Itália realiza eleição de resultado incerto no domingo; veja três cenários possíveis

País aprendeu a viver na incerteza: foram mais de 60 governos desde o início da República, em 1946.
Mulher carrega placa que sinaliza seção eleitoral na escola Pilo Albertelli, em Roma; italianos vão às urnas no próximo domingo (4) (Foto: Gregorio Borgia/AP Photo)
Neste domingo (4), os italianos vão às urnas para eleger deputados e senadores em meio a um panorama político fragmentado e a um sistema eleitoral complexo, que permitem traçar vários cenários possíveis, segundo os especialistas.
Na sexta-feira, o país encerrou a campanha com grandes manifestações em Roma, Florença e Milão e com uma verdadeira caçada pelo voto do indeciso.
O pleito deste domingo é considerado um dos mais incertos da história recente com três grandes forças políticas na disputa -- uma coalização de direita, outra de centro-esquerda, e o Movimento 5 Estrelas (M5S), que se apresenta como sem ideologia e anti-establishment. Há duas semanas, a direita aparece com vantagem, mas sem a maioria necessária para compor um governo.
O clima no país é de apatia e desinteresse. Os italianos viram uma campanha que se concentrou na questão dos migrantes – que não é o principal problema do país e que não abriu espaço a um debate construtivo.
O tema da imigração dominou a agenda de todos os candidatos, principalmente os de direita. Pouco se ouviu falar em novas propostas políticas que possam alavancar o crescimento da Itália, que finalmente está deixando para trás uma década de crise, com um PIB positivo de 1,5% no ano passado.
Antes do tradicional "silêncio eleitoral" deste sábado (3), os candidatos aproveitaram o dia para convocar às urnas os cerca de 50 milhões de eleitores. Deste universo, 10 milhões dizem continuar indecisos.
Confira abaixo o que pode acontecer após as eleições:
1) Vitória da coalizão direita-extrema direita
Silvio Berlusconi durante entrevista para o programa "Porta a Porta", transmitido pela emissora Rai 1, de Roma (Foto: Alberto Pizzoli/AFP)
"É pouco provável que um desses três candidatos consiga maioria absoluta, mas, entre eles, há um, apenas um, que poderia conseguir. É a direita", declarou recentemente o diretor do Departamento de Ciência Política da Universidade Luiss de Roma, Roberto D'Alimonte, à agência France Presse.
A coalizão de direita reúne quatro partidos, entre eles, o Forza Italia (FI, centro direita), de Silvio Berlusconi, e a Liga (extrema direita), de Matteo Salvini. Em virtude de seu acordo interno, quem ficar na liderança vai dirigir o governo.
Se a FI ficar na frente, Berlusconi -- proibido de assumir qualquer cargo público até 2019, após uma condenação por fraude fiscal -- disse querer ver Antonio Tajani chefiando o governo. Tajani aceitou a oferta de Berlusconi a apenas dois dias da votação.
Analistas interpretam a atitude de Tajani como um gesto de agradecimento a seu mentor, com o objetivo de tranquilizar os mercados e os demais países da Europa, preocupados com a possível vitória de uma direita xenófoba e antieuropeísta na Itália.
O homem que tem boas relações com todo o mundo, que se move com um peixe dentro d'água nas instituições europeias, é a carta vencedora do ex-premiê, de 81 anos.
Se a Liga levar a melhor, Salvini será o chefe de governo... desde que Berlusconi tenha voz e fique bem atrás dele.
2) Grande coalizão
Em plena campanha eleitoral, nem Berlusconi, nem Matteo Renzi, chefe do Partido Democrata (PD, de centro esquerda), podem se dar ao luxo de evocar um cenário ao atual estilo alemão de "grande aliança", mas o fato é que isso já aconteceu recentemente, depois das últimas legislativas, em 2013.
Segundo o site Votewatch Europe, os eleitos da FI no Parlamento europeu votaram em 74% dos casos como seus colegas do PD, mas apenas 36% das vezes como os da Liga.
Ex-primeiro-ministro e chefe do Partido Democrático, de centro-esquerda, Matteo Renzi (Foto: Alberto Pizzoli/AFP)
Nada garante, porém, que o PD, a FI e seus aliados eurófilos, eventualmente reforçados por alguns dissidentes da Liga que apreciam muito pouco essa recente virada anti-europeísta, obtenham uma quantidade suficiente de cadeiras para terem maioria em suas duas Casas.
Uma outra coalizão hipotética e improvável, negada por interesses ainda em vigor, poderia reunir os eurocéticos, a Liga e o populista Movimento 5 Estrelas. Mas nem essa aliança tem garantia de que conseguirá o número suficiente de assentos, correndo ainda o risco de forte oposição desses partidos.
Líder do Movimento Cinco Estrelas, Luigi Di Maio participa do último evento político em Roma antes das eleições de 4 de março (Foto: Filippo MONTEFORTE / AFP)
3) Sem maioria parlamentar
Nas últimas pesquisas, a coalizão de direita aparece com pelo menos 38% das intenções de voto (com 17% para a FI, e 13%, para a Liga); o M5S, com 28%; e a coalizão de centro-esquerda, com 26%. Ainda há milhões de indecisos.
Se nenhuma maioria se desenhar, o presidente da República, Sergio Mattarella, deixará em função o governo atual de Paolo Gentiloni (centro-esquerda) -- sem necessidade de solicitar uma moção de confiança do novo Parlamento -- para administrar os assuntos correntes.
De qualquer maneira, esse procedimento levará tempo.
As duas Câmaras se reúnem pela primeira vez em 23 de março para eleger seus dois presidentes e constituir as comissões. Apenas aí Mattarella fará suas consultas.
Mas a incerteza não é novidade na Itália: foram mais de 60 governos desde o início da República, em 1946. (G1)
Comício do Movimento 5 Estrelas, dois dias antes da eleição, na Piazza del Popolo de Roma (Foto: Tony Gentile/Reuters)

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