Verdes de inveja: até sindicato dos siderúrgicos apoia Trump

Enquanto imprensa americana e estrangeira considera que o fim está próximo, um dos pilares da oposição democrata acha ótimo nova tarifa sobre aço
O presidente Donald Trump e a primeira-dama Melania Trump cumprimentam partidários no aeroporto de Cincinnati, Ohio (Mandel Ngan/AFP)
Donald Trump consegue a paz entre Israel e palestinos! Economia americana cresce 10%! Kim Jong-Un entrega armas nucleares em troca de viagem à Disney! Donald Trump consegue a paz mundial! Economia americana cresce 11%, 12%, 13%…
Será que o aviso de sarcasmo precisa ser escrito em maiúsculas?
A ideia é apenas enfatizar, pelo método do exagero contrário, a má vontade e a mesmice com que o fim do mundo trumpiano é prognosticado com previsível regularidade (esta é a hora em que os jornalistas protegem a própria reputação e dizem que o apocalipse está sempre na esquina em relação a qualquer coisa envolvendo Donald Trump. Não deixa de ser verdade, mas…)
Os últimos dias foram estonteantes até pelos padrões de Trump. Num dia, 2, uma sexta-feira que já parece remota, o presidente americano tuitou que “guerras comerciais são boas e fáceis de ganhar”.
E ainda por cima usou uma expressão reservada às crianças levadas: “Quando estamos com 100 bilhões (de déficit comercial) com um país e ele se mete a fazer gracinha, acabamos com o comércio. Pronto, ganhamos. Fácil.”
O universo tal como o conhecemos caiu em cima de Trump. Paul Krugman previu mais uma vez o fim dos tempos, um ciclo sinistro de retaliações desencadeado pela ideia “inexcedivelmente estúpida” do presidente (depois dos primeiros equívocos, poucos ainda acreditam nas previsões sempre inexcedivelmente erradas do Prêmio Nobel).
Seis dias depois, Trump assinou o aumento de sobretaxas sobre aço e alumínio. O universo se tornou solidário a Gary Cohn, o assessor econômico de Trump que pediu demissão em protesto, embora os dois tenham trocado elogios.
De agente infiltrado do mais perverso dos vilões capitalistas, a Goldman Sachs, onde atingiu o pináculo do mundo da altas finanças, Gary Cohn virou um herói antiprotecionista.
Alguns até verteram lágrimas metafóricas pelo sujeito que em 2016 ganhou mais de 40 milhões de dólares, entre salário, dividendos e bônus. Se não merecidíssimos, pelo menos suficientes para bancar um ato raro no mundo político, a demissão por questão de princípios.
“Acho que Gary vai voltar”, brincou Trump. “Gosto dele, apesar de ser globalista.”
Um dia depois de assinar as novas tarifas, que entram em vigor no prazo recorde de duas semanas, Trump disse que poderia se encontrar com Kim Jong-Un. O universo, de novo, tremeu nas bases.
Todos os incontáveis comentaristas que haviam passado o último ano prevendo uma catástrofe nuclear (provocada por Trump, não pelo homenzinho-foguete), além de torcer pelo inimigo durante a Olimpíada de Inverno, transformaram-se em oponentes de qualquer contato, imediato ou remoto.
Vai dar errado, errado, errado, avisou o coro descontente. Alguém imagina que Trump não contará com a astúcia de Kim Jong-Un? Que os dois possam se encontrar, fazer um campeonato de botões e quem tiver o maior, leva?
Pois é esse nível de “envolvimento emocional”, na definição fina de Bob Woodward, que está distorcendo a cobertura jornalística sobre tudo que se refira a Trump.
Está certo que Trump provoca, deliberada ou involuntariamente, os piores instintos de muita gente, mas o ridículo ronda quando analistas profissionais começam a vigiar a linguagem corporal de Melania Trump para ver se detonam o marido dela.
Ter tido um caso com uma atriz pornô pode não ajudar na vida conjugal, inescrutável, do presidente. Mas achar que o povão vai se revoltar contra Trump por causa disso é um pouco ingênuo.
A coisa chegou a um ponto em que Chuck Todd, um bom jornalista da NBC e de seu braço alucinadamente antitrumpista no mundo a cabo, passou uma entrevista inteira tentando convencer o presidente do sindicato dos siderúrgicos, Leo Gerard, de que as sobretaxas sobre o aço são uma péssima ideia.
Ora, sindicatos, de trabalhadores ou industriais, por definição adoram um protecionismo. Todd parecia sinceramente chocado quando Gerard declarou com todas as letras que os trabalhadores em siderurgia “terão muita dificuldade em ignorar” o que Trump fez para salvaguardar empregos em extinção.
“O que me deixa triste é que há mais de trinta anos tentamos fazer os democratas fazer isso”, suspirou Gerard.
Diante de um incrédulo Todd, ele insistiu que o sindicato, tradicionalmente democrata, como todos, só quer que a competição com o aço estrangeiro seja colocada em igualdade de condições para os trabalhadores americanos, “como o presidente fez”.
É claro que não é isso, mas a simples ideia de que um líder sindical saia da linha justa e apoie Trump descompensa gente habitualmente equilibrada. Nem é preciso dizer qual seria o equivalente no Brasil.
Por falar nisso, todos podemos respirar tranquilos no caso do aço e do alumínio. O governo brasileiro já traçou quatro estratégias para enfrentar as sobretaxas (o argentino aproveitou a abertura de Trump e pediu a isenção prometida para os amigos).
O que pode dar errado com estratégias traçadas pelo governo brasileiro? 
(veja)

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