EDITORIAL DO JORNAL O GLOBO

Estudo do Bird confirma a situação precária do jovem — 50% deles desinteressados dos estudos —, enquanto metade do Orçamento da União vai para os aposentados
Mais um estudo sobre o ensino e a juventude brasileira, este do Banco Mundial (Bird), revela o cenário dramático de sempre. Mas não deixa de causar impacto, porque o tempo passa, e não há perspectiva de melhoras substanciais num cenário do qual depende a possibilidade de o país romper a barreira de uma economia de renda média e distribuída de forma muito desigual.
Como o sistema educacional é falho, o trabalho calcula que 52,2% dos jovens entre 15 e 29 anos, algo próximo de 25 milhões de pessoas, perderam o interesse pelos estudos e, assim, não conseguirão ocupar os melhores espaços no mercado de trabalho. Terão sorte se obtiverem algum emprego formal, mesmo de baixa remuneração. O mais provável é que, sem maiores qualificações, fiquem à margem, na informalidade. Ou no desemprego.
A situação já foi pior, mas a melhoria não tem sido capaz de mudar de forma substancial o quadro. É importante a aprovação da reforma do ensino médio, para torná-lo mais atraente ao jovem e eficaz, para reduzir a evasão. Mas são mudanças que levam algum tempo para surtir efeito. E não se percebe em governantes e em parcelas da sociedade a consciência da urgência que a situação requer.
E o passivo do país é grande. O Banco Mundial registra que, em 2015, apenas 38% dos jovens estavam na série correta nos estudos. Na faixa dos 18 anos de idade, metade encontrava-se fora da escola.
A precariedade da posição do jovem brasileiro na sociedade é expressa em vários indicadores. Por exemplo, a taxa de desemprego na faixa etária deles, em 2015, era de 20%, quando o índice médio estava em 8%. Se este índice geral chegou a 14%, no pior da recessão, imagine-se quanto o desemprego atingiu entre os jovens.
O estudo alerta que o “desengajamento econômico” do jovem tem impacto direto na produtividade da economia, já baixa. Com a população em fase acelerada de envelhecimento, cada vez mais o crescimento da renda real depende de avanços na produtividade.
Por tudo isso, constata-se que o Brasil está perdendo a “última onda de transição demográfica”, para subir de patamar de desenvolvimento e, portanto, de renda. Como vem sendo alertado há tempos, o Brasil caminha para ser um país de envelhecidos e de pobres, sem mais perspectivas de enriquecerem.
Enquanto isso, metade dos crescentes gastos primários da União já vai para aposentados, e grande parte dessa despesa beneficia os servidores públicos. Os jovens ficam para trás na política de gastos públicos.
A sociedade rejeita o compromisso que teria de haver entre as gerações. A atual está quebrando o Tesouro, sem qualquer atenção a filhos e netos. Configura-se uma situação trágica de um país sem preocupação com o futuro.

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