O russo terceirizado que apoiou Trump: mistério ou palhaçada?

Com serviços de inteligência sofisticados, Vladimir Putin preferiu ex-dono de barraquinha de cachorro quente para tentar interferir na eleição americana
Agente 000: Prigozhin, de taça na mão, presta serviços de amplo espectro a um amigo muito importante (Misha Japaridze/Pool/AP)
O maior enigma das tentativas de favorecimento de Donald Trump feitas agentes russos talvez esteja na Rússia, não nos Estados Unidos.
Tendo à sua disposição órgãos altamente especializados em espionagem, infiltração, guerra psicológica e cibernética, e sendo ele próprio um ex-agente da KGB, por que Vladimir Putin usou um amador para uma operação como as manobras para manipular a opinião pública americana?
Por que os contratados pela “fábrica de trolls” que fazia posts e anúncios na internet, na maioria toscos, eram civis, sem treinamento como agentes de inteligência de um país cuja tradição no ramo remonta à época dos czares?
Por que a tal “fábrica” já tinha reduzido operações desde 2014, justamente o ano em que começou a “atuar” nos Estados Unidos?
Por que o dono do empreendimento é um milionário que fez fortuna no ramo da alimentação, no qual começou com barraquinhas de cachorro quente?
Por que a operação tinha um orçamento anual na casa de um milhão de dólares, ridículo para o tamanho do estrago que supostamente fez?
Estas são apenas algumas das perguntas que devem ser feitas desde que o FBI anunciou o indiciamento, inteiramente pró-forma, uma vez que se trata de cidadãos estrangeiros, de treze russos que comprovadamente participaram da operação.
No alto da lista está Evgeny Prigozhin, uma figura folclórica que se aproximou de Putin quando abriu um restaurante flutuante em São Petersburgo, o Nova Ilha.
Caviar e conversa levaram a uma situação conhecida, com contratos milionários para o fornecimento de refeições em escolas e, depois, para as Forças Armadas,
Prigozhin ficou conhecido como “o chef de Putin”. Sem a letra E, evidentemente. Com ela, só o próprio Putin.
Condenado por roubo na juventude, com nove anos de cadeia, Prigozhin alcançou o padrão de vida dos oligarcas: mansão em São Petersburgo, iate, casa de veraneio no Mar Negro e percalços da vida, como perda de contratos com o Ministério da Defesa e investigações na Justiça.
Seu leque de empresas que se desdobram, uma tática manjada, hoje inclui um negócio espantoso: uma empresa de segurança na Síria cujos honorários, por assim dizer, saem diretamente dos poços de petróleo ou das jazidas de minérios que seus mercenários conquistaram em áreas sob controle do Estado Islâmico.
A realidade é cheia de surpresas, algumas capazes de desafiar a credulidade, no topo da cadeia alimentar do dinheiro e do poder na Rússia.
Mas a “fábrica de trolls” de Prigozhin em São Petersburgo não tinha nada de secreta. Valentes jornalistas russos fizeram reportagens com apurações até mais completas do que aparece nos documentos do FBI. Uma repórter chegou a trabalhar lá para saber como funcionava.
A Agência de Pesquisa da Internet, nome da empresa, entrou no ramo da trolagem para fazer campanhas de difamação contra o mais conhecido oposicionista russo, Alexei Navalny. “A mídia russa começou a fazer reportagens sobre o assunto em 2013”, disse ao Washington Post o jornalista Andrey Zakharov.
“Somente algumas pessoas são realmente da direção da fábrica de trolls. Muitos não trabalham mais lá faz tempo”, disse ele sobre os indiciados pelo FBI.
Zakharov também comentou que os partidários mais linha dura de Putin adoraram o efeito da modesta operação de desinformação. Ele definiu assim a reação deles: “Olhem o que os russos conseguem fazer! Somente 90 pessoas com dois milhões de dólares abalaram a América”.
Algumas das “intervenções” do pessoal de Prigozhin entraram no campo da palhaçada. Pagaram, por exemplo, a uma americana para que se vestisse de Hllary Clinton com uniforme de presidiária. Desfilou numa cela montada numa picape.
Um dos anúncios na internet mostrava Bernie Sanders, o candidato alternativo do Partido Democrata, como um super-herói.
