Dia da Mulher: espanholas saem às ruas em greve de 24 horas

Outros 177 países devem realizar atividades nesta quinta-feira; na Espanha, ao menos 12 categorias já aderiram
Mulheres realizam manifestação em Múrcia, na Espanha, durante o Dia Internacional da Mulher - 08/03/2018 (Twitter/@B_Salazar_Ruiz/Reprodução)
O Dia Internacional da Mulher, comemorado nesta quinta-feira, começa como um dia de manifestações na Espanha: milhares de mulheres saem às ruas e participam de uma greve geral de 24 horas convocada por movimentos feministas do país. O objetivo é protestar contra a desigualdade salarial, a atribuição dos cuidados domésticos exclusivamente a elas e a violência conta a mulher.
O movimento, que já está sendo chamado de Greve Internacional das Mulheres e é organizado pela Comissão 8M (Oito de Março), começou na Espanha, mas deve contar com atividades em mais de 170 outros países – incluindo o Brasil. Há eventos sendo organizados nas redes sociais em todos os estados brasileiros, incluindo em cidades longe das capitais, para protestar contra as desigualdades de gênero no Dia Internacional da Mulher.
Em 2017, coletivos feministas espalhados pelo mundo tentaram promover uma greve geral na data, mas não tiveram adesão de sindicatos. Este ano, na Espanha, diversas categorias confirmaram participação no movimento, incluindo jornalistas, acadêmicas, investigadoras, cientistas, escritoras, atrizes, estudantes, esportistas, advogadas, professoras, enfermeiras e sanitaristas. A União Geral dos Trabalhadores (UGT), o sindicato dos operários na Espanha, não aderiu às 24 horas de greve, mas estabeleceu uma paralisação de duas horas por turno em apoio ao movimento.
Ainda assim, até o momento, poucos estabelecimentos ou serviços estão paralisados na capital espanhola e é possível ver alumas mulheres trabalhando normalmente. Muitas universidades no país, no entanto, permaneceram fechadas ou propuseram programações alternativas para discutir os direitos das mulheres nesta quinta-feira.
A estudante de psicologia Andrea Turmequé, da Universidade Autônoma de Madri, afirma que o reitor da instituição enviou uma carta aos professores pedindo que, se eles optassem por dar aulas, a presença não fosse obrigatória, para permitir que todos os alunos pudessem participar de atividades promovidas dentro do campus para discutir a greve. Ela conta que pretende aproveitar o dia para participar de uma manifestação na região de Atocha.
“Para mim, o que é mais importante de tudo isso é, além da brecha socioeconômica entre os gêneros, a questão da discriminação, o feminicídio, a violência contra a mulher e o papel de fragilidade que você tem de assumir quando é mulher”, diz Andrea. “Não é uma questão de tirar a importância dos homens, mas sim de mostrar ao mundo a importância que nós temos. E não é um dia de manifestação que vai mudar isso, mas é algo que temos de ir construindo, dia a dia, para conseguir transformar a realidade aos poucos. Isso é algo grande e é importante, mas os atos pequenos também contam muito.”
As repórteres do jornal espanhol El País também anunciaram que devem aderir à greve. A mesma decisão partiu das mulheres que trabalham na redação do periódico aqui no Brasil, que, ontem, quarta-feira, deliberaram que paralisariam as atividades durante o Dia da Mulher em apoio “à greve convocada inicialmente pelas mulheres da Espanha e pelas jornalistas da nossa matriz espanhola”.
Em comunicado, as jornalistas brasileiras afirmam que reivindicam a “não existência de diferença salarial por causa de gênero, presença de mais mulheres ocupando cargos de chefia e nas seções de opinião (queremos que a paridade seja a norma – não mais de 60% nem menos de 40% para cada sexo), pelo fim da precariedade trabalhista e dos assédios, tanto sexual quanto moral”, diz o texto. “Também reivindicamos um espaço fixo dedicado às questões de gênero. A maioria das mulheres da redação decidiu suspender a jornada de trabalho neste 8 de março, aderindo à greve e às mobilizações nas ruas.”
A atriz espanhola Penélope Cruz defendeu a greve geral nesta quarta-feira, afirmando que há “motivos de sobra” para a mobilização. “Muitas coisas estão acontecendo em nível global que realmente podem significar o princípio de uma mudança real”, disse.
Sem tarefas domésticas
Com o lema de “Sem nós, o mundo para”, além de convidar as mulheres às ruas para protestar, os coletivos as orientam a não fazer compras e nem comparecer às aulas, no caso das professoras e estudantes. Cuidar dos filhos e dos afazeres domésticos, atividades que normalmente recaem sobre as mulheres, será tarefa dos homens nesta quinta-feira.
Apesar disso, o movimento conta com grande apoio popular na Espanha, tanto por parte das mulheres quanto dos homens. Um estudo de opinião realizado pelo Metroscopia exclusivamente para o El País espanhol afirma que 82% da população do país acredita que “existem motivos suficientes para convocar a greve contra a discriminação que as mulheres sofrem” – números que equivalem a 77% dos homens espanhóis e 88% das mulheres.
“Queremos parar esse sistema e sua violência, assim poderemos construir uma realidade nova e mais justa na qual ninguém é oprimido”, escrevem as representantes no manifesto da greve feminista. “Para fazer isso, precisamos estar unidas, para colaborar a partir dos nosso local e da nossa perspectiva, todas orientadas em direção ao mesmo horizonte: alcançar uma vida digna a todas, a vida sem discriminações que todas merecemos.”
“Depois deste grande e, certamente, inesquecível dia de empoderamento, os sofrimentos do dia a dia continuam. O desafio será continuar conectadas e organizadas trabalhando, criando, crescendo cada vez mais fortes, construindo um futuro juntas.”
Em homenagem ao movimento, uma usuária publicou no Twitter, quarta-feira, imagens do marido limpando a casa. “Começamos a ver os primeiros efeitos da greve de amanhã”, escreveu, fazendo referência ao pedido por parte dos coletivos para que as mulheres não realizem nenhum trabalho doméstico hoje. “Ânimo, vocês podem.” (veja)

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