Bolsonaro organiza base no Congresso sem negociar com cúpulas partidárias

Apoio a candidato do PSL reúne bancadas temáticas independente de direções partidárias
Eduardo Bresciani/O GLOBO
O candidato à Presidência da República Jair Bolsonaro Foto: Edilson Dantas / Agência O Globo
BRASÍLIA - Ao consolidar o apoio das bancadas ruralista e evangélica, e já contando desde sempre com o engajamento majoritário da bancada da bala, o presidenciável Jair Bolsonaro (PSL) segue o caminho do ex-presidente da Câmara Eduardo Cunha (MDB) na formação de uma eventual base parlamentar para um futuro governo. Sem negociar com cúpulas partidárias, Bolsonaro vem conseguindo angariar apoiadores no baixo clero e no varejo. Os representantes das bancadas destacam que no caso de Cunha foi ele quem buscou o apoio de forma ostensiva, enquanto que no caso de Bolsonaro o acerto é uma demanda de reação aos movimentos de suas bases.
O coordenador dessa estratégia é o deputado Onyx Lorenzoni (DEM-RS), que já tinha anunciado antes de começar a campanha a adesão de mais de cem deputados ao candidato, mas sem divulgar uma lista. O apoio das bancadas apelidadas de BBB - boi, bala e Bíblia - foi fundamental para vitória de Cunha na eleição para presidência da Câmara em 2015 e lhe deu sustentação até que acabasse afastado em meio a uma série de denúncias de corrupção, que inclusive o levaram posteriormente à prisão.
A coordenadora da bancada ruralista, Tereza Cristina (DEM-MS), afirma que no caso de Cunha o apoio foi construído em cima de propostas que se desejavam aprovar, enquanto que a declaração de voto em Bolsonaro decorre de uma pressão das bases eleitorais dos deputados.
— O apoio ao Eduardo Cunha era para que temas que são caros ao setor andassem e, na época, ele abriu as portas e nós conseguimos avançar em muitas pautas complicadas. Hoje é completamente diferente, hoje vem da base. O setor produtivo está apoiando o Bolsonaro e essa pressão foi ficando cada vez maior — afirmou Tereza Cristina. 
O depoimento de Hidekazu Takayama (PSC-PR) é semelhante. Ele destaca que Cunha procurou parlamentares e igrejas em busca de apoio, e que agora ocorreu fenômeno inverso. 
— No caso de Eduardo Cunha, ele buscou apoios na igreja. Agora, com Bolsonaro, você vê lideranças religiosas declarando apoio porque ele é o que mais se aproxima do pensamento cristão. Na verdade, quem está fazendo campanha para Bolsonaro é a esquerda radical, que está fazendo com que os pastores se assustem — diz Takayama.
Coordenador da bancada da bala, Alberto Fraga (DEM-DF) tinha traído o amigo Bolsonaro no início da campanha após fechar acordo com o PSDB de Geraldo Alckmin para disputar o governo do Distrito Federal. Patinando nas pesquisas, Fraga voltou a defender o candidato do PSL em eventos e declarou publicamente o seu voto no debate realizado pela TV Globo na terça-feira.
O movimento de Fraga é semelhante ao de vários parlamentares que passaram a defender Bolsonaro apenas em busca da própria sobrevivência. Luiz Carlos Heinze (PP), expoente da bancada ruralista, tenta uma vaga ao Senado e estava neutro no início da campanha devido ao fato de sua correligionária e conterrânea Ana Amélia ser vice de Alckmin. Também com dificuldades eleitorais, decidiu abraçar de vez a campanha de Bolsonaro.
A reaproximação do candidato do PSL ocorreu com vários parlamentares da campanha. Pastor Marco Feliciano (Podemos-SP), que se notabilizou quando presidiu a comissão de Direitos Humanos da Câmara, foi um que abandonou o candidato de seu partido, Álvaro Dias, durante a campanha para se aproximar de Bolsonaro.
A aglutinação das bancadas temáticas em torno de Bolsonaro é um argumento usado por apoiadores do candidato do PSL quando há questionamentos sobre sua viabilidade. Nessa quinta-feira, por exemplo, em transmissão ao vivo ao lado do presidenciável, o pastor Silas Malafaia destacou que somente com as três bancadas acima mencionadas Bolsonaro já deve ter maioria absoluta na Câmara.

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