O bispo mente até falando a verdade

Enquanto o pau comia, o prefeito do Rio, a 10 mil quilômetros, fingia estar excitado como um nerd diante das inocentes evoluções de um drone escandinavo
Por Celso Arnaldo Araújo
O pastor evangélico Marcelo Crivella, prefeito do Rio (Reprodução/Divulgação)
Celso Arnaldo Araújo
O sedizente prefeito Crivella voltou ao Rio na surdina e já se reincorporou ao cenário carioca como um fantasma. Seu espectro foi visto hoje a caminho de uma cerimônia no Palácio da Guanabara, ao lado de autoridades, incluindo Temer, para ultimar a intervenção federal no estado. Não que ele fizesse qualquer diferença no evento. Ele já está sob intervenção de sua inércia faz tempo.
Tanto faz Crivella estar de camisa polo no bondinho do Pão de Açúcar ou encapotado, pisando na neve de Västervik, na Suécia, onde gravou o último vídeo que postou em sua viagem malandra à Europa: sua ausência sempre virá preencher uma lacuna. Mas desta vez foi diferente. Com essa viagem – não por sua ausência do Rio, mas sua presença na Europa – Crivella atingiu as profundezas do inferno político, latitude gravíssima para um autointitulado bispo. A fim de não permanecer em sua cidade durante o período mundano do Carnaval, o prefeito sacrossanto inventou um roteiro de vigário. Acompanhado de seus cristianetes, falsas testemunhas de seu enredo fantasioso de viagem, inventou um versículo que não cabe em nenhuma bíblia da segurança pública no Brasil: iria à Alemanha, à Áustria e à Suécia, em incursão oficial, para conhecer tecnologias de segurança aplicáveis ao Morro da Previdência ou à Rocinha. Três países europeus com índices baixíssimos de criminalidade iriam ensinar ao Rio de Janeiro, via Marcelo Crivella, como evitar que balas perdidas mortais saíssem dos tambores não-carnavalescos da cidade.
Foi de início a uma feira espacial na Alemanha, onde nenhum expositor fez menção a um reles estilingue de guerra ou deu conta de sua presença (como os cariocas, quando ele está na cidade); depois deu um pulo na Áustria, onde não se sabe o que não fez, e encerrou o périplo de vigário na Suécia, onde assistiu – como se vê no vídeo – ao voo silencioso e gelado de um pacífico drone, hoje figurinha fácil até em feiras teen de tecnologia no Rio Centro ou no Expo Center Norte de São Paulo. Enquanto o pau comia e o Rio submergia, seu prefeito, a 10 mil quilômetros de distância, fingia estar excitado como um nerd diante das inocentes evoluções de um drone escandinavo que só detectou, na superfície, a paisagem local imaculadamente branca, sem um pingo do vermelho que hoje tinge o Rio.
Marcelo Crivella é uma figura do reino de Deus abaixo do inconfessável. Mente aos cariocas até falando a verdade. Perto dele, Pezão é a versão bigfoot de Winston Churchill. O fato é que poucos políticos brasileiros teriam a coragem de inventar uma viagem à Suécia…indo à Suécia. No inverno. No Carnaval.
(matéria transcrita da coluna de Augusto Nunes em 17.02.2018)

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