Por que os americanos demoram para ser enterrados?

Com John McCain foram oito dias. Aretha Franklin aguardou quinze. No mínimo, esperam-se são quatro dias
Por Duda Teixeira/VEJA
O caixão de John McCain é carregado após cerimônia memorial na Catedral Nacional em Washington, Estados Unidos - 01/09/2018 (Marvin Joseph/Pool/Reuters)
O senador republicano John McCain morreu no sábado, 25 de agosto. Seu enterro acontece neste domingo, 2 de setembro, oito dias depois do falecimento.
McCain era uma figura pública e admirada em todos os Estados Unidos. Era de se esperar que fossem programadas diversas atividades para a uma despedida grandiosa. Mas o velório estendido nesse país não é restrito aos famosos. Em geral, o enterro acontece pelo menos quatro dias depois da morte. No Brasil, tudo em geral se resolve dentro de 24 horas.
A principal razão para essa delonga é cultural. A maioria da população americana é protestante. Os adeptos dessa religião se preocupam mais em realizar um ritual para lidar com a separação do morto. Como parte disso, há um cuidado maior com a preservação e aparência do falecido. “Uma das ideias é a de que corpo não deve ser ultrajado ou desrespeitado, pois será necessário após a morte. Há uma valorização da vestimenta, da maquiagem e dos cabelos”, diz Célia Maria de Oliveira professora de tanatologia na Escola de Enfermagem da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).
Mesmo pessoas que não praticam a religião protestante acabaram assimilando esses costumes. Judeus ortodoxos e muçulmanos são exceções. Eles acreditam que o sepultamento deve acontecer antes do pôr do sol do dia seguinte.
A cantora americana Aretha Franklin, filha de um pastor batista, foi enterrada na sexta, 31 de agosto. Ela faleceu quinze dias antes. No velório, Aretha estava com sapatos de salto alto Christian Loubotin e um vestido vermelho. No último dia, sua roupa foi trocada por um traje azul e calçados combinando.
O corpo da cantora Aretha Franklin foi velado no Museu Charles H. Wright de História Afro-Americana em Detroit, Michigan – 28/08/2018 (Paul Sancya/Reuters)
Há várias empresas nos Estados Unidos especializadas em preparar o corpo para o ritual fúnebre. Os serviços incluem o translado dos familiares e do corpo, às vezes em várias limousines. “Os americanos também costumam colocar objetos que o morto gostava no caixão ou próximo dele, como se estivessem ofertando um presente para o morto levar com ele”, diz Célia, da UFMG. Também são feitos discursos e são expostas fotos do falecido. É comum também que se ofereça uma recepção farta, com alimentos que eram da preferência do morto (no interior do Brasil, isso também acontece. Às vezes é oferecido cachaça aos que participam do funeral).
Esse tipo de costume é favorecido nos Estados Unidos porque lá as pessoas têm um bom poder aquisitivo. Diversas empresas oferecem serviços, com preços acessíveis, para cuidar do corpo, incluindo refrigeradores para ajudar na sua preservação.
A melhor condição financeira também pode ser sentida em outras questões. “Os enterros geralmente são realizados alguns dias depois para que os familiares tenham tempo para planejar o funeral e para que os de fora da cidade possam viajar e participar da despedida”, diz o americano Chuck Bowman, presidente da Associação Nacional dos Diretores de Funerais dos Estados Unidos.
Uma última observação: no Brasil, o desejo de fazer tudo em menos de 24 horas não é uma regra. “Em algumas cidades do Nordeste, como em municípios da Bahia, os parentes preferem aguardar dois dias para enterrar. Eles acham que existe o risco de a pessoa voltar a viver“, diz Joelton Flor do Nascimento, proprietário da Funerária Renascer, em Canarana, Bahia. No Candomblé, a regra é esperar dois dias. “Esse tempo é necessário para purificar o espírito do falecido”, diz o ogã Chacrinha, Genival Batista, que toca e canta no terreiro Kuabata Dia Ndandalunda, na zona norte de São Paulo.

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