Registro de reunião reforça versão de delator sobre amigo de Temer

Coronel Lima teria se encontrado com presidente de empresa com pendência no Porto de Santos
Coronel João Baptista Lima Filho é apontado como operador financeiro de Michel Temer, no Porto de Santos - Reprodução / Agência O Globo
BRASÍLIA — A Polícia Federal (PF) encontrou, na sede da Eldorado Celulose, um registro das agendas do ex-presidente da empresa José Carlos Grubisich que reforça as suspeitas de que o coronel reformado da Polícia Militar João Baptista Lima Filho tenha atuado em negociações relativas ao setor portuário. Lima já foi apontado como operador financeiro do presidente Michel Temer no porto de Santos. De acordo com o registro, Grubisich teria se encontrado com Lima em 28 de julho de 2015, um mês após o porto da Eldorado em Santos ser inaugurado. Procuradas, as defesas do coronel e do empresário informaram que não iriam comentar o episódio.
Em sua delação premiada, o executivo do grupo J&F, controlador da JBS e da Eldorado, Ricardo Saud relata que as obras do porto para escoar a produção da fábrica da Eldorado foram embargadas pela Companhia Docas do Estado de São Paulo (Codesp) um mês após começarem, em 2015, e só teriam sido liberadas após ele procurar o então vice-presidente Temer. O peemedebista teria prometido interceder junto à diretoria da estatal. Na delação, Saud não cita o envolvimento do então presidente da Eldorado. Mas o registro do encontro na agenda de Grubisich reforça as suspeitas e abre uma nova linha de investigação sobre o episódio.
No site da Argeplan, empresa de engenharia do coronel Lima, não há nenhuma obra no Porto de Santos entre os projetos executados por ela, e tampouco a Eldorado ou a Codesp aparecem na lista de clientes da empresa.
OUTROS MENCIONADOS NA LAVA-JATO
A PF se deparou com a informação ao revirar um backup do computador de Grubisich, que estava em um notebook apreendido na sede da Eldorado, localizada na capital paulista. No registro da agenda do presidente da companhia aparece entre parêntesis, ao lado do nome do coronel, a expressão “indic Celso Grecco”. Grecco é sócio da Rodrimar e investigado no mesmo inquérito que apura se Temer teria atuado para beneficiar a empresa no Porto de Santos.
“Carlos Grubisich manteve contato com outras pessoas mencionadas em investigações da Operação Lava-Jato, como Caser da Funcef, Ricardo Saud, Renato Barco, presidente da Codesp, Celso Grecco, da empresa Rodrimar e o Coronel João Batista Lima, da empresa Argeplan”, aponta a agente da PF Joana Elisa da Costa Ribeiro, no laudo sigiloso do dia 26 de fevereiro deste ano ao qual O GLOBO teve acesso.
No laudo, também há registro de reuniões em 2014 entre Grubisich, Grecco, Ricardo Saud, Luis Fernando Sartini Felli, então diretor de Operações da Eldorado, e o então presidente da Codesp Renato Barco sobre o porto da Eldorado em Santos.
Grecco depôs no inquérito dos Portos em dezembro do ano passado e admitiu à PF que mantinha relações com o coronel Lima, tendo sido apresentado a ele pelo empresário Eduardo Neves, que chegou a ocupar a presidência do Conselho de Administração da Rodrimar. “Desde então, eventualmente encontrava-se com o coronel Lima para almoçar”, admitiu o empresário na ocasião, segundo o extrato do depoimento. Ele também disse que chegou a se encontrar com Temer em três ocasiões diferentes, mas que nunca tratou dos assuntos do Porto de Santos nem de eventual pagamento de propinas para beneficiar sua empresa.
