EDITORIAL FOLHA DE S. PAULO - Cortar ou tributar

Enfrentamento do rombo orçamentário depende da revisão das prioridades do Estado
Da esq. para a dir., Mauro Benevides Filho, Eduardo Giannetti, Vinicius Torres Freire (mediador), Elena Landau e Samuel Pessôa participam do debate 'Mais um ano perdido?', no auditório da Folha, no centro paulistano - Eduardo Anizelli/ Folhapress
Um consenso básico e bem-vindo se firmou no debate entre quatro economistas promovido no auditório da Folha, nesta terça-feira (5).
Este é o de que o rombo orçamentário do governo se mostra insustentável —e seu enfrentamento, urgente, depende da revisão das prioridades do Estado brasileiro. Assim entenderam Samuel Pessôa, colunista do jornal, Elena Landau, Eduardo Giannetti da Fonseca e Mauro Benevides Filho.
“Mais um ano perdido?”, era a questão apresentada aos palestrantes, a respeito deste 2018. O que se pode dizer, numa síntese das opiniões expressadas, é que haverá mais anos perdidos se o presidente a ser eleito em outubro não promover reformas nas contas públicas.
Quanto ao que fazer de mais imediato, há uma divergência importante, que já se manifestava nos estertores do governo Dilma Rousseff (PT) e merece discussão aprofundada na campanha ao Planalto.
Pessôa, Landau e Giannetti, de pensamento mais claramente liberal, defendem que as medidas devem se concentrar em cortes da despesa, em especial na Previdência. Benevides, assessor do presidenciável Ciro Gomes (PDT), dá mais ênfase ao aumento de receitas, a ser buscado com maior taxação dos estratos abonados.
Não se trata propriamente de uma polarização ideológica: nem o auxiliar de Ciro nega a necessidade de mudar as regras das aposentadorias, nem os demais se opõem a um maior gravame do capital.
Recorde-se que a administração petista tentou recriar a CPMF —e o governo Michel Temer (MDB), que rejeitava de início a alta de impostos, acabou por recorrer mais de uma vez ao expediente.
Para esta Folha, as dimensões descabidas do déficit do Tesouro Nacional (projetado em R$ 159 bilhões neste ano, sem contar os gastos com juros) justificam alguma alta emergencial de tributos.
Há muito se advoga aqui, ademais, que a taxação exagerada do consumo no país, prejudicial aos pobres, dê lugar a uma carga maior sobre lucros, salários e patrimônio.
Entretanto é estreita a margem para o aumento da arrecadação pública total, que já absorve um terço da renda dos brasileiros. Esse peso excessivo, mesmo que se torne mais bem distribuído, limita a atividade econômica e onera, ao cabo, toda a sociedade.

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