SAÚDE DA MULHER - E aí, sumidas? 13% das soteropolitanas nunca foram ao ginecologista

Índice é quase o dobro do nacional; vergonha e uso da internet influenciam
Sara* perdeu a virgindade aos 15 anos. Aos 17, descobriu um nódulo em um dos seios. Há quatro meses, fez a cirurgia para a retirada do nódulo, depois de um tratamento com uma mastologista. Apesar de tudo isso, hoje, aos 19 anos, Sara nunca foi ao ginecologista. 
“Nunca passou pela minha cabeça. Sou um pouco tímida, então tenho vergonha. Teria vergonha mesmo se fosse com uma ginecologista mulher. É muita exposição”, conta a jovem, que não tem plano de saúde. Ela não está sozinha. Como Sara, 13% da soteropolitanas com idades entre 16 e 25 anos nunca tiveram uma consulta com um médico com essa especialidade, de acordo com uma pesquisa inédita da Bayer em parceria com a Universidade Federal da São Paulo (Unifesp), divulgada com exclusividade pelo CORREIO. 
O índice de Salvador é quase o dobro do restante do país – no Brasil, apenas 7% das jovens nunca foram ao ginecologista. A pesquisa, intitulada ‘O conhecimento e a proteção das jovens brasileiras à respeito das doenças sexualmente transmissíveis (DSTs) e gravidez não planejada’, foi realizada no início deste mês e ouviu 1,5 mil em cinco capitais. Cada uma das capitais – caso de Salvador – contou com 300 participantes, abordadas em locais de grande circulação, como saídas de estações do metrô. 
Para o ginecologista Afonso Nazário, chefe da Pós-Graduação do Departamento de Ginecologia da Unifesp e um dos responsáveis pela pesquisa, esse resultado é “preocupante”. Uma das possíveis explicações para isso, na avaliação dele, é o próprio avanço da internet. Diante de tanta informação disponível a um clique, há quem acredite que não precisa de maiores orientações. 
“Tudo tem um lado bom e um lado ruim. A fonte de informação nem sempre é adequada e, às vezes, é o médico mesmo quem tem que avaliar, não a internet. A internet é boa, o problema é a fidedignidade da informação”, opina.
Por isso, um hábito comum, que era o de mães que levavam as filhas ao ginecologista logo após a primeira menstruação, têm se perdido. 
“Quando me formei, 35 anos atrás, isso era muito comum. O ideal era resgatar esse comportamento antigo. Obviamente, não é para fazer exame ginecológico, mas avaliar e orientar como evitar uma gravidez ou uma DST”, comenta. 
Para o presidente da Sociedade de Ginecologia e Obstetrícia da Bahia (Sogiba), Carlos Costa Lino, não é uma surpresa que Salvador tenha números maiores do que o Brasil. “A Bahia tem um IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) muito baixo e isso reflete numa dificuldade de assistência médica, principalmente no SUS (Sistema Único de Saúde). É uma realidade muito dura, existe uma dificuldade de acesso muito grande e, se a gente considerar a Bahia como estado, é bem pior do que em Salvador”. Enquanto o IDH do Brasil é de 0,754, o da Bahia é de 0,660 e o de Salvador é 0,759. 
Riscos
Quando as mulheres não vão ao ginecologista, ficam mais expostas a riscos. De acordo com a ginecologista Emilly Serapião, é perigoso tanto pelas DSTs quanto pelas doenças relacionadas a alterações hormonais. “Tem miomas, endometriose... O ginecologista não é só para (exame) preventivo. Tem exame físico, citopatológico, avaliação do colo uterino. A prevenção do câncer de colo uterino é nossa única alternativa, daí você já vê a importância de ir ao ginecologista todo ano”, diz. 
Segundo ela, a primeira visita ao ginecologista deve ser logo após a primeira menstruação. Depois, deve acontecer logo que a mulher iniciar a vida sexual. “Além disso, pode acontecer em outros momentos, se houver alguma queixa ou se o pediatra orientar”. 
Para o ginecologista Afonso Nazário, da Unifesp, a pesquisa revelou outra realidade que deveria ser evitada. Hoje, a maioria das jovens tem a primeira consulta após dos 15 anos. Em Salvador, só 47% das jovens foram antes dessa idade – o restante está dividido entre as que nunca foram e as que foram somente depois dos 15. 
“Elas vão tardiamente, porque a precocidade sexual hoje é frequente, desde os 12, 13 anos. Se elas passam três, quatro anos para ter sua primeira consulta ginecológica, há a possibilidade de engravidar, porque tem base de informação pequena. Embora isso tenha melhorado no Brasil, a gravidez na adolescência ainda é muito comum no nosso país”, aponta o ginecologista. 
