Como ser atriz, esperta e instruída ajuda Meghan a virar princesa

Ela fez aula para tomar chá com a rainha, mostra sempre o melhor ângulo para as câmeras e, principalmente, trata Harry como um rei
Zero a declarar: primeiro marido, que parece um Harry mais velho, não absorveu bem o fim do casamento com Meghan (Billy Farrell/Patrick McMullan/Getty Images)
Um aviso: que não gosta de ler histórias sobre a família real britânica está terminantemente proibido de seguir adiante. Todos os demais, que falam a verdade, prossigam.
“Ela queria contar a própria história. Mas não podia aparecer como sendo a fonte”. Assim o jornalista Andrew Morton resumiu por que a princesa Diana forneceu secretamente a informações bombásticas da biografia que ele lançou em 1992.
Entre outras revelações, ele contava as tentativas de suicídio de Diana, a bulimia e a traição que a levou a querer vingança: o caso de Charles com Camilla Parker Bowles.
Nada de tão dramático apareceu até agora no livro que Morton escreveu sobre Meghan Markle, a atriz americana que se casará em maio com o príncipe Harry, o filho problema de Diana que ela está ajudando a entrar na linha.
E conduzindo para onde quer, com sorrisos apaixonados e outros gestos interpretados como uma mistura de sedução e manipulação pelos leitores de linguagem corporal – uma categoria profissional que só o tabloides ingleses poderiam ter inventado.
E o que é a paixão, se não sedução e manipulação? Meghan Markle tem se mostrado suficientemente esperta para fazer de conta que a arquitetura do charme, público e privado, é espontânea e natural.
Parece ter nascido para receber buquês de flores, abraçar criancinhas e assumir seu lugar na complexa e exigente coreografia da realeza britânica.
Segundo Andrew Morton, antes de ser apresentada à rainha pelo neto, ela visitou uma casa de chá em Pasadena, na Califórnia.
Passou uma hora no Rose Tree Cottage “ensaiando” como segurar a xícara (com o indicador e o polegar em posição de pinça, envolvendo a asa), mexer a colher (da posição de seis horas para meio-dia, sem nenhum barulho inconveniente) e fingir que não se está sentindo um nervoso daqueles por encarar a mulher que se tornou sinônimo da função – basta dizer “rainha”, em qualquer lugar do mundo, e todos entenderão que se trata de Elizabeth II.
NU EM LAS VEGAS
É claro que uma rainha que usa a coroa desde que Churchill, Stálin, Mao Tsé Tung e Pio XII eram nomes da casa – há 65 anos -, sabe muito bem deixar visitas um pouco menos estressadas pelo entorno intimidante.
Ainda mais a mulher por quem o neto querido, traumatizado pela morte da mãe quando tinha apenas doze anos, caiu de amores assim que conheceu ,na casa de amigos comuns em Londres, em julho de 2016.
Quando ela voou de volta para o Canadá, onde morava para filmar a série Suits, já haviam passado dias e, evidentemente, noites, sem se separar. Docinhos em formado de coração com a frase “Beije-me” postados no Instagram deram uma pista inconfundível.
Equipes de relações públicas contratadas no sofisticado mercado britânico dão assessoria aos membros da “linha direta” da casa de Windsor – Charles, Camilla, os filhos dele, William e Harry, Kate e agora, muito provavelmente, Meghan.
Quando Meghan surgiu no pedaço, William, Kate e Harry já estavam sendo orientados a reposicionar sua imagem como a cara moderna da realeza e assumir uma causa filantrópica em comum para reforçar a mensagem de jovens bem intencionados e determinados a usar para o bem o privilégio quase absurdo de sua posição.
Escolheram questões relacionadas à saúde mental. Para dar um ar de autenticidade, Harry falou em tom pessoal sobre o tema. Revelou que havia chegado a um ponto de alto desequilíbrio emocional do qual sô conseguiu sair com ajuda profissional, procurada por insistência do irmão.
As bebedeiras constantes e descontroladas realmente já estavam deixando de ser “coisa da juventude”.
