MALUF QUEBRA A DISCIPLINA E FALA NA PAPUDA

JORGE OLIVEIRA*
Barra de S. Miguel, AL - Maluf – só poderia ser ele – quebrou a disciplina do sistema penitenciário ao falar com a repórter Mônica Bergamo, da Folha de S. Paulo. Evidentemente que ele contou com a cumplicidade da administração do presídio que permitiu ao deputado contar suas lamúrias dentro da Papuda e, mais uma vez, se declarar inocente do roubo de quase 1 bilhão de dólares da prefeitura de São Paulo. A entrevista foi conduzida por Maluf de forma a sensibilizar a opinião pública sobre a sua vida no cárcere por se tratar de um homem de 86 anos de idade.
É raro um condenado conceder uma entrevista dentro do presídio da Papuda. Isso mostra que os advogados do deputado estão usando de todo os meios para tirá-lo da cadeia, mesmo que isso atropele as leis e as normas do sistema carcerário. Na papuda também estão presos Luís Estevão, Geddel Vieira Lima e outras figuras públicas em absoluto silêncio. Na conversa, Maluf, como sempre, procurou se vitimizar. Disse que não sabe por que está preso e insistiu que quer cumprir a pena em casa, pois se acha injustiçado como se a cadeia existisse apenas para ele.
A matéria mostra que nada é tão assustador na vida de Maluf lá dentro do presídio. Ele divide a cela de 10 metros quadrados com um servidor público, um holandês e um medico, Mike, que o mantém sob vigilância, assistindo-o quando há necessidade. Elogia os carcereiros, o serviço médico do presídio (“A doutora Etelvina é maravilhosa”) e diz que é tratado com reverência (“Me tratam de forma reverencial, pela idade e pela minha história”). E não tem queixas da comida que é servida (“Não é que a comida seja ruim. É que não é o gosto de casa que eu estou acostumado”).
Maluf fala para a imprensa no momento em que seus advogados pedem ao STJ que ele cumpra a sentença em casa, enquanto o STF julga um habeas corpus para arrancá-lo do presídio. No encontro com a repórter, ele chora, se lamenta da situação, mas em nenhum momento promete que vai devolver o dinheiro roubado dos cofres públicos. Insiste que é inocente e até hoje não sabe o motivo da sua condenação. O deputado – que ainda não foi cassado – usa das suas habilidades políticas para tentar convencer os incautos de que o lugar dele é na sua mansão em São Paulo, onde pretende “curtir” o resto da pena em noites regadas a um bom vinho francês.
Lembra da família – mulher, filhos e netos – e repetidamente chora, interpretando a mesma cena bufão em que ele é o personagem central desse filme que ainda não foi concluído desde que deixou a prefeitura com os bilhões roubados. No rastro desse desvio, Maluf deixou chorando milhares de famílias pobres que ficaram sem saúde, educação e até sem a merenda escolar dos seus filhos porque o dinheiro surrupiado da prefeitura foi usado em luxúrias malufistas pelo mundo afora por ele e seus familiares.
A prisão domiciliar, se ocorrer, é um prêmio ao deputado que, certamente, vai continuar levando uma vida confortável às custas do dinheiro público, já que em nenhum momento ele acenou em devolver a fortuna roubada. Sempre que é questionado se diz inocente, mesmo quando os procuradores conseguem repatriar alguns milhões ainda muito longe da quantia que foi desviada. Ao insistir veemente na inocência diante de tantas provas em poder da justiça, Maluf mostra-se um seguidor da teoria do Joseph Goebbels, chefe da comunicação do Hitler, de que a mentira se torna verdadeira pela insistência do mentiroso em repetir a mentira.
A mentira transforma Maluf no estereótipo do político brasileiro.
*JORGE OLIVEIRA, colunista do Diário do Poder

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