EDITORIAL FOLHA DE S.PAULO - Na Idade da Pedra

Tiros contra a caravana de Lula exigem investigação imediata e repúdio absoluto
Ônibus da caravana do ex-presidente Lula atingido por disparo no Paraná - Marlene Bergamo/FolhaPress
O ataque a tiros contra dois ônibus da caravana do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, no Paraná, constitui até aqui o ponto culminante —e intolerável numa sociedade democrática— de uma escalada de radicalismo e intimidação.
É certo que protestos contra candidatos de qualquer partido nada têm de ilegítimo; o PT, por seu papel central nos escândalos recentes de corrupção, não teria como escapar ileso da indignação geral. 
Ainda mais porque têm sido claras as indicações de Lula no sentido de buscar o confronto e desafiar a legitimidade das sentenças da Justiça e da própria magistratura.
Há uma abissal diferença, contudo, entre expressões populares de revolta e a tentativa de inviabilizar pela violência as atividades de um partido. Substitui-se o debate pela agressão, a política pela capangagem, o Estado de Direito pelos métodos da Idade da Pedra.
Tem-se notado maior radicalização política na sociedade. O fenômeno não seria alarmante por si mesmo: é normal, em qualquer democracia, que setores residuais do eleitorado se alinhem aos polos do espectro ideológico.
Ainda que formem um grupelho ínfimo dentro de uma minoria de extremados, não se pode descartar a hipótese de que os promotores do ataque à caravana tenham se sentido legitimados em sua aventura pelo clima crescente de intolerância e agressividade.
Este, por sua vez, é um subproduto nefasto do descrédito de expressiva parcela dos líderes políticos nacionais, que não raro contamina a imagem da própria política e das instituições.
Para tal ambiente contribuem ainda a propagação de fake news e a demonização militante de adversários, que grassa sem contraditório por meio das redes sociais
Impõe-se imediata e rigorosa investigação para encontrar e punir os responsáveis por esse ataque.
Impõe-se, por parte da sociedade e do conjunto das lideranças políticas democráticas, repudiar sem meias palavras o ocorrido.
Lamentavelmente, não foi esta a atitude do governador de São Paulo, Geraldo Alckmin (PSDB) ao declarar que Lula e seus defensores simplesmente “estão colhendo o que plantaram”. Corrigiu-se; outros nem se deram a tal trabalho.
Nas zonas rurais, sem dúvida o PT é identificado com os frequentes e deploráveis atos de vandalismo promovidos pelo Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e seus congêneres. Já nos grandes centros, o surto de violência anarcoesquerdista dos “black blocks” retrocedeu. 
A violência, tudo indica, tem agora outra origem —só favorecendo, de resto, o papel de vítimas que petistas assumem de modo farsesco para livrar-se das sólidas acusações que os colocam no estado de prestar contas à Justiça.
É a essa mesma Justiça que cabe conter, entretanto, os membros de qualquer quadrilha de fanáticos ou de provocadores, não importa sua filiação, quando tentam destruir, a tiros, as bases de todo convívio democrático. 

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