Número de tiroteios na Zona Sul dobra em relação ao último ano

Segundo o aplicativo OTT, 73 trocas de tiros foram registradas de janeiro até a última terça-feira contra 32 no mesmo período do ano passado
POR CAIO BARRETTO BRISO, MAURÍCIO FERRO E RAFAEL NASCIMENTO/O GLOBO
Tiroteio em Laranjeiras assustou moradores e trouxe pânico ao local - Fabio Gonçalves / Agência O Globo
RIO - Os relatos de tiroteios têm sido frequentes na Zona Sul do Rio e a onda de violência vem afligindo bairros da região. De acordo com a base de dados do aplicativo Onde Tem Tiroteio (OTT), que reúne informações de disparos em toda a cidade, de 1º de janeiro até a última terça-feira, 73 trocas de tiros foram registradas na região. No mesmo período do ano passado foram 32 — o aumento, portanto, foi de 122%. O mais recente foi contabilizado nesta quarta, em Laranjeiras, quando disparos espalharam terror na Praça São Salvador, um dos principais redutos da boemia na cidade. Por volta das 23h, houve dois assassinatos. Para a polícia, crimes estariam relacionados à guerra do tráfico.
E o clima de insegurança é algo vivido há algum tempo pelos moradores do local. “Tiros na Praça São Salvador agora”, diz uma mensagem publicada no Facebook. Muitas pessoas fazem comentários: “foram seis”, “absurdo dos absurdos”, “mais uma vez”. Uma delas indaga: “Até quando o poder público continuará omisso?”. A resposta de um internauta parece premonição: “Vai continuar até quando ocorrer um assassinato. Está perto de acontecer”. Essas postagens, feitas numa página da rede social dedicada ao bairro das Laranjeiras, têm mais de um ano. São do dia 28 de dezembro de 2016 Policiais do 2º BPM (Botafogo) que estavam na praça nesta quinta fizeram um desabafo.
— Estamos com apenas oito viaturas para patrulhar oito bairros. É possível fazer um trabalho digno nessas condições? — reclamou um deles.
O medo de quem vive e trabalha na região é tão grande que poucos falam abertamente sobre o episódio. Garçons dos bares quase sempre lotados à noite foram orientados pelos patrões a não abrirem a boca.
— Tenho medo do que pode acontecer. E se essas mortes não forem as últimas? — argumentou um atendente que trabalha na Rua Senador Correia, que cruza a praça.
Enquanto 1.400 mil militares do Exército se preparavam para a quinta operação na Vila Kennedy em dez dias, em mais uma ação da intervenção federal na segurança pública do estado, dezenas de disparos de grosso calibre ecoaram na praça, a apenas 600 metros de distância do Palácio Guanabara. Quem ouviu não teve dúvidas: eram de fuzis. De acordo com testemunhas, os tiros foram dados por ocupantes de um carro. Baleada, uma das vítimas ainda foi atropelada pelos criminosos.
Agentes da Divisão de Homicídios da Polícia Civil suspeitam que os dois mortos, que não tiveram a identidade divulgada, vendiam drogas no local. Seriam moradores do Morro Azul, no Flamengo, e foram assassinados por bandidos que, de acordo com investigações preliminares, integram o tráfico do Pereirão, como é conhecida uma comunidade que fica na Rua Pereira da Silva, em Laranjeiras. Um taxista que passava pela São Salvador foi atingido na barriga: Alexandre Ramos, de 53 anos, foi submetido a uma cirurgia no Hospital Municipal Miguel Couto, na Gávea, e, segundo o último boletim médico, seu quadro clínico é estável.
— Mataram os caras em frente ao bar onde compro cigarro e tenho conta. Guerra do tráfico, só digo isso — resumiu uma mulher de 30 anos que mora perto da praça desde que nasceu.
Uma frequentadora da São Salvador relatou seu drama:
— Eu estava lá, foi em frente ao bar onde peguei uma cerveja. Saí correndo para dentro de um restaurante sem saber se meu marido e meus amigos, que me aguardavam na praça, estavam bem. Entrei em desespero, parecia um fuzilamento. A sensação de impotência é horrível. Fiquei desesperada, parecia que aquilo não iria acabar.
Segundo moradores da área, foi o terceiro tiroteio na Salvador este ano. Os anteriores ocorreram durante o carnaval: um por volta das 2h de domingo, e o outro no dia seguinte, também de madrugada. “O segundo teve direito a espancamento de um rapaz”, escreveu um internauta numa página do Facebook criada em homenagem à praça. No entanto, O GLOBO não conseguiu confirmar a informação com hospitais públicos nem com a 9ª DP (Catete).
CLIMA DE MEDO
Há pelo menos dez anos moradores da São Salvador protestam contra o barulho diário dos frequentadores até altas horas. Não apenas: também se incomodam com o lixo e a falta de segurança desde que o local se tornou ponto de encontro de pessoas de várias gerações. A aposentada Marli Fausi Guimarães, de 79 anos, se mudou para a praça com seu marido há quase três décadas. Desde 2008, segundo ela, “isso aqui virou um inferno”.
— Não durmo bem há nove anos. Moro no terceiro andar, de frente para a praça. Minhas janelas têm proteção antirruído. Sou friorenta, mas durmo com o ar-condicionado ligado para ouvir menos barulho. Não adianta — diz Marli. — Nunca pensei que dois homens seriam assassinados aqui.
Os corpos estavam perto um do outro: um, baleado na cabeça, caiu em frente a um bar na Rua Senador Correia; o outro, atropelado pelo veículo dos assassinos, foi atingido por um disparo nas costas. Agentes da Divisão de Homicídios realizaram perícia no local. Antes disso, policiais militares isolaram a área onde estavam as vítimas. Algumas pessoas acompanharam o trabalho dos investigadores. Um trecho da Rua Senador Correia chegou a ser interditado.
No dia seguinte aos assassinatos, a praça, acostumada ao som do samba e do chorinho, estava em silêncio, com manchas de sangue no asfalto, perfurações nos edifícios do entorno e também numa banca de jornais. Na hora do almoço, um grupo de alunos do Colégio Franco-Brasileiro atravessou a rua correndo: “Foi aí que o cara morreu, passa rápido”, disse um menino, fazendo o sinal da cruz.

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