EDITORIAL FOLHA DE S.PAULO - O campeão voltou?

Sem Neymar, time comandado por Tite mostrou coesão, competitividade e solidez emocional 
Goleiro Kevin Trapp falha ao tentar defender bola cabeceada por Gabriel Jesus; lance resultou no gol que garantiu a vitória da seleção brasileira - Robert Michael/AFP
Não —é preciso responder de pronto, antes que se queira ver na questão do título algum ensaio de ufanismo após a vitória do Brasil sobre a Alemanha. Mas tampouco o feito futebolístico desta terça-feira (27) deve ser menosprezado.
A equipe adversária estava desfalcada, porém seu poderio ampara-se mais na organização coletiva do que neste ou naquele talento individual. E o time comandado por Tite mostrou coesão, competitividade e solidez emocional jogando sem sua grande estrela, Neymar.
Ainda a respeito da pergunta inicial, seria exagero catastrofista —aoutra manifestação da paixão torcedora— imaginar que o campeão tivesse saído por inteiro de cena.
A despeito dos inesquecíveis e devastadores 7 a 1 de 2014, além de percalços anteriores e seguintes, a seleção brasileira nunca deixou de ser potência relevante e uma das grifes mais vistosas do futebol.
Seus jogadores têm ampla acolhida nas principais praças; expressiva parcela deles atua no grupo restrito dos clubes mais poderosos do cenário global.
O país continua a gerar atletas de alta qualidade, embora mais em razão de seu contingente populacional que do aproveitamento eficiente dos milhares de jovens em busca de ascensão social no esporte.
Cumpre reconhecer, todavia, que vivemos uma quadra de domínio da Europa, continente das últimas três seleções vencedoras da Copa do Mundo e sede dos clubes milionários que são hoje as fontes maiores de inovação e excelência na atividade.
À seleção brasileira cabia aprender com os erros, aproveitar o ótimo material humano à disposição e lidar com o trauma da derrocada em solo pátrio.
Isso já vinha sendo feito antes da proveitosa dupla de amistosos em que venceu as anfitriãs Rússia e Alemanha. O êxito diante dos campeões mundiais em nada apaga, claro, a goleada sofrida há quase quatro anos. Entretanto são inegáveis seu simbolismo e seu efeito psicológico positivo.
Não se trata de ser favorito à taça, condição relativa da qual o Brasil nunca está distante. Mas torna-se mais fácil reconhecer um trabalho bem realizado, apesar dos vícios e desmandos que infestam a administração do futebol do país.

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