Mas nem sempre, quando as jovens vão à primeira consulta, a experiência é tão tranquila. A estudante Pamela*, 21, teve a primeira menstruação aos 12 anos. Entre os 15 e os 16 anos, decidiu que queria ter a primeira consulta para tirar dúvidas e ver se estava tudo certo. Só que ela não foi bem recebida pela médica. 
“Cheguei e ela perguntou: ‘para que você veio’? Ela disse que eu deveria voltar quando tivesse a primeira relação sexual ou algum problema. Fiquei uns 10 minutos na sala dela e nunca voltei. Pensei: ‘para que vou, se vou ser tratada desse jeito?’. Não fazia sentido”, relata. 
No ano passado, já depois de ter tido a primeira relação sexual, ela pediu que a mãe fizesse o intermédio – agora, com outra médica. Queria saber se poderia voltar, mas não queria passar pelo constrangimento da primeira vez. A segunda médica recomendou que ela voltasse somente após seis meses ininterruptos de relação sexual. 
“Ainda não tenho seis meses, mas já estou começando a procurar marcar. Tem coisas que a gente fica na dúvida. Eu tive infecção urinária, por exemplo, que é uma coisa muito comum e fui na emergência. Existem coisas que você sabe, mas que poderia ter uma orientação. No colégio, tive aula de orientação sexual na sétima e no terceiro ano e minha mãe é super aberta, mas é óbvio que prefiro uma opinião profissional”, comenta.
Foto: Arquivo CORREIO
Desconforto
Mas nem todas as mulheres pensam assim. Em alguns casos, como o da artista plástica Flávia*, 43, a ida ao ginecologista nunca fez parte da rotina da família. Ela foi ao consultório de um somente uma vez, depois de completar 40 anos, por insistência de uma amiga. 
“Apesar de eu ser uma pessoa esclarecida, ler a respeito, não fui criada dessa forma. Fui criada por minha avó e ela nunca ia. A gente fazia check-up anual, mas isso nunca entrava no nosso radar. Nem no meu, nem no dela”. A decisão, há três anos, foi justamente depois que três primas distantes tiveram câncer de mama. “Eu fujo de médico. Foi constrangedor, mas foi de boa. Fiz a mamografia também, mas não sabia que era anual. Só fiz dessa vez, mas, em casa, faço o exame de toque”, conta. 
De forma geral, só 17% das jovens brasileiras que responderam a pesquisa têm, como fonte principal de informação, o ginecologista. Em Salvador, o número é ainda menor: só 10%. O ginecologista Afonso Nazário também recomenda que a educação sexual seja disciplina nas escolas. 
“Isso deveria ser mais forte nas escolas, mas tem muitos entraves, desde religiosos até os pais que não querem por achar que vai estimular. O que deveria ter mesmo era uma disciplina, ter isso nas bases curriculares, como acontece nos países desenvolvidos”, analisa.
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Mamografia deve ser impressa e feita anualmente, diz SBM 
A mamografia é o exame mais importante para detectar o câncer de mama de forma precoce. No entanto, a prática de entregar os resultados em um CD no lugar da película de filme impressa pode dificultar o diagnóstico da doença. O problema é que, segundo o alerta da Sociedade Brasileira de Mastologia (SBM), nem todos os médicos têm acesso a um monitor específico para abrir este tipo de arquivo. 
“A mamografia é um exame radiológico que se faz da mama, para exame de rotina. A evolução da tecnologia é importante de forma geral. Se você tem um equipamento de alta resolução, que permite que manipule a imagem, é uma coisa boa”, afirma o mastologista Daniel Duran, presidente da regional Bahia da SBM. 
Segundo ele, a maioria dos médicos – principalmente no serviço público – não vai ter acesso a um computador. “A avaliação da imagem por parte do mastologista ou do ginecologista é muito importante, porque vai permitir que se faça um comparativo com os exames anteriores”, explica. 
Foto: Arquivo CORREIO
Um dos problemas também a incompatibilidade dos programas de visualização e a demora para a abertura do exame, mesmo nas máquinas que têm alto desempenho. A orientação da SBM, portanto, é de que os resultados sejam impressos em tamanho real. Assim, médicos em qualquer lugar – e em qualquer condição de atendimento – vão poder analisar as imagens e chegar ao diagnóstico. 
A partir dos 40 anos, todas as mulheres devem realizar a mamografia anualmente. “Eventualmente, se tem um histórico familiar de câncer de mama ou se enquadra numa classificação de risco aumentado, tem que iniciar esse rastreamento antes. Muitas vezes, a gente inicia 10 anos antes da idade em que o parente em primeiro grau teve câncer de mama”, indica Duran. Quando o câncer é detectado precocemente, as chances de cura chegam a 95%. (correio24hs)

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