Mulheres são símbolo de luta na capoeira; benefícios da prática vão além do corpo

Red Bull Paranauê: Guerreira Lane garantiu o segundo lugar na competição e a professora Bibinha o primeiro (Marcelo Maragni/Red Bull/Divulgação)
Veja onde praticar em Salvador
Ginga, força, talento e técnica elas têm de sobra. Com toda sua garra, mulheres capoeiristas são símbolo de resistência em todos os lugares e inclusive na roda - enfrentam preconceitos, machismo e estereótipos de gênero diariamente. São ainda exemplos de que a prática – que mistura arte marcial, dança, luta, esporte e cultura - é sinônimo de bem-estar e qualidade de vida e traz diversos benefícios para a saúde. Veja onde praticar em Salvador abaixo.
“Mexe com os músculos e trabalha o corpo todo. Como nós, mulheres, temos uma jornada de trabalho extensa, essas vantagens ficam bem visíveis”, garante a professora de educação física Cristiane Santos Miranda, 35 anos, a Mestra Nani de João Pequeno. “É uma atividade completa porque envolve exercícios aeróbicos (que provocam o aumento de frequência cardíaca e queima de gordura) e anaeróbicos (desenvolvimento muscular)”, acrescenta a professora de educação física Jubenice Santos, 34, conhecida como Bibinha nas rodas.
Bibinha (à direita) considera que a capoeira é um atividade completa
(Foto: Marcelo Maragni/Red Bull/Divulgação)
Entre os benefícios da capoeira para o corpo, ambas citam o desenvolvimento da resistência física e da coordenação motora, além da queima de gorduras. Independente da vertente - Angola, Regional ou Contemporânea - a atividade proporciona também maior equilíbrio, força, melhoria das capacidades cardiovascular e respiratória e aumento do condicionamento físico e mental. Diálogo corporal, equilíbrio, improvisação, assim como as noções de espaço, tempo e ritmo também são princípios ensinados na capoeira.A atividade física proporciona também maior equilíbrio, força, melhoria das capacidades cardiovascular e respiratória e aumento do condicionamento físico e mental. Diálogo corporal, equilíbrio, improvisação, assim como as noções de espaço, tempo e ritmo também são princípios ensinados na capoeira.
“A luta desenvolve a autoestima das mulheres dentro de uma sociedade que nos oprime tanto. Quando a vivemos como um modo de vida, entramos em transe. Compartilhamos nossas experiências e momentos com outras companheiras e nos sentimos valorizadas pela prática e pelo que ela nos proporciona”, ressalta Nani, neta de João Pequeno de Pastinha, capoeirista da segunda geração do baiano Mestre Vicente Ferreira Pastinha - maior propagador da capoeira angolana no Brasil.
Professora de educação física, a Mestra Nani de João Pequeno seguiu os passos do avô (Foto: Divulgação)
Os grupos de capoeira são como uma família para mulheres e dão apoio emocional para suas frequentadoras: “Nos sentimos acolhidas. Cada uma cuida da outra como pode e a gente não se sente só”. 
Defesa
A interação e convívio social são outras experiências proporcionadas pela atividade. “Mulheres desenvolvem aqui sua capacidade de defesa. Por isso, usamos muitos movimentos dos animais”, fala Nani. Ela ressalta que a prática não é sinônimo de violência e que capoeiristas são estimulados a olhar e refletir e, apenas se for necessário, agir para cuidar da própria defesa.
Bibinha venceu o cuncurso Red Bull Paranauê (Foto: Marcelo Maragni/Red Bull/Divulgação)
“Ao mesclar luta, dança e musicalidade, a mulher tem uma série de experiências que a motivam a ter confiança em si mesma”, destaca Bibinha. A professora, por exemplo, tem uma filha de 15 anos e todos a perguntam se é sua irmã. “Devo a qualidade de vida e saúde que tenho à capoeira”, completa ela, que começou no esporte aos 11 anos. No início do mês, Bibinha superou outras sete mulheres na categoria feminina da competição Red Bull Paranauê: “Apesar do ar de competição, a capoeira é sempre um jogo, uma brincadeira e uma oportunidade pra gente se divertir”.
Buscando essa ludicidade, cada vez mais mulheres e adolescentes têm frequentado as aulas na Bahia. “Antes, mulheres com mais de 20 anos achavam que não poderiam fazer capoeira. Hoje tenho alunas de todas as idades”, conta a professora de educação física e instrutora Fabrine Aparecida Dias, 34, conhecida como Fá. “Acabei de ter um filho e pratiquei a gestação toda. Me ajudou muito, principalmente com a coluna e a musculatura. Menos de 30 dias depois de parir voltei pra capoeira”, conta. 