Quando foi fotografado pelado numa festa de embalo num hotel de Las Vegas, movido a algo mais do que as industriais quantidades de álcool consumidas por jovens britânicos, o príncipe ruivo realmente parecia um caso perdido.
MOÇA DA MALA
O equilíbrio que a namorada ajudou a introduzir na vida de Harry compensa a “bagagem” que ela carrega, como é natural para uma mulher de 36 anos, que já foi casada e trabalhou como “moça da mala”, as beldades de um programa de adivinhações da televisão americana que se equilibravam em saltos maiores do que a saia.
“Definitivamente foi um aprendizado e me ajudou a entender o que eu preferiria fazer”, disse Meghan, elegantemente, numa entrevista à revista Esquire antes de entrar na linha para virar duquesa de alguma coisa, o título que possivelmente ganhará no dia do casamento (princesa é uma forma genérica de tratar do assunto).
A maneira articulada, às vezes um pouco pedante, de se exprimir é resultado de uma boa educação, no colégio Imaculado Coração de Los Feliz, em Los Angeles, e depois da Northwestern University, onde cursou Relações Internacionais, estudou Artes Dramáticas e fez o que as outras meninas costumam fazer: namorar e ir a baladas.
Com ajuda de um tio, irmão do pai, Mick Markle, com toda a pinta de fazer parte da comunidade de inteligência, ela conseguiu um estágio na embaixada americana em Buenos Aires.
Entusiasmou-se por andar em comitiva de carros oficiais na Argentina devastada pela desvalorização do peso, em 2002, e imaginou grandiosamente que um dia “teria uma carreira na política”.
Acabou na carreira mais óbvia para qualquer menina bonita de Los Angeles: ser atriz. Um mundo conhecido para Meghan. Durante dez anos, ela acompanhou o pai, diretor de iluminação e de fotografia, praticamente todos os dias nos bastidores da série Married With Children.
Na entrevista à Esquire, disse que obviamente aprendeu muito bem como usar a luz nos estúdios – e quando tinha alguma coisa menos precisa, o pai, hoje aposentado, obeso e arredio, morando no México, ligava para ela cobrando.
CASAMENTO NA JAMAICA
Como todo mundo em Los Angeles, Meghan também se aprimorou esteticamente. Pôs facetas para corrigir o sorriso, passou a usar os apliques que substituem os cabelos crespos, emagreceu, evoluiu na maquiagem.
O corpo peso pluma tem a definição fluida, sem músculos aparentes, proporcionada pelo yoga, que aprendeu com a mãe, Doria Ragland, instrutora da modalidade.
A vida inevitavelmente esquadrinhada de Meghan mostra poucos namorados. Os conhecidos têm todos um tipo parecido: altos, atléticos, loiros ou ruivos. O primeiro marido dela, o produtor Trevor Engelson, é praticamente uma versão oito anos mais velha de Harry.
Moraram juntos durante sete anos e se casaram em 2011, numa festa na praia na Jamaica que durou quatro dias. Teve alguns elementos de um casamento judaico, mas nada de muito religioso.
Não acabou bem: logo depois que Meghan foi morar no Canadá para fazer a personagem Rachel Zane em Suits, mandou a aliança e o anel de noivado pelo correio.
A reação de Engelson sobre o novo casamento da ex praticamente resume tudo: “Tenho zero a dizer sobre o assunto”.
Já os irmãos por parte de pai, com quem Meghan deixou de ter contato, vivem loucos para dizer alguma coisa, faturando com a sede inesgotável dos tabloides.
Geralmente, só bobagens, como o lado “interesseiro” da atriz transportada de uma série de sucesso, mas sem muito futuro depois dela, para a celebridade incomparável e exigente da família real mais conhecida do mundo.
O despreparo emocional de Diana, catapultada a noiva do príncipe herdeiro aos 19 anos, produziu resultados catastróficos que acabaram por empurrá-la para a morte num acidente de carro em Paris, em 31 de agosto de 1997.
Muita jovem, insegura, carente, vinda de uma família extraordinariamente infeliz até pelos padrões da aristocracia, Diana descobriu o poder extraordinário que sua beleza e seu inesperado carisma tinham.
