“A gente toma lá, a gente da cá” e outras notas

As notícias da Economia só são boas quando lidas. Aplicadas, a coisa muda
Por Carlos Brickmann
O presidente da República, Michel Temer, discursa durante cerimônia de posse do novo ministro da Segurança Pública, Raul Jungmann, em Brasília (DF) - 27/02/2018 (Ueslei Marcelino/Reuters)
Bolso cheio, eleitor feliz. Michel Temer reduziu a inflação e baixou a taxa de juros ao menor nível da História recente. Por que o eleitor o rejeita, mantendo sua candidatura no chão, apesar das boas notícias da Economia?
Porque as notícias da Economia só são boas quando lidas. Aplicadas, a coisa muda. É verdade que a taxa básica de juros é de 6,75% ao ano, mas nos juros do cheque especial a taxa é de 324,7% ao ano (números oficiais, do Banco Central). O cidadão não compra nada com a taxa básica; usa a do cheque especial e é esfolado todos os dias. E, se a taxa básica foi reduzida em 0,24% em 7 de fevereiro, a do cheque especial subiu 1,7% em janeiro.
O eleitor usa também o cartão de crédito. Os juros são de 241% ao ano. E, se o caro leitor estiver escandalizado com o aumento de juros do cheque especial em janeiro, há coisa pior: a taxa do cartão de crédito subiu 7,1% no mesmo período. Para ver se baixava esses números imorais, o Banco Central determinou que os juros do cartão de crédito fossem cobrados só no primeiro mês. O valor da dívida será então pago em crédito parcelado. Mas quanto custa essa nova modalidade? Outro escândalo: 171,5% ao ano.
Na década de 1970, o general Emílio Médici, que presidiu o período de maior crescimento econômico do país, disse uma frase que continua válida: “A economia vai bem, mas o povo vai mal”. A que situação chegamos, em que é preciso lembrar uma frase do mais feroz ditador do regime militar?
A Copa dos vizinhos
O presidente uruguaio, Tabaré Vásquez, tenta formar um bloco com Argentina e Paraguai para realizar a Copa do Mundo de 2030 e festejar o centenário da primeira Copa do Mundo, ocorrida em 1930 no Uruguai (que foi o primeiro campeão mundial). Como na Copa do Japão e Coreia em 2002, a primeira a se realizar em mais de um país, o evento seria compartilhado entre as nações do Rio da Prata. Palavras do presidente uruguaio que talvez nos soem familiares: “Seria a realização de um sonho coletivo do país que queremos ser em 2030, assim como um legado para futuras gerações, com infraestruturas que contribuam para melhorar a qualidade de vida de todos os uruguaios”. Pois é. Se é assim, então tá
A luz no túnel
O Brasil poderia cooperar amplamente com a Copa platina. Há empresas brasileiras que já fizeram trabalhos semelhantes na Copa de 2014, também a título de legado para futuras gerações. Futuras gerações, claro, dos donos das empresas, cuja capacidade de montar legados ficou aqui comprovada. Levando em conta que o volume de trabalho que executavam se reduziu, a cooperação com os vizinhos seria muito bem-vinda para essas empresas.
Caminho de ida
O ministro da Segurança, Raul Jungmann, disse na hora da posse que sua carreira política está encerrada. Jungmann aproveitou a oportunidade e resolveu dois problemas ao mesmo tempo: trocou o Ministério da Defesa, onde muita gente das Forças Armadas não apreciava sua gestão, por uma nova pasta, com mais poder de decisão e, espera, verbas mais alentadas; e livra-se de uma dura campanha eleitoral, ele que nunca foi um campeão de votos e que, nas últimas eleições, ficou na suplência. Mais, apresenta-se como patriota: “Ao aceitar este cargo, abro mão da minha carreira política. Encerro minha carreira política para me integrar integralmente a esta luta”. Jogada de mestre. E quais seus planos para enfrentar a insegurança pública? Ora, caro leitor! Ele não pode pensar em tudo ao mesmo tempo.
A boa saída
O ex-prefeito carioca César Maia, pai do presidente da Câmara, Rodrigo Maia, e bom analista político, acha que apesar de tudo a intervenção no Rio fortalece o presidente Temer. “O policiamento ostensivo deve inibir a bandidagem. Quem se opôs à intervenção não apresentou nenhuma ideia, nada, para substituí-la. E a população já não aguentava mais tanto crime”.
Implicância
Quando autoridades e seus parentes vão a bons hospitais particulares, os adversários reclamam que não foram se tratar no SUS. Quando, como agora, a mãe do prefeito carioca Marcelo Crivella vai a hospital público, os adversários reclamam que está ocupando a vaga de quem precisa mais. As críticas surgem por um motivo ou outro. Eris Bezerra Crivella, no dia 17, fez uma cirurgia no punho, no Hospital Salgado Filho; no dia 26, foi levada à emergência do Hospital Miguel Couto, com fortes dores na mão. Nesta internação, diz O Globo, “segundo testemunhas, ela recebeu tratamento diferenciado e foi prontamente encaminhada para radiografia”. E que diz a testemunha? “Uma funcionária, que pediu para não ser identificada, apesar de não ter visto a mãe do prefeito chegar à unidade, soube por outros profissionais que ela foi atendida antes de outros pacientes que já estavam no local”. Ela não se identifica, nem viu, mas acusa e a imprensa a ouve.

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