New York Times: Trump busca uma saída da Síria, mas novo ataque o puxa de volta

Presidente americano havia dito na semana passada que queria tirar militares do país
Criança que teria sido vítima de ataque com arma química é tratada em hospital em Duma, na Síria - Capacetes Brancos/Divulgação/Reuters
Dias depois que o presidente Donald Trump disse que queria retirar os EUA da Síria, forças sírias atingiram um subúrbio de sua capital, Damasco, com bombas que, segundo socorristas, desprenderam gás tóxico
Em poucas horas, imagens de famílias mortas espalhadas em suas casas quase fizeram Trump mudar seus cálculos em relação à Síria, possivelmente levando-o se aprofundar em uma guerra intratável no Oriente Médio que ele pretendia deixar.
"Muitos mortos, inclusive mulheres e crianças, em um insensato ataque QUÍMICO na Síria", escreveu Trump no Twitter no domingo (8). Ele culpou o Irã e a Rússia —chegando a citar por nome o presidente russo, Vladimir Putin— por seu apoio ao governo sírio. "Um grande preço a pagar", escreveu Trump, sem dar detalhes.
Seu assessor de segurança interna, Thomas Bossert, disse que a equipe de segurança nacional da Casa Branca discutiu respostas possíveis e não descarta um ataque com míssil.
O relato do ataque químico a Douma, um subúrbio da capital síria, no sábado (7) parece ter espremido Trump entre impulsos conflitantes, elevando as apostas políticas e militares enquanto ele mapeia o futuro dos EUA na Síria. 
Por um lado, Trump expressou enfaticamente seu desejo de trazer as tropas americanas de volta assim que possível, na linha de sua abordagem "os EUA primeiro". Por outro, ele prometeu punir alguns maus atores, e retirar-se da Síria poderia expor o presidente a críticas nos EUA e no exterior.
"A retirada das tropas americanas da Síria agora teria repercussões muito negativas para a região e além dela", disse Murhaf Jouejati, um professor sírio-americano de relações internacionais na Academia Diplomática dos Emirados, em Abu Dhabi (Emirados Árabes Unidos).
Na semana passada, os presidentes do Irã, da Turquia e da Rússia apertaram as mãos em uma cúpula internacional em Ancara (Turquia) para comemorar seus êxitos na Síria e planejar os próximos passos. Os EUA, notavelmente ausentes, não foram sequer convidados.
Nessa época, Trump tinha suspendido mais de US$ 200 milhões em verbas para iniciativas de recuperação na Síria. 
"Eu quero sair", disse ele na Casa Branca na semana passada. "Quero trazer nossos soldados de volta para casa."
Assessores de Trump rapidamente o convenceram a desistir de uma retirada imediata. Mas Trump deixou claro que quer que as tropas saiam em alguns meses, segundo autoridades graduadas, decisão que modificaria a paisagem de maneiras que repercutiriam muito além das fronteiras sírias.
Inimigos dos EUA comemoraram a perspectiva de sua retirada. Mas os aliados regionais dos EUA, incluindo Israel, Arábia Saudita e seus parceiros na Síria, temem isso.
Eles afirmam que as forças americanas ainda são necessárias como contenção à Rússia, que considera a Síria seu enclave estratégico no Oriente Médio, e o Irã, cujos substitutos estão construindo uma infraestrutura militar na Síria para enfrentar Israel. 
Uma retirada também poderia deixar a porta aberta para o retorno do Estado Islâmico em algumas partes da Síria, motivo inicial pelo qual os EUA teriam intervindo no país.
O bombardeio a que Trump reagia fez parte de uma batalha entre rebeldes e o governo sírio, da qual os EUA se retiraram há muito tempo, em uma parte do país onde os americanos não têm presença militar nem aliados definidos.
Não há nada a deter Trump de ordenar um ataque de míssil no oeste da Síria, onde o ataque químico teria ocorrido, e ainda tirar os cerca de 2.000 militares americanos do leste do país, onde sua principal tarefa foi combater os militantes do Estado Islâmico. Mas a indecisão entre retirada e maior envolvimento, sem a articulação de uma estratégia clara para a região, certamente irá confundir igualmente aliados e inimigos.
Alguns políticos, incluindo o senador republicano John McCain, do Arizona, chegaram a argumentar que o discurso de Trump de uma rápida retirada deu ao presidente sírio, Bashar al-Assad, ousadia para usar armas químicas.
Donald Trump em reunião de seu gabinete nesta segunda-feira (9) em Washington - Nicholas Kamm/AFP
TUÍTES
Não estava claro no domingo (8) se os tuítes de Trump refletiam planos sérios de um ataque militar, ou se o suposto ataque químico havia mudado seus cálculos sobre a necessidade de uma retirada das tropas americanas em terra. Uma autoridade da Casa Branca disse que não podia dar orientação além do que o presidente disse na rede social. 
A reação furiosa de Trump ecoou sua resposta a um ataque semelhante que matou dezenas de pessoas no noroeste da Síria um ano atrás. Três dias depois desse ataque, Trump enviou uma tempestade de mísseis de cruzeiro sobre o campo de pouso sírio de onde partiram os ataques.
