Na cultura, a resistência

Flávia Oliveira, colunista de
O GLOBO
O mês de luto e brutalidade deveria ser eternizado por Chico, Martinho da Vila e ‘Bibi, uma vida em musical’ nos palcos
Peço licença à Cidade de Deus, à Rocinha, à Mangueira, ao Jacarezinho, ao Morro da Formiga e ao São Carlos. Meus respeitos à mãe do jovem Samuca, garçom que teve o peito atravessado por bala de fuzil durante o trabalho; às famílias da dúzia de policiais e de todos os civis assassinados no estado em 31 dias. Meu repúdio ao prefeito que alegou inexperiência para justificar o ano de mau governo. Meu desprezo às autoridades que, em pleno recesso parlamentar, empurraram a democracia alguns degraus abaixo com a barganha política rasteira. Não parece o começo de um ano novo feliz. Mas eu preciso falar de uma cidade que, em luto fechado, sem nada a festejar, produziu beleza. No janeiro que chegou ao fim com o eclipse da Superlua Azul de Sangue – talvez, por isso –, Chico Buarque cantou, “Bibi, uma vida em musical” estreou, Martinho festejou a Vila Isabel no shopping mais opulento. Nos palcos, o Rio resiste.
Foi a cultura que iluminou a cidade do carnaval ameaçado, da saúde esfacelada, da segurança pública em frangalhos, da vida em risco. No Rio soterrado pela tristeza, um grupo de artistas eternizou um janeiro. Luiz Antonio Simas, historiador, amigo e colega colunista, costuma citar em aulas a céu aberto, conversas de bar e textos consagrados a frase definitiva do sambista Beto Sem Braço: “O que espanta a miséria é festa”. A sentença virou profecia neste verão de Sapucaí esvaziada dos ensaios técnicos, de tiroteio a qualquer hora, de governantes sem ação.
O afago começou com Chico Buarque em temporada de um mês, após seis anos longe dos palcos da cidade. Quando o último show entrou em cartaz, o Brasil ainda surfava a onda do alto crescimento econômico e do baixo desemprego. Hoje é o contrário. O Rio se preparava para receber a safra de megaeventos e o legado em transporte, segurança, bem-estar social. Colheu mal-estar generalizado.
Por hora e meia, as letras e a voz do poeta, os músicos, a luz de Maneco Quinderé nos aliviaram as feridas. Nada de mau pode acontecer, quando Chico canta “Iolanda”, “As vitrines”, “Tua cantiga” (recém-nascida e já clássica), “Futuros amantes”; se, chapéu na cabeça, homenageia Wilson das Neves, uma saudade de 2017. Em tempos de intolerância galopante, Chico emenda “Gota d’água”, “As caravanas” e “Derradeira estação”, e nos convence de que cultura é a religião que salva.
Amanda Costa encarna Bibi Ferreira no musical que homenageia, mais que a grande dama, o teatro brasileiro. Artur Xexéo e Luanna Guimarães escreveram, Tadeu Aguiar dirigiu o espetáculo que reverencia as artes cênicas e seus grandes nomes, a começar por Procópio Ferreira, pai de Bibi e ícone da luta pela regulamentação do ofício dos artistas. O musical faz lembrar que tempos sombrios existiram e foram superados. O teatro, gigante, sempre reagiu à caretice, à censura, à ditadura, ao que é minúsculo. “Bibi” abraça o carnaval, sob ataque, ao reviver o reconhecimento da Unidos de Viradouro à artista, enredo de 2003.
Martinho, às vésperas de completar 80 anos, festejou a trajetória de sucessos, mas, sobretudo, saudou a Vila Isabel, escola do bairro (ou bairro da escola) que lhe empresta o nome. O povo do samba assentado no Morro dos Macacos, vestido de azul e branco, tomou o Village Mall, shopping dos ricos da Barra, e fez a festa.
No janeiro crivado de mágoas, os palcos deram o recado. Não há território impenetrável à música. Nem coração. A brutalidade recua, a desigualdade sucumbe, a vida recupera o sentido sob a enxurrada de voz, violão, surdo, pandeiro. Cantemos. (Flávia Oliveira, colunista de O GLOBO)

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