Ana Estella ou Michelle: conheça a próxima primeira-dama do Brasil

Com a vitória de Jair Bolsonaro, quem chega ao palácio é um modelo clássico de primeira-dama, discreta e caseira. Ao lado de Fenando Haddad, quem vai subir a rampa é uma acadêmica bem-sucedida, feminista e com militância política

(foto: Mauro Pimentel/AFP / Reprodução/TV)

Antes com a função de cuidar de ações sociais do governo, as aspirantes a primeira-dama, mesmo sem ter função oficial definida por lei, têm sido personagens importantes nas campanhas dos candidatos à Presidência.
Ana Estela, mulher de Fernando Haddad, aparece com o presidenciável petista em quase todos os eventos.
Michelle, companheira de Jair Bolsonaro, do PSL tem sido convocada em menor medida para vídeos nas redes sociais e foi personagem de uma das propagandas do deputado federal.
Isolada na maior parte da campanha, a ceilandense Michelle começou a aparecer com mais recorrência na reta final da disputa. Discreta e blindada de discussões públicas, foi citada pelo candidato em uma peça de propaganda, quando Jair Bolsonaro apresentou sua história, e no momento em que ele, emocionado, confessou ter desfeito uma vasectomia. “Eu já tinha uma enteada. Minha mulher era mãe solteira. Mas a realização para parte das mulheres é ter filho. Por isso, desfiz a vasectomia”, contou o candidato do PSL.
Michelle falou pela primeira vez no programa da última quinta-feira. Ela conheceu o marido, de 63 anos, na Câmara dos Deputados, em 2007. Vive com ele na Barra da Tijuca e participou em transmissões ao vivo nas redes sociais. Com pouquíssimas palavras, furtou-se a concordar com o discurso do militar, acompanhou intérpretes de libras e homenageou as pessoas com deficiência auditiva. “Sempre se dedicou a aprender com os deficientes auditivos membros da igreja”, disse Bolsonaro em um dos vídeos, publicado no Dia dos Surdos. A aparição veio logo depois da divulgação da denúncia de ameaça de morte da ex-mulher de Bolsonaro Ana Cristina Valle ao Itamaraty, negada pelo capitão. Michelle apagou o Facebook depois que começou a ser conhecida.
Idealizadora do Programa Universidade para Todos (ProUni), com uma carreira acadêmica bem-sucedida, Ana Estela Haddad é professora da Faculdade de Odontologia da Universidade de São Paulo (USP), pesquisadora e gestora de políticas públicas. Está casada com Fernando Haddad há 30 anos. O longo tempo de união foi explorado de forma moralista, na campanha, para atacar Bolsonaro, que já teve três uniões estáveis. Estela participou da propaganda eleitoral do marido, com falas breves e é filiada ao PT. No Facebook, com publicações de conferências, seminários e eventos, Ana Estela aborda temas voltados à universidade e à política. É discreta, mas não mede palavras para defender ideologias. Em uma entrevista, disse que “ser primeira-dama não é confortável”. Em outra, defendeu o espaço da mulher na sociedade. “Vivemos um momento, no Brasil e no mundo, em que a questão do feminismo, da participação feminina tem ganhado importância. Temos mulheres e jovens que têm se colocado de forma interessante e intransigente na defesa de igualdade de oportunidades, de espaço, de fala.”
Primeiro-damismo
A cientista política Denise Mantovani, da Universidade de Brasília, entende que a construção da figura de primeira-dama é uma forma de ver a mulher de maneira subordinada. “Esse posto enquadra a mulher em atividades vinculadas à assistência social. O modelo que é seguido hoje é patriarcal”, argumenta.
Mantovani, que estuda a participação feminina na política, sustenta que as companheiras dos presidentes deveriam ser reconhecidas pelas próprias ocupações, e não por serem casadas com o chefe do Executivo. “O papel de primeira-dama é antiquado. As mulheres são conhecidas pelo papel de esposa, não de profissionais. Respeito a atividade voluntária, mas ela deve ser vista como políticas públicas.”