Outro reproduzia uma ilustração clássica de Jesus Cristo e seu adversário das trevas. “Se Hillary ganhar, será a vitória de Satã. Clique aqui para apoiar Jesus”. Poderia estar no Saturday Night Live.
Os trolls russos inventaram um grupo, o Black Fist, ou Punho Negro, para emular a retórica agressiva do Black Lives Matters. Depois da eleição de Trump, atingiram o ápice do que seria um plano requintado de desestabilização da sociedade americana com recursos mínimos: convocaram manifestações contra e a favor de Trump.
Seria, no condicional, porque a execução tosca desmerece a tradição russa em operações de desinformação e na tática da maskirovka, o uso de embustes e falsos movimentos que saiu do campo exclusivamente militar para o da manipulação de fatos e sua percepção.
“Os americanos são um povo muito impressionável”, tripudiou Prigozhin, o cozinheiro-espião, depois do indiciamento do FBI, ancorado em fatos que na maioria já tinham sido trazidos ao conhecimento público.
O fato é que a operação patética realmente funcionou ao atiçar os ânimos já em carne viva com o advento de Donald Trump na política.
Qual a sua participação real em termos de influência no resultado eleitoral é impossível saber.
Trump não precisa de russos para levar muitos americanos à loucura, como demonstrou com o arrastão de tuítes misturando a investigação sobre a campanha de desinformação com o triste fiasco do FBI – mais um – no caso do ex-estudante que matou 17 pessoas na sua escola da Flórida.
O ódio a Trump também exerceu uma influência negativa no próprio FBI e no Departamento de Justiça, envolvendo figuras do alto escalão em iniciativas ditadas por preferências políticas. Tem até o caso do agente e da advogada do FBI que estavam tendo um romance enquanto planejavam detonar a candidatura Trump.
O FBI chegou a pagar ao ex-agente inglês que preparou um dossiê com acusações contra Trump ,encomendado pela campanha de Hillary.
O dossiê, que fala em negócios suspeitos e na infame noitada envolvendo prostitutas russa em performance sexual heterodoxa, foi plantado por múltiplas vias no FBI, nos Departamentos de Justiça e de Estado, junto a senador John McCain e na imprensa.
A empresa de investigações formada por dois jornalistas americanos, contratante do ex-espião inglês, também prestou serviço a outro oligarca amigo de Putin, Oleg Deripaska.
Não seria impossível se os informantes de Christopher Steele, ex-chefe da espionagem britânica em Moscou, tivessem plantado tanto informações falsas quanto verdadeiras no dossiê sobre Trump.
Ajudar o candidato, à época improvável, com uma mão e detoná-lo com outra é perfeitamente compatível com os métodos russos.
Um exemplo. Partidos de extrema-esquerda como o Syriza da Grécia, o Podemos da Espanha e o Die Linke, na Alemanha, são todos alinhados aos interesses de Putin.
No outro extremo, a Frente Nacional de Marine Le Pen e a Alternativa para a Alemanha defendem exatamente as mesmas políticas: aproximação com a Rússia e distanciamento dos Estados Unidos.
A capacidade de manipulação dos opostos se estende, também tradicionalmente, aos próprios órgãos de inteligência.
Um dos maiores trunfos de Putin é manter a estabilidade entre os extratos superiores, sem os expurgos de praxe. Mas tirar os aliados e liderados da zona de conforto talvez tenha sido uma motivação para terceirizar uma operação paralela, encomendando-a ao cozinheiro milionário.
“O que está acontecendo, Nikita? Por que está procurando pulgas nas minhas calças”, perguntou o mais bem sucedido carrasco do stalinismo, Laurent Béria, quando Nikita Krushchev e demais aliados começaram a se impor como sucessores.
Os generais já estavam esperando do lado de fora da reunião. Preso e condenado por um tribunal secreto, como tantos que havia comandado, levou um tiro na testa. Com uma toalha na boca para parar de implorar por clemência.
Ter um concorrente amador, mas que entregou bons resultados, é um mal muito menor.
No infinito jogo de espelhos que envolve órgãos de inteligência da Rússia e dos Estados Unidos, agentes improváveis, operadores trapalhões, espiões apaixonados, políticos inflamados, Donald Trump e Vladimir Putin, vai ficando cada vez mais complicado descobrir quem é o gato e quem é o rato. (veja)

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