Bolsonaro e Prestes, os dois capitães que chegaram ao topo na política

Bolsonaro é o 2º capitão a pontificar na política; o primeiro foi Prestes
Capitão Jair Bolsonaro, eleito presidente, e capitão Luiz Carlos Prestes.
Uma curiosidade que chama atenção de certos observadores: Jair Bolsonaro, depois de Ernesto Geisel, é o segundo presidente da República de olhos azuis, esquecendo-se que Dom Pedro II também os tinha bem celestes, embora fosse mais que presidente pois foi rei. Entretanto, outra coincidência que destaca essa figura que abre sua porta na História é uma outra.
Bolsonaro é o segundo capitão a pontificar na política brasileira. O primeiro foi o gaúcho Luiz Carlos Prestes, da arma de Engenharia. Bolsonaro, sessentão, parece confirmar o estigma e a imagem histórica dos capitães, pois se apresentou no cenário, desde o início de sua carreira política, firme e desassombrado, tal como o legendário “Cavaleiro da Esperança” (epíteto que lhe foi atribuído pelo escritor Jorge Amado).
Prestes era reconhecido não só por sua coerência ideológica, mas principalmente por sua fidelidade revolucionária e espírito de luta: faleceu nonagenário, ainda irrequieto, como um autêntico capitão, intransigente e audaz como se estivesse comandando uma carga de seus guerreiros na invicta Coluna Prestes.
Prestes deixou um legado: ele foi o personagem seminal da esquerda brasileira. Por mais que os partidos e facções desse campo divirjam ideologicamente, todos mantêm uma postura inspirada na firmeza doutrinária e na austeridade do capitão.
Armênio Guedes, um dos mais próximos colaboradores do antigo secretário geral do PCB, dizia que essa orientação vinha do Castilhismo, uma versão do Comtismo de Benjamin Constant, muito difundido entre os militares da época, que constitui o etos dessas correntes. Sua postura é atribuída erroneamente, por algumas semelhanças, ao stalinismo do comunismo dos anos 40/50. Prestes já era assim -como sempre foi- muito antes de se converter ao comunismo. Deixou para seus pósteros uma esquerda castilhista.
Essa doutrina do caudilho gaúcho é uma visão própria do positivismo (assim como Lênin fez sua interpretação do marxismo), a mesma de Bolsonaro, oficial de artilharia como Floriano Peixoto, Hermes da Fonseca e Ernesto Geisel.
Floriano, o “Marechal de Ferro”, foi parceiro de Júlio de Castilhos na paz e na guerra. O governador gaúcho, com sua Brigada Militar (que em 1893 era uma milícia do Partido Republicano), foi o sustentáculo da repressão aos levantes dos maragatos, no Rio Grande, e da Armada, na Baía da Guanabara. Floriano, por seu turno, assegurou a Castilhos a continuidade da vigência de sua constituição singular, diferente daquela do nascente Estados Unidos do Brasil. A Constituição de 14 de Julho, do Rio Grande do Sul, não tinha três poderes (o executivo mandava em tudo) e permitiu cinco reeleições (quatro seguidas) do seu sucessor Borges de Medeiros. Bolsonaro é o herdeiro desse positivismo adulterado.
Entre ditadores e presidente, a Infantaria deu três (Dutra, Castello e Costa e Silva), a Cavalaria deu dois (Médici e Figueiredo). Com Bolsonaro são quatro da Artilharia.
Outra comparação que se faz de Bolsonaro é com seu colega paraquedista Hugo Chávez, da Venezuela. Os dois vêm dessa nova especialidade dos soldados alados, tipos de índole arrojada, impetuosos, temerários, preparados para lutar atrás das linhas inimigas. Com isto, diz-se que Bolsonaro vai tirar a pele de cordeiro e se projetar como um nacionalista ferrenho, tal qual Chávez, que assumiu e se lançou na política com imagem de golpista de direita, foi eleito presidente pelos liberais e conservadores, mas depois deu meia-volta à esquerda. Também pode haver uma certa analogia, pois assim como Bolsonaro, o ditador venezuelano não era general, mas um simples tenente-coronel. Não foi por isto que os generais de seu país lhe negaram continência.
A grande diferença entre os dois seria o legado histórico que cada qual teria no campo da política externa. O Brasil é um País de índole pacifica, mas que nunca deixou barato aos que lhe profanaram o território. Solano Lopez e Adolf Hitler que o digam.
Já Chávez julgava-se herdeiro Simon Bolívar, o fundador do pan-americanismo. Por isto investiu-se com deveres e obrigações com os demais povos de nosso subcontinente latino-americano. Como o Libertador, herói da independência da metade norte da América do Sul, ele arvorou-se a cumprir o legado de seu antecessor, criando o bolivarianismo. Naquela época da conferência do Panamá, no Século XIX, o Brasil não aderiu ao movimento. Pelo contrário, o patriarca venezuelano considerava o Brasil um corpo estranho na América Espanhola. Chávez perdoou os falantes lusitanos, deixando de fora apenas os anglo saxões. Menos mal.
Por fim a questão da hierarquia militar. Não obstante nada impeça um capitão de ser comandante em chefe das Forças Armadas, se a Lei lhe conferir esse poder, soa estranho para o público leigo um general fazer continência para baixo, como se diz. Seria humilhante. Isto não é verdade em quaisquer sentidos, pois nas Forças Armadas o que há de mais importante é a antiguidade. Nesse quesito, Jair Bolsonaro é da mesma turma dos generais do alto comando do presente. Se tivesse continuado no Exército, feito tudo direitinho, estudado e se comportado de acordo com os regulamentos, poderia hoje ser um quatro estrelas. Então também não há continência para baixo. Bolsonaro trata seus generais por “você”, como a qualquer colega de turma na Academia e nos primeiros passos da vida profissional.
Em tempo: outra semelhança além dos olhos: os dois protestantes, Geisel era luterano, Bolsonaro pentecostal. (DP)

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