Amigo de Temer desde quando o presidente foi secretário de Segurança do Estado de São Paulo pela primeira vez em 1984, o coronel Lima é figura central na investigação sobre o presidente, e é citado desde quando as primeiras denúncias contra o peemedebista sobre suspeitas de corrupção no Porto de Santos vieram à tona, em 2001. Desde julho do ano passado a PF tenta ouvi-lo sem sucesso. O coronel tem alegado motivos de saúde para não comparecer. No mês passado, o ministro Luís Roberto Barroso, do STF, autorizou a quebra de sigilo bancário de Temer, Lima, do ex-assessor Rodrigo Rocha Loures e de José Yunes, outro amigo do presidente apontado como operador financeiro dele. O ministro também autorizou a quebra dos sigilos telefônicos e telemáticos (que inclui e-mails e mensagens de celular) de Loures e do coronel.
A Eldorado foi alvo de buscas da Polícia Federal na Operação Sépsis, deflagrada por ordem do STF em 1º de julho de 2016. A investigação, um desdobramento da Lava-Jato, apurava um esquema de corrupção na Caixa Econômica Federal liderado pelo então presidente da Câmara Eduardo Cunha (PMDB-RJ) e que envolvia o pagamento de propinas de empresas para receberem aportes do Fundo de Investimentos do FGTS (FI-FGTS). A Eldorado era uma das empresas no alvo da operação — a primeira a atingir o grupo dos irmãos Wesley e Joesley Batista e que levou à delação dos executivos do Grupo J&F um ano depois. O relatório da PF sobre o material encontrado nas buscas na sede da empresa só foi concluído em 26 de fevereiro deste ano.
José Carlos Grubisich deixou a Eldorado em setembro do ano passado. A empresa ainda está sob o controle da J&F até setembro deste ano, quando seu controle será passado para a holandesa Excellence. A relação da Eldorado com o Porto de Santos começou em 2011, logo após a empresa inaugurar sua fábrica de celulose. Na ocasião, ela estava à procura de um porto para escoar sua produção e, por isso, adquiriu 46% das ações da Rishis, empresa do Grupo Rodrimar que possuía uma área no Porto de Santos. Em 2014, a Eldorado arrematou 100% da Rishis, pagando parte do valor em espécie ao Grupo Rodrimar.
Procurada, a assessoria do empresário informou que não conseguiu contatá-lo pois ele estava em um compromisso familiar ontem. A defesa de Saud informou que não teve acesso à documentação, mas afirmou que ele nunca se encontrou com o coronel Lima. A assessoria de Temer não respondeu às perguntas da reportagem até o fechamento desta edição. Procurada, a Codesp não se manifestou.
MAIS UM POSSÍVEL COMPLICADOR PARA TEMER
Além do novo episódio envolvendo o Porto de Santos, O GLOBO teve acesso a um pedido sigiloso da Procuradoria-Geral da República (PGR)que pode complicar a situação de Temer em outra investigação. Após entender que o presidente pode ser investigado por fatos anteriores ao mandato, a procuradora-geral da República Raquel Dodge decidiu incluir a delação do operador financeiro Lúcio Bolonha Funaro em um dos inquéritos contra o peemedebista, cujo foco principal é o pagamento de propina pela Odebrecht em 2014. O pedido já foi aceito pelo ministro Edson Fachin, do STF, que determinou a inclusão do quinto termo de depoimento de Funaro. Fachin, porém, determinou que a parte relacionada ao operador financeiro fique sigilosa. Também são investigados no caso os ministros Eliseu Padilha (Casa Civil) e Moreira Franco (Secretaria-Geral).
Esse depoimento de Funaro contém esclarecimentos sobre um dos principais episódios que envolvem o inquérito: a entrega de dinheiro da Odebrecht ao advogado José Yunes, amigo de Temer, em seu escritório em São Paulo. Em depoimento à PGR, Yunes havia dito que recebeu um envelope de Funaro a pedido de Padilha. No seu relato, Funaro traz outra versão: diz que foi buscar uma caixa contendo R$ 1 milhão no escritório de Yunes para entregar ao peemedebista Geddel Vieira Lima — atualmente preso.
O depoimento de Funaro é extenso em acusações a Temer. O operador financeiro diz, por exemplo, que Eduardo Cunha distribuía propina a Temer e que o presidente se beneficiava com repasses de empresas que obtinham recursos da Caixa Econômica Federal. (O GLOBO)

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