Quais são as propostas dos candidatos para gerar emprego?

Ana Paula Lisboa*
O Globo
As classes média e alta querem continuar a ser paparicadas, grosseiras, racistas e a pagar mal
Devia ser uma experiência daquelas câmeras escondidas que capturam um comportamento social. Ainda existe o quadro “Vai fazer o quê?” no Fantástico? Há pouco tempo circulou também o vídeo de uma TV espanhola em que uma menina defendia a outra na aula de dança porque ela tinha dois pais. Você viu?
Quantas brigas já assumi defendendo caixa de supermercado e atendente de bar de pessoas grosseiras e racistas. “O cliente ter sempre razão” e o medo de perder o emprego paralisam.
Eu havia esquecido que tenho pavor de atender pessoas desde o meu primeiro emprego. Durante 6 horas diárias eu ativava e desativava planos e promoções, fazia cadastros e ouvia muitas reclamações. Alguns clientes partiam para a agressão e xingamentos, e o procedimento formal era avisar: “Senhor, se insistir no uso dessas palavras serei obrigada a encerrar a sua ligação”. Você precisava falar isso três vezes e então desligar. O procedimento informal era desligar mesmo sem avisar, ou colocar no mudo, deixar a pessoa gritando enquanto você ia buscar um café. Mas é muito diferente ser destratada pessoalmente. A pessoa olhar e te ver como se você fosse nada, como se a razão da sua existência fosse servir a ela.
O lugar de quem serve nos países que passaram pela escravidão ainda é um lugar cruel. As classes média e alta querem continuar a ser paparicadas, grosseiras, racistas e a pagar mal.
Eu acho que todo meu leitor já sabe que sou a primeira geração a romper meu ciclo familiar de trabalhos domésticos. Também já contei aqui que fui criada para não seguir as profissões de minhas ancestrais e de como isso é cruel: dizer ao filho para não ser o que você é.
O que aconteceu é que esse fim de semana eu fui aquela moça que fica na porta dos eventos, recebendo as pessoas e cobrando os ingressos. No sábado o evento era meu, no domingo fui produzir o show de um amigo que é um músico incrível, mas sem muita habilidade para administração.
Hoje sendo minha própria chefe, sigo a filosofia de que “se me atacar, eu vou atacar”. É mais fácil para mim responder às ofensas à altura, devolver o olhar de desdém e ver em seus rostos o susto ao perceberem que eu era brasileira (e preta).
O governo angolano divulgou dados no início de agosto que revoltaram boa parte da população: 67% dos jovens em Angola não procuram emprego. A revolta se deu não só pela divulgação dos dados, mas porque eles não foram explicados e especialmente porque semanas antes marchas em seis das 18 províncias clamavam por postos de trabalho.
Lembrei que no Brasil os números também são assustadores, segundo o Pnad: 23% dos jovens brasileiros não estudam e não trabalham.
Aqui como aí, é importante pensar que tipo de escola e de trabalho é esse que essas pessoas não procuram? Aliás, como andam as propostas dos candidatos à Presidência e aos governos estaduais em relação a criar políticas voltadas à promoção de empregos?
A cultura em Angola, assim como no Brasil, gera milhões de postos de trabalho, porque se o jovem não está procurando emprego para limpar o chão de um supermercado, ele está fotografando, criando flyer, produzindo festa, fazendo música, escrevendo o texto que vai falar no Slam.
Não se pode procurar o que não existe.

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