EDITORIAL ESTADÃO - O maior custo é a ineficiência

A comparação das médias do ano passado e de 2016 mostra uma alta de 0,6%, a segunda menor da série histórica
Competir continua sendo o maior desafio para a indústria brasileira, uma das menos integradas no mercado global, mesmo quando boa parte de seus custos permanece quase estável durante um ano. Com inflação contida, juros em queda e gastos moderados com insumos e mão de obra, o setor industrial pôde aumentar seus lucros em 2017, mas ainda teve muita dificuldade para enfrentar os produtores estrangeiros tanto no exterior como no mercado interno. Esse estranho conjunto de boas e más notícias compõe o Indicador de Custos Industriais divulgado pela Confederação Nacional da Indústria (CNI). A comparação das médias do ano passado e de 2016 mostra uma alta de 0,6%, a segunda menor da série histórica. Como o índice de preços dos manufaturados aumentou 1,6%, a lucratividade cresceu. Já havia crescido no ano anterior, iniciando a recuperação dos ganhos perdidos em 2015. Mas o lucro nem sempre decorre do poder de competição. É preciso ir além do relatório sobre custos para avaliar os entraves e as possíveis saídas.
A boa notícia – o aumento de 0,6% do indicador de custos industriais – é explicada pela evolução de três componentes. O mais amplo, o índice de custo de produção, aumentou 1,8%. Os outros dois tiveram variação negativa. O índice de custo tributário diminuiu 0,4% e o de custo de capital de giro encolheu robustos 20,9%, refletindo o corte dos juros básicos, permitido pelo recuo da inflação. O afrouxamento da política monetária, conduzido pelo Banco Central (BC) desde o fim de 2016, repercute claramente, portanto, nos custos e nos lucros da indústria, embora alguns empresários continuem cobrando reduções mais audaciosas de juros.
O primeiro dos grandes componentes, o índice de custo de produção, resume a evolução de três subitens, todos com variação positiva: custo de pessoal (+3,8%), custo de energia (+3,4%) e custo com bens intermediários (+1,1%), incorporados no produto final. A energia encareceu tanto por causa da alta das cotações do petróleo como pelo aumento das tarifas de eletricidade.
Apesar da evolução geralmente favorável dos custos, a indústria perdeu poder de competição. Segundo o relatório da CNI, os preços dos manufaturados importados caíram 7,7% em reais. Os manufaturados nos Estados Unidos, igualmente em reais, ficaram 6,2% mais baratos. Em média, no ano passado. Os autores do relatório atribuem esses movimentos de preços à valorização do real diante do dólar.
De fato, o câmbio valorizado também contribuiu para baratear, em moeda nacional, os intermediários importados pela indústria, mas, no balanço geral, o efeito foi negativo. Teria sido tão ruim se o País fosse mais aberto e maior volume de insumos estrangeiros fosse usado na produção? De toda forma, a competitividade é mais uma vez associada, nesse relatório, à evolução do câmbio. Mas a importância da relação entre o real e as principais moedas é exagerada.
Muito mais importante, de fato, é a produtividade da indústria, ou, numa visão mais ampla, da economia brasileira. Não basta levar em conta o custo contábil dos trabalhadores. É preciso considerar também a eficiência da mão de obra, reconhecidamente inferior à de países com melhores sistemas educacionais. É necessário também incluir fatores externos às empresas, como o sistema de transportes, os custos da segurança, o peso da burocracia, a insegurança jurídica e o caráter disfuncional dos tributos, para citar desvantagens típicas do produtor nacional. Também o protecionismo, raramente criticado pelos empresários da indústria, é um entrave à competitividade.
Todos esses fatores foram citados em recentes trabalhos do Banco Mundial e da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). Também relatórios da CNI têm mencionado vários desses obstáculos. Mas, na prática, empresários mais barulhentos gastam mais energia cobrando juros baixos, câmbio favorável e benefícios fiscais do que reclamando reformas para aumento da eficiência e da competitividade real.

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