EDITORIAL FOLHA DE S.PAULO - Os estudantes e as armas

Debate não se restringe mais a uma disputa entre democratas e republicanos
Manifestação contra a venda de armas realizada em Washington, nos EUA - Andrew Caballero-Reynolds/AFP
Protestos por mais controle sobre o porte de armas, na sequência de um massacre a tiros, tornaram-se comuns nos Estados Unidos —sua frequência revela a sinistra regularidade desse tipo de crime e o reduzido efeito da indignação posterior. A mobilização do sábado (24), porém, trouxe elementos que podem mudar tal rotina.
Sobressai, decerto, a magnitude dos atos, considerados sem precedentes no país em relação a esse tema. Segundo os organizadores, foram marcadas passeatas em todos os estados americanos.
Em Washington, estimou-se em até 800 mil a multidão nas ruas. Houve eventos solidários em várias capitais pelo mundo.
Como em outras vezes, o estopim foi um ataque provocado por um atirador —em fevereiro, um ex-aluno abriu fogo numa escola da Flórida, com um fuzil adquirido legalmente, e deixou 17 mortos. 
Desta vez, a diferença reside no fato de que os próprios estudantes tomaram as rédeas do movimento, sem distingui-lo entre brancos, negros ou hispânicos.
Os discursos durante o expressivo ato na capital americana mostraram que há alguns líderes —caso de Emma Gonzalez, 18, sobrevivente da matança no mês passado—, mas não se viu apropriação política dessa agenda.
A espontaneidade popular sinaliza que o debate não se restringe mais a uma disputa entre democratas e republicanos. Estes, em geral, são mais resistentes a alterações na lei por receberem mais doações de campanha do poderoso lobby representado pela NRA (Associação Nacional do Rifle).
É prematuro especular, entretanto, sobre a chance de sucesso das reivindicações estudantis, como o fim da venda de fuzis automáticos e a checagem de antecedentes para todas as compras de armamento nos EUA.
Afinal, trata-se de um país em que o direito de possuir e portar uma arma de fogo como defesa pessoal está inscrito na Constituição desde o fim do século 18.
Para superar a batalha legislativa, manifestantes têm exortado os jovens eleitores a votar em candidatos sem ligação com a NRA nas próximas eleições para a Câmara e o Senado, em novembro.
Estudos já apontaram correlação entre o número de tiroteios e a facilidade para a obtenção de armas pelos americanos.
A questão será sempre polêmica: mesmo no Brasil, de tradição bem diversa, há forte lobby para desfigurar o Estatuto do Desarmamento, de 2003 —com a falácia populista de que assim a população se defenderá da violência crescente.

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