A estudante Emanuele Guedes, 16, do Projeto Mandinga (Terreiro da Casa Branca), é um exemplo de que não há idade para praticar o esporte. “Comecei com 11 anos e, desde então, tenho mais disposição, energia e flexibilidade. É muito bonito ver mais pessoas buscando a capoeira e ver mulheres jogando, se destacando e mostrando que a gente também pode”, afirma ela, que pretende trabalhar na área. 
Apesar de ainda não ocuparem o mesmo espaço que homens, mulheres vêm lutando por respeito e para que as rodas sejam cada vez mais democráticas. “Hoje não existe academia ou grupo sem mulheres em papéis estratégicos”, comenta Fá. “São elas que fazem tudo acontecer”, resume Nani.
Mulheres continuam na luta por espaço na capoeira
Desde que conquistaram espaço na capoeira, mulheres têm batalhado por mais respeito e valorização. A luta contínua ocorre concomitante à luta das trabalhadoras na sociedade de classe, segundo Jalícia Lima Muricy, pesquisadora licenciada em educação física na Universidade do Estado da Bahia (UNEB). 
A atividade, assim como os esportes, historicamente esteve associada ao universo masculino. Entre os séculos XVII e XIX, mulheres negras e pobres que praticavam capoeira eram vistas de forma preconceituosa e usavam as técnicas para se defender da violência em Salvador. O cenário melhorou quando Mestre Bimba passou a aceitar mulheres nas rodas e a atividade foi incluída nas academias. “Na capital, Mestre Curió foi o primeiro angoleiro a dar o título de mestra a uma mulher, Mestra Jararaca. Na década de 70, o feminismo ganhou espaço e as mulheres reivindicaranm mais espaço também nas rodas”.
Mestra Jararaca: primeira mulher a ser reconhecida como mestra na Bahia
(Foto: Reprodução)
De lá para cá, muitos avanços podem ser notados nos campos social, político e cultural. A baiana Rosângela Costa Araújo (Mestra Janja), que graduou-se em educação física e em história, é apenas um exemplo de mulher guerreira que mostrou seu espaço na capoeira. Hoje, elas representam quase a metade do número dos praticantes da atividade, segundo Janja. “Ainda assim, a hierarquia de gênero é muito forte. Ainda existe a ideia de que a força física é o que domina. Enquanto não avançarmos na luta feminista, não vamos melhorar essas questões”, avalia Jalícia.
Para Mestra Nani, não existe diferença entre o jogo de uma mulher e de um homem “E nem deve ter”, defende. “A nossa genética é diferente, a força e as características físicas. Mas, assim como o homem tem mais facilidade para algumas coisas, a gente tem para outras”, defende a instrutora de capoeira e professora de educação física Fá. De acordo com a professora Bibinha, condições físicas e fisiológicas devem ser consideradas apenas em campeonatos: “Nas rodas, não existe a necessidade de separação”.
Os benefícios da capoeira para a saúde e bem-estar do corpo e da mente
1 ● Trabalha tudo
A prática da capoeira trabalha todos os segmentos corporais e diversas posições. Os movimentos mexem com todos os músculos, desenvolvendo uma série de qualidades físicas, entre elas o ganho de força, e mentais. Também são desenvolvidas resistência, agilidade, flexibilidade, velocidade, equilíbrio, coordenação, improvisação e ritmo.
2 ● Queima gorduras
Como atividade física, a prática envolve exercícios aeróbicos (que provocam o aumento de frequência cardíaca e queima de gordura) e anaeróbicos (desenvolvimento muscular), proporcionando flexibilidade, força muscular e resistência física. É possível queimar até 688 calorias em uma hora. Ótima opção para manter uma rotina saudável.
3 ● Fortalece músculos
A prática é conhecida pelas acrobacias de todo o corpo, incluindo a ginga, rasteiras, floreios, cabeçadas, esquivas, giros e movimentos de grande elasticidade. Com essas execuções, a musculatura dos ombros, braços, pernas, abdômen e bumbum são fortalecidos, assim como os ossos. A atividade ajuda ainda a melhorar e corrigir erros de postura.
