EDITORIAL FOLHA DE S.PAULO - Temer, 2 anos

Governo emedebista conseguiu estancar a recessão com agenda de reformas, mas retomada patina
 O presidente Michel Temer - Marcelo Justo - 18.mai.2018/Folhapress
No curto governo de Michel Temer (MDB), causa impressão a quantidade de reformas que o presidente patrocinou ou fez aprovar, no Congresso e na gestão da economia. Tanto mais impressionante é que a maioria das mudanças tenha ocorrido antes da metade dos seus dois anos de mandato, que se completaram no sábado (12).
A diferença entre os dois momentos do emedebista resume as forças e fraquezas de sua administração e do projeto que representou.
O ímpeto reformista soube se aproveitar, com habilidade política, do vácuo político-econômico deixado pelo desastre de Dilma Rousseff (PT). No entanto o envolvimento em escândalos e o questionamento da legitimidade de seu mandato acabaram por solapar precocemente seu governo.
Amplamente rejeitado pelos eleitores, sem futuro político a oferecer a seus pares e sitiado pela Justiça, o presidente começou a definhar em meados do ano passado.
Temer assumiu o governo quando o país vivia a fase mais sombria da recessão e com as contas públicas em colapso. Seu programa de ajustes ganhou credibilidade e fez com que a crise se amainasse.
Em poucos meses, o governo e a base parlamentar aprovaram o teto de gastos federais, mudanças cruciais nas leis do petróleo, melhorias na governança das estatais e o redesenho do ensino médio, além de fazerem avançar o currículo nacional comum da educação.
Tal agenda, porém, começaria a ser minada já no início de 2017, quando se notavam divisões na coalizão presidencial. Parlamentares iniciavam a resistência à reforma mais essencial, a da Previdência. Por motivos políticos e gerenciais, empacariam também propostas de privatização.
Expoentes do governismo, ademais, foram sendo sucessivamente atingidos por episódios rumorosos.
Já de início havia caído Romero Jucá, que ocupou o Ministério do Planejamento por menos de suas semanas —deixou o posto ao se revelarem gravações em que pregava o estancamento da "sangria" provocada pela Lava Jato.
Outros ministros do núcleo palaciano viriam a cair devido a escândalos, casos de Geddel Vieira Lima e Henrique Alves Dias.
Em maio, revelava-se que o próprio Temer tivera conversas inaceitáveis com Joesley Batista, empresário sob investigação. Pouco depois, a vitória apertada no julgamento da chapa presidencial no Tribunal Superior Eleitoral contribuiu para degradar ainda mais a imagem do mandatário.
Grande parte de seu capital político restante teve de ser gasta para barrar, na Câmara dos Deputados, o avanço das denúncias da Procuradoria-Geral da República.
Recordes de avaliação negativa e a retomada econômica abaixo das expectativas neste ano exauriram Michel Temer. Parte do bloco de poder que lhe deu respaldo ainda faz avançar uma e outra reforma importante no Congresso, mas o imenso passivo ético abreviou na prática seu breve governo.

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