandidos dispararam contra o carro da família.
Em nota, o governador Luiz Fernando Pezão lamentou a morte das crianças. Disse que estava “indignado como toda a população" e que “essa não é a cidade que nós queremos”. Não é mesmo. Mas cabe a Pezão bem mais que indignar-se. Afinal, ele foi eleito governador de um estado que, claramente, está à deriva.
É verdade que o estado sozinho não conseguirá enfrentar essa guerra, até porque ela não é só do Rio. Trata-se de um problema que perpassa as unidades da Federação e hoje chega a ser transnacional. Por isso, o apoio da União é fundamental. Mas pergunta-se por que o Plano Integrado de Segurança, já entregue pelo governo federal às autoridades fluminenses, ainda repousa nas gavetas da Secretaria de Segurança. Pezão diz que ele ainda está sendo analisado. Como se tivéssemos todo o tempo do mundo.
Não, esse tempo expirou há muito. Não se pode esperar por outros Jeremias e Emillies.

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