4 ● Condicionamento
A atividade física anaeróbica predominantemente funcional estimula o condicionamento cardiovascular e musculoesquelético utilizando o peso do próprio corpo. A prática constante da capoeira (pelo menos três vezes por semana) também desenvolve o sistema cardiorespiratório, melhorando o fôlego e diminuindo a fadiga. 
5 ● Libera o estresse 
Como boa parte dos esportes, a capoeira é uma válvula de escape para quem busca melhora na qualidade de vida. Além de liberar o estresse de forma lúdica e saudável, ajuda na diminuição da tensão e do cansaço. A prática trabalha ainda a agressividade. Com menos tensão e reflexos mais rápidos, capoeiristas desenvolvem o autocontrole.
6 ● Flexibilidade 
Os movimentos da atividade se assemelham aos executados promovidos pela ioga e exigem e desenvolvem a flexibilidade do corpo. Como a ideia é fazer os movimentos com fluidez em um período curto de tempo, a capoeira também estimula a velocidade – o que fará que o corpo fique mais ágil para responder de volta aos movimentos de outras pessoas.
7 ● Defesa
Quem pratica capoeira não é estimulado a atacar, mas a olhar e refletir. Se for necessário, saber agir de modo a cuidar da própria defesa, o que torna a atividade um excelente meio de aprendizado para as crianças, que entendem que a violência não vale a pena, e para mulheres, que se sentem mais preparadas e seguras no dia a dia.
8 ● Interação social 
Normalmente, os grupos de capoeira funcionam como uma família, na qual existe um grande espírito de ajuda para melhorar os movimentos corporais e as acrobacias. Além disso, também é possível conhecer novas pessoas de locais e culturas diferentes nas rodas de capoeira. Os praticantes costumam se ajudar e apoiar em diversos âmbitos.
9 ● Respeito
A capoeira é uma ótima forma de promover o respeito e a tolerância, já que não visa agredir o próximo. Atualmente, líderes e educadores têm defendido que atividade seja cada vez mais democrática. Levantam a bandeira da diversidade e respeito, lutando para que a prática seja para todos, independente de gênero, idade, religião ou raça.
10 ● Autoconfiança 
Além de proporcionar a melhoria na qualidade de vida e o trabalho do corpo, a capoeira desenvolve competências interpessoais, como relacionamento, interação, o que torna as pessoas mais confiantes. Mudanças físicas, melhorias na saúde e a capacidade de defesa também influenciam diretamente na autoconfiança dos praticantes.
Onde praticar em Salvador
Centro Esportivo de Capoeira Angola (CECA)
O Memorial do Mestre João Pequeno fica no Forte da Capoeira (Largo de Santo Antonio Além do Carmo, s/n). Aulas ocorrem segunda, quarta e sexta (9h às 11h e 19h30 às 21h30); terça e quinta (16h às 18h); rodas abertas ocorrem terças, quintas e sábados (19h às 21h). Aulas custam R$ 100/mês. Infos: (71) 3323-0708 e 98833-1469.
Associação Cultural Bahia Ginga
Tem aulas de Mestra Geisa terça e quinta (18h às 19h). Fica em São Caetano (R. Nova do Camurujipe, 296B). Infos: (71) 98653-8988. 
Casa da Música
Com aulas de Mestre Tyko Kamaleão, a Casa da Música (Parque Metropolitano do Abaeté, s/n) tem práticas terças e quintas (18h às 19h30). A contribuição é voluntária. Infos: (71) 3116-1512. 
Grupo Origem Capoeira
Fica em Amaralina (Rua da Ubaranas, 127) e tem aulas terças e quintas (19h às 22h). A taxa é simbólica.
Grupo Ginga Mundo
O espaço do Mestre Sabiá e Cristal funciona no Pelourinho (Rua das Laranjeiras, 27). Aulas para adultos segunda, quarta e sexta (19h30 às 21h30) e custam R$ 100/mês. Lá funciona o Projeto Mandinga, com aulas gratuitas para crianças terças e quintas pela manhã. Infos: (71) 99984-1278. 
Academias
A Alabama, nos Barris, tem aulas terças e quintas, às 19h. Custa R$ 60/mês. Infos: (71) 3329-1888. A Physical Club, no Costa Azul, tem aulas segundas, quartas, quintas e sextas, das 20h às 21h30. Custa R$ 100/mês. Infos: (71) 3342-8999. A Crossfit Malta, no Imbuí, tem aulas para crianças segundas, quartas e sextas, às 10h20, e segundas e quartas, às 14h30. Infos: (71) 99723-5470.  
(correio24hs)

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