Tentou usá-los para construir uma vida própria, se vingar do ex-marido e da amante dele e encontrar um homem que amasse como sonhava. Manipuladora sem o estofo emocional que a atividade exige, fez revelações espantosas a Andrew Morton, mas escondeu seus próprios casos extraconjugais.
Diana era neta de barão por parte de mãe e de conde por parte de pai. Morreu com o filho de um comerciante egípcio, Dodi Fayed, seu último namorado.
Meghan Markle descende de imigrantes ingleses por parte de pai e de escravos africanos por parte de mãe. Não teve uma infância pobre, mas tampouco tinha grandes luxos, e enfrentou a batalha de viver com pais separados desde a infância.
Fez frilas como calígrafa de convites enquanto não se firmou como atriz. Seu patrimônio é avaliado em cinco milhões de dólares, nada desprezível, mas bem longe do nível de estrelas classe A.
SEM ALPINISMO
O papel de todos os membros da realeza é fazer uma espécie de encenação em cerimônias públicas, usando roupas, chapéus e uniformes que os colocam num patamar à parte.
Devem ser dignos, como representantes permanentes do estado, embora isso nem sempre seja observado. Ao mesmo tempo, não podem demonstrar esnobismo, uma característica de arrivistas.
Membros da realeza não precisam sem preocupar com alpinismo social uma vez que não existe lugar para onde possam subir.
Com a experiência de atriz e todo o cortejo da profissão – stylist para escolher as roupas, cabeleireiro, maquiador, esteticista -, ela se coloca bem em público, mostra os melhores ângulos para as câmeras e coreografa os movimentos com naturalidade.
Seu maior passo em falso até agora foi ter dado uma entrevista à revista Vanity Fair, falando sobe o namoro que ainda não tinha se transformado publicamente em compromisso. Passou a impressão de estar querendo faturar com o prestígio de Harry.
Ser chamada de narcisista, aproveitadora, interesseira, arrivista e exploradora já é praticamente obrigatório para qualquer mulher que conquiste um príncipe. Não precisa ajudar a oposição.
Sem contar que dar entrevistas é totalmente fora do protocolo, exceto em circunstâncias excepcionais.
A rainha, por exemplo, deu sua primeira entrevista à televisão em janeiro último, falando sobre a cerimônia de sua coroação, que completava 65 anos.
Quando alguma Alteza Real quer passar um recado, tem que fazer como Diana: plantar tudo secretamente. As entrevistas dela e de Charles à televisão, falando sobre as respectivas infidelidades, foram desastrosas.
“Meghan queria ser uma Diana 2.0”, disse uma amiga de adolescência da atriz, lembrando como as meninas da turma assistiram o funeral da princesa em prantos.
Que menina não chorou e sonhou exatamente a mesma coisa?
COTA DA NOIVA
Meghan Markle não vai ser princesa de Gales e depois rainha consorte, como estava previsto para Diana e, agora, para Kate. A pressão é menor, mas apenas comparativamente. E todo o valor que tenha passa a ser obrigatoriamente obliterado pela posição do marido.
Será interessante ver como uma mulher que teve vida, carreira e trajetória independentes vai lidar com isso.
A maior novidade conhecida, por enquanto, é que ela mesma vai pagar sua parte da festa de casamento no castelo de Windsor (logística e segurança, o grosso das despesas, vão para os cofres públicos). No casamento de William e Kate, os pais da noiva, milionários, assumiram a cota.
O vestido da noiva também é um gasto particular. Os apostadores já fecharam que será Ralph Russo, a marca (e os sobrenomes) do casal australiano radicado em Londres.
Mas será branco e virginal, como num primeiro casamento? Meghan vai usar alguma tiara emprestada pela rainha? Vai discursar na recepção?
Duas coisas são garantidas: os convites, que ainda não foram mandados, serão os mais bem escritos da história dos casamentos. E Harry se sentirá como um rei debaixo dos olhares e gestos amorosos da mulher. (veja)

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