EDITORIAL ESTADÃO - Trump ganha, por enquanto

Se Trump é o ganhador pelas sobretaxas, o grande perdedor é o comércio global
O presidente Donald Trump é por enquanto o vencedor da batalha iniciada por ele na semana passada, quando oficializou as novas tarifas sobre importações de aço e de alumínio. Não está claro, ainda, se a batalha se converterá em guerra comercial. Isso ocorrerá se os parceiros prejudicados decidirem retaliar – ameaça já explicitada por autoridades de algumas grandes potências econômicas, como a Alemanha. Mas, apesar dos protestos e ameaças, esses governantes têm declarado preferência pela negociação. Até agora, os dirigentes da Organização Mundial do Comércio (OMC), administradores do sistema multilateral de comércio, permanecem, pelo menos oficialmente, como espectadores. Enquanto isso, o governo agressor e os agredidos continuam nos lances preliminares, alternando ameaças e convites ao entendimento.
Se o ganhador até agora é o presidente Donald Trump, acompanhado, é claro, de uns poucos segmentos empresariais protegidos pelas novas sobretaxas, o grande perdedor é o sistema global de comércio. Um complexo trabalho de regulação de direitos e obrigações, desenvolvido em décadas de experiências e negociações, está novamente ameaçado pela truculência do governante de uma grande potência, mas agora com uma diferença.
Esse governante, o presidente Donald Trump, distingue-se de seus antecessores e da maioria de seus congêneres pelas muitas demonstrações de desprezo às organizações e aos acordos multilaterais. Sua preferência declarada pelos entendimentos bilaterais indica uma indisfarçável predileção pelas soluções de força, isto é, por negociações baseadas nas vantagens da maior potência econômica e militar.
Representantes da União Europeia (UE) e do Japão encontraram-se no sábado com autoridades americanas. Tentaram discutir formas de isenção das novas tarifas comerciais impostas pelo governo dos Estados Unidos, mas nenhum resultado foi produzido até agora. Segundo a comissária de Comércio da UE, Cecilia Malmström, as conversações devem continuar. O ministro do Comércio e da Indústria do Japão, Hiroshige Seko, declarou-se ainda esperançoso de conseguir a isenção para os produtores e exportadores de seu país. 
Ontem, a chanceler alemã, Angela Merkel, prometeu retaliar, se as negociações fracassarem. Mas por enquanto, esclareceu, prefere as conversações. A União Europeia já mostrou como poderá ser a retaliação: impostos sobre produtos selecionados para atingir bases eleitorais do Partido Republicano, além de recurso à OMC. Mas negociar, é claro, continua sendo a primeira linha de ação.
Afinal, se isenções foram dadas ao Canadá e ao México, sócios dos Estados Unidos no Acordo de Livre Comércio da América do Norte, por que não poderão estender-se a outros parceiros de comércio?
Trump já deixou clara a disposição de negociar. O secretário de Comércio, Wilbur Ross, discutirá com representantes da União Europeia a eliminação de tarifas sobre produtos americanos, afirmou Trump em mensagem no Twitter.
É inegável, portanto, o uso de uma medida unilateral, baseada exclusivamente na percepção da própria força, para obter concessões de parceiros comerciais. Qualquer negociação, é claro, deverá conter algum elemento favorável aos produtores americanos de aço e alumínio, mas o lance tem sentido mais amplo. Preferindo a negociação, os parceiros de alguma forma engolem a truculência do presidente americano e deixam o assunto fora do âmbito multilateral.
O governo brasileiro também prefere pedir isenção, evitando qualquer conflito. Mas há quem imagine vantagens de uma guerra entre outros parceiros. Se o governo da China retaliar, comentou o ministro da Agricultura, Blairo Maggi, o agronegócio brasileiro poderá exportar mais para o mercado chinês, ocupando espaço perdido pelos americanos. Há quem qualifique essa atitude como realista. Mas, se uma guerra comercial de fato começar, qual será o custo final para o Brasil? Em sua malandragem simples, Zé Carioca jamais teve de responder a perguntas desse tipo.

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