Fotos das vítimas influíram em sua decisão na época, quando ele manifestou horror diante das imagens de "crianças inocentes, bebês inocentes", assim como suas repetidas críticas ao presidente Barack Obama por não intervir em circunstâncias semelhantes.
Mas os ataques em abril passado foram uma exceção. Durante o ano, os EUA não quiseram intervir na Síria, apesar de muitos ataques com baixas muito maiores.
"O governo Trump ignorou ataques convencionais a civis e o uso repetido de gás cloro contra civis que custaram muito mais vidas que este único ataque horrível", disse Aaron Davis Miller, um ex-assessor sobre Oriente Médio em governos republicanos e democratas e vice-presidente do Centro Woodrow Wilson, em Washington. 
Sete anos de lutas arrasaram a Síria em uma série de conflitos sobrepostos, num caleidoscópio de combatentes e potências internacionais que buscam promover seus interesses.
Ao longo da guerra, a Rússia e o Irã se comprometeram profundamente com Assad e fizeram importantes investimentos militares, financeiros e políticos para garantir sua sobrevivência. Os EUA pediram inicialmente que Assad deixasse o poder e forneceram dinheiro e armas aos rebeldes que tentavam depô-lo, mas há muito tempo abandonaram a esperança de derrubá-lo. 
O envolvimento principal dos EUA hoje é no leste da Síria, onde formaram uma aliança com uma milícia liderada por curdos conhecida como Forças Democráticas Sírias, ou FDS, para combater os jihadistas do EI. 
O EI perdeu a maior parte de seu território, dando às forças apoiadas pelos EUA o controle de uma grande área de terra onde instalaram administrações locais e às vezes se chocaram com o governo sírio e seus aliados russos e iranianos.
Os que apoiam a manutenção das tropas americanas na Síria, incluindo militares graduados, afirmam que elas são necessárias para proteger esses ganhos.
Salientando o debate interno em Washington, virtualmente no mesmo momento em que Trump dizia que estava na hora de partir, o general Joseph Votel, chefe do Comando Central dos EUA, dizia quase o oposto.
"A parte difícil, acho eu, está à nossa frente", disse ele, sugerindo que os EUA deveriam estabilizar as áreas tomadas dos jihadistas, devolver os refugiados a suas casas e ajudar na reconstrução. Atualmente, os militares americanos estão limpando armas não detonadas, minas e outras armadilhas de Raqqa só para torná-la um pouco habitável. Uma retirada colocaria em risco esses empreendimentos.
O debate prossegue chega ao núcleo da missão dos EUA na Síria: se as tropas americanas estão lá só para derrotar o EI militarmente, ou também para estabilizar as áreas que os jihadistas já dominaram, para impedir que o EI retorne. 
Líderes militares americanos apoiaram a última opção e consideram a aliança com as FDS um ativo estratégico de longo prazo para alcançar esse objetivo. 
"Sempre estivemos lá para ajudá-los, e sempre estaremos", disse o tenente-general Paul Funk 2º, comandante da coalizão anti-islâmica, em fevereiro durante uma reunião com um comando militar local no norte da Síria. 
Abandonar a força liderada pelos curdos também a deixaria à mercê de outros poderes, especialmente a Turquia, que a considera terrorista e uma ameaça à soberania turca. 
A Turquia invadiu o enclave curdo de Afrin, no norte da Síria, no mês passado e ameaçou avançar para leste em áreas onde tropas americanas operam hoje, levando à possibilidade de aliados da Otan lutarem entre si. A invasão turca também atraiu combatentes curdos para longe da luta contra o EI no sul, desacelerando-a, segundo autoridades americanas.
Um dos maiores beneficiários de uma retirada dos EUA seria o Irã, país que Trump culpou por muitos dos problemas no Oriente Médio e prometeu enfrentar.
"É simples: se as forças americanas deixarem a Síria, haverá mais espaço para o Hizbullah e o Irã manobrarem", disse Hamidreza Taraghi, um analista linha-dura no Irã. 
A Rússia também aclamou a perspectiva de uma retirada americana.
"Quanto menos interferência dos EUA, menos soldados americanos, melhor para todos", disse Andrei Klimov, vice-diretor da Comissão de Relações Exteriores na Câmara Alta do Parlamento russo. Uma retirada dos EUA reforçaria a posição da Rússia como potência a ser reconhecida como mestre em tática no palco mundial. 
Mas uma saída dos EUA criaria dores de cabeça para Putin, que declarou várias vezes "missão concluída" na Síria, mas ainda não cumpriu diversas promessas de reduzir as forças militares russas. Uma retirada dos EUA também poderia deixar para a Rússia a conta da reconstrução de um país onde muitas cidades e a maior parte da infraestrutura foram destruídas.
Putin pediu "investimentos maciços de capital" de países ricos para ajudar a reconstruir a Síria, dizendo que eles precisam se tornar "mais ativamente envolvidos em atos, e não só em palavras".
Mas os países ocidentais não deverão apoiar o projeto enquanto Assad, que muitos consideram um criminoso de guerra, continuar no poder. 
THE NEW YORK TIMES
Tradução de Luiz Roberto Mendes Gonçalves
(folha)

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