Historicamente, no Brasil, a função assistencial das primeiras-damas foi destacada com a criação da Legião Brasileira de Assistência (LBA), órgão público fundado em 1942 pela então primeira-dama Darci Vargas. Perpetuada até o governo Collor, quando denúncias de desvio de verba foram feitas à gestão de Rosane Collor, a LBA foi extinta por Fernando Henrique Cardoso, no primeiro dia de governo. “A Ruth Cardoso (mulher de FHC) entendia-se como agente política, o que pode ter resultado nessa decisão”, pontua a professora Denise Mantovani. A última tentativa de ligar a imagem da primeira-dama à área social ocorreu no Governo Temer. Com um orçamento de R$300 milhões, o projeto Criança Feliz, lançado pela embaixadora Marcela Temer em outubro de 2017, foi um aceno a esse campo e centrava-se em visitas a famílias com crianças de até 3 anos que recebem Bolsa Família e estão em condições de vulnerabilidade e com crianças de até 6 anos com necessidades especiais. À época, órgãos representativos, como o Conselho Federal de Serviço Social (CFESS) e o Conselho de Psicologia de São Paulo criticaram o programa, já que era uma forma de retrogredir ao primeiro-damismo. Procurada pelo Correio, a Presidência respondeu que “a esposa do presidente Michel Temer desenvolve trabalhos voluntários, sem orçamento ou remuneração”.
MICHELLE DE PAULA 36 anos, Ceilândia (DF)
(foto: Reprodução/TV)
Michelle de Paula Firmo Reinaldo Bolsonaro, mora atualmente na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro. Mãe de Letícia, filha de outro casamento, e de Laura, única filha mulher de Bolsonaro, a ceilandense matriculou-se na graduação de farmácia, na Faculdade Estácio de Sá, mas não prosseguiu no curso. Michelle conheceu Jair enquanto trabalhava como secretária parlamentar na Câmara dos Deputados, em 2007. Bolsonaro, que já cumpria o quinto mandato, namorou a atual esposa por seis meses antes do noivado. Depois de se conhecerem, Michelle foi nomeada para trabalhar no gabinete de Bolsonaro, na mesma função. Ela foi exonerada no fim de 2008, após o Supremo Tribunal Federal (STF) emitir uma súmula proibindo a contratação de parentes até terceiro grau. Os dois se casaram no civil em 2013, no Rio de Janeiro. Michelle é evangélica e frequentava a sede da Assembleia de Deus Vitória em Cristo, mas, em 2007, passou a ser fiel da Igreja Batista da Tijuca. Na congregação, a aspirante a primeira-dama tem se destacado na atuação com surdos e mudos, na tradução de cultos para a Língua Brasileira de Sinais (Libras).
ANA ESTELA HADDAD 52 anos, São Paulo (SP)
(foto: Mauro Pimentel/AFP )
De ascendência libanesa, Ana Estela Haddad — que, por coincidência, já se chamava assim antes de se casar com Fernando Haddad — nasceu em São Paulo. Mãe de Frederico e Ana Carolina, a paulista é graduada em odontologia. Tem mestrado, doutorado e livre-docência pela Universidade de São Paulo (USP). Atuou na direção da Gestão da Educação na Saúde no Ministério da Saúde, passou pelo Ministério da Educação e foi uma das idealizadoras do Programa Universidade para Todos (ProUni), além de lecionar na USP. Fernando e Ana Estela se conheceram no Clube Sírio, do qual eram sócios, em São Paulo. Começaram a namorar em 1986 e se casaram dois anos depois. Em 1989, Estela seguiu com Haddad para o Canadá, onde ele concluiu o mestrado em economia. De volta ao Brasil, ficaram em São Paulo, cidade de origem, e, nos anos 2000, no governo Lula, precisaram ficar em Brasília. Voltaram a São Paulo para a campanha na qual Haddad conquistou a prefeitura e moraram até este ano em um apartamento de 200m², no bairro do Paraíso. Atualmente, vivem em uma casa no Planalto Paulista, na Zona Sul.
* Estagiário sob supervisão do subeditor Silvio Queiroz/em.com

Nenhum comentário

Tecnologia do Blogger.