EDITORIAL DO JORNAL O GLOBO - Temperamento de Trump agrava risco de guerra comercial

Comportamento do presidente americano gera temores de uma escalada de conflitos comerciais e políticos, com impacto na economia mundial
O anúncio feito ontem por Pequim de que vai impor tarifas a 106 tipos de bens dos EUA vendidos para a China, num prejuízo aos exportadores americanos equivalente a US$ 50 bilhões, emite sinais claros de uma guerra comercial que se desenha, com impacto negativo na economia global. A medida é uma retaliação à decisão anunciada na terça-feira pela Casa Branca de tributar uma série de produtos, também avaliados em conjunto em US$ 50 bilhões, sob o argumento de que o país asiático violou direitos de propriedade.
As tensões comerciais entre as duas nações começaram em 23 de março, quando Donald Trump anunciou a imposição de alíquotas de 25% às importações de aço e 10%, às de alumínio. Segundo ele, seria uma forma de proteger o emprego desses setores nos EUA. Em retaliação, a China aplicou tarifas extras de até 25% a 128 produtos americanos, entre os quais, carne de porco congelada, vinho, frutas e nozes.
Desta vez, a resposta de Pequim chamou a atenção pela rapidez com que foi anunciada e igualmente pela escolha dos 106 bens que serão retaliados, entre os quais, soja, veículos e químicos. O alvo principal das tarifas chinesas é o setor agrícola americano, uma das principais bases eleitorais de Trump.
O mercado financeiro internacional, termômetro dos sentimentos econômicos, sentiu o golpe, apresentando fortes oscilações ao longo das últimas sessões. Embora alguns agentes financeiros vejam essas retaliações apenas como uma demonstração de força do que um efetivo embate, economistas alertam para os efeitos negativos caso uma guerra comercial em grande escala ocorra de fato. Teme-se, por exemplo, o aumento da inflação mundial, com o fechamento de mercados, entre outros efeitos colaterais.
Além disso, é preciso considerar o temperamento que Donald Trump vem apresentando desde que assumiu a Casa Branca e, especialmente, nas últimas semanas, após a demissão de vários assessores estratégicos. Seu governo parece ter dado uma perigosa guinada, relegando decisões importantes ao titular da Casa Branca, sem as ponderações de conselheiros especialistas em áreas cruciais.
O exemplo mais recente desse comportamento impulsivo é a escalada de tensões na fronteira dos EUA com o México, com o anúncio ontem do envio da Guarda Nacional para patrulhar a região até que se conclua a construção do muro. Associada a declarações preconceituosas do presidente americano, ao restringir a emigração do país vizinho, a medida se tornou o tema central da eleição mexicana, prevista para 1º de julho.
Por fim, não se pode esquecer a disposição ideológica do presidente americano, no sentido de adotar um nacionalismo militante, que se reflete em uma política comercial belicosa.

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