Quem era ‘essa Marielle’?

Com nome quase francês, mistura de Maria com ‘elle’, estampa poderosa, o cabelo afro e a fala potente, reunia num só corpo e numa só cabeça todas as definições de minorias
POR RUTH DE AQUINO*
- Ilustração André Mello
Afinal, quem era essa vereadora favelada, essa mãe bissexual, essa defensora de direitos humanos, essa negra que condenava grupos policiais de extermínio de jovens? Quem Marielle pensava que era?
Por mais combativo que fosse seu discurso, por mais cativante que fosse seu sorriso, por mais que tivesse a legitimidade de 46 mil votos, ela não poderia prever essa comoção nacional se fosse morta. Ela não suspeitava de nada, nem de uma emboscada nem da apropriação de seu nome como bandeira. No Rio, no Brasil, no mundo.
Por que sua morte prematura, aos 38 anos, com tiros na noite à queima-roupa, disparados por covardes, encomendados por mais covardes ainda, faria chorar uma cidade já embrutecida pela violência que dizima mais de seis mil vidas por ano? Faz sentido? Esse choro todo por causa de Marielle, que nasceu na Maré. Esse nó na garganta. Essa indignação toda. Os aplausos para um caixão de #MariellePresente. Esses punhos erguidos, de mais resistência que raiva.
Quem era mesmo essa Marielle? De repente, mártir? Por que a dor por sua perda é mais intolerável? Ah sim. Por ser um crime político. Não só. A juíza Patricia Acioli foi morta na porta de casa com 21 tiros, em Niterói, também alvo de uma emboscada. Em 2011. Investigava milícias de São Gonçalo. Foi um crime político. Mas não levou multidões às ruas como a vereadora Marielle.
Ah sim, por ser negra e da favela. Não só. Quantas mulheres negras, mães, pobres, são assassinadas, por bandidos, por policiais, por balas perdidas, por maridos, amantes e ex, e são choradas apenas por parentes? Quantas policiais negras são assassinadas em confrontos e assaltos?
Ah sim, porque Marielle defendia direitos humanos, e isso incomoda muito. Não só. Segundo a Anistia Internacional, 62 defensores de direitos humanos foram mortos no Brasil, entre janeiro e setembro de 2017. Você lembra alguns nomes? Provavelmente não. Mas, duas horas após a morte de Marielle e de seu motorista Anderson Gomes, eram registrados 594 tuítes por minuto sobre o duplo crime. Mais de um milhão de menções no Twitter até a tarde de ontem.
Quem Marielle pensava que era? Não pensava. Agia, tinha pressa, engravidou na adolescência, uma amiga morreu de bala perdida, ela conseguiu bolsa na PUC, fez Sociologia. Mestrado em Administração Pública, com dissertação sobre as UPPs. Quantos concluem mestrado no Brasil? Marielle estudou a si mesma e a sua realidade carente de tudo. Casou com uma mulher.
Com esse nome quase francês, uma mistura de Maria com “elle”, a estampa poderosa, o cabelo afro e a fala potente, Marielle reunia num só corpo e numa só cabeça todas as definições de minorias. Gênero, cor, orientação sexual e ideologia política. Era mais conhecida entre os militantes à esquerda da esquerda no Rio. Mas nem isso definiria Marielle. Suas fronteiras eram globais. Daria uma palestra em Harvard no dia 7 de abril, sobre renovação política.
Marielle não poderia imaginar que sua morte brutal polarizasse tanto as redes. Houve quem a acusasse de “defender bandidos, ter ligação com o Comando Vermelho e passar a mão na cabeça de vagabundos”.
Esse pessoal, que vai votar em a gente sabe-quem, não entende o significado de se silenciar uma voz parlamentar com uma pistola. Não entende que não se trata de mais um episódio de violência urbana. Nem de feminicídio, nem homofobia, nem racismo. Trata-se de nós. De cada um. De liberdade, igualdade e fraternidade.
Eu estava em Paris quando houve o atentado terrorista ao Charlie Hebdo, em janeiro de 2015. Multidões que jamais tinham lido o jornal, ou que não curtiam seus cartuns polêmicos e o humor ácido, encheram as ruas de Paris, foram para a Catedral Notre Dame com velas acesas. Todos os parisienses se sentiram atingidos nos valores da República. Fui para a rua, empunhando lápis como os manifestantes, para gritar #jesuischarlie. Em defesa da minha condição de cidadã do mundo, em defesa da liberdade de expressão que nos garante como jornalistas.
Que a morte de Marielle seja um divisor de águas turvas e transparentes. Que sejam identificados e punidos não só quem atirou mas quem mandou matar Marielle. Que o Brasil possa fazer jus a si mesmo como uma nação que recusa a barbárie.
*Ruth de Aquino é jornalista
Matéria  publicado no jornal O Globo(19.03)

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