Desgaste do PSDB em São Paulo explica ascensão de Bolsonaro, diz analista

Para o cientista político Alberto Almeida, largada ruim de Geraldo Alckmin no estado que governou quatro vezes possibilitou a capitão liderar antipetismo
Veja
O cientista político Alberto Carlos Almeida (Gustavo Luizon/VEJA.com)
Em maio deste ano, o cientista político Alberto Carlos Almeida publicou O Voto do Brasileiro, um livro analítico sobre o comportamento dos eleitores no país desde a redemocratização. A conclusão de Almeida foi que estava sedimentada uma divisão entre os brasileiros que provocaria a manutenção da polarização entre o PT e o PSDB no comando da política nacional, afastando a possibilidade de uma “terceira via”, uma candidatura de centro que roubaria voto de ambos os lados.
Como explicar, então, a liderança de Jair Bolsonaro (PSL) nas pesquisas? Para o analista, doutor em Ciência Política pelo Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro (Iuperj) e sócio das consultorias Brasilis e InteliGov, o capitão da reserva acertou em não abrir um novo caminho, mas tomar para si um que já existia: o do PSDB, construindo a sua base a partir do voto antipetista de São Paulo, escanteando Geraldo Alckmin. Em entrevista a VEJA, Almeida analisa também o efeito do tempo de televisão na campanha do tucano e as possibilidades de crescimento de Ciro Gomes (PDT) entre os eleitores de esquerda.
Professor, o senhor acredita na possibilidade de vitória de Jair Bolsonaro em primeiro turno? 
Está havendo um crescimento do Bolsonaro, dúvida zero. No Brasil, no entanto, não temos uma história de crescimentos desse tipo em eleições presidenciais, com exceção ao Aécio (PSDB) de 2014, que é o mais comparável. Só que o Aécio tinha rejeição baixa e recuperou os votos da Marina, um eleitor de perfil tucano e que havia migrado para ela em parte pela exposição midiática [após a morte de Eduardo Campos]. Agora é diferente, porque a rejeição do Bolsonaro é muito mais alta. Ele pode crescer com o voto antissistema, mas, a se manter a rejeição de 45%, ele precisaria ter mais de 50% de 55% possíveis. Portanto, é muito difícil. Estimo a probabilidade haver um segundo turno em 80% e de acabar no primeiro em 20%.
Em seu livro, O Voto do Brasileiro, o senhor previu a manutenção da polarização entre PT e PSDB. Neste cenário, o que explica o sucesso de Bolsonaro? Ele tomou o lugar do PSDB? 
Sim. A polarização continuou e o Bolsonaro tomou o eleitorado do PSDB. O PT continua sendo forte onde sempre foi. Já o Bolsonaro aproveitou uma possibilidade que eu considerei no livro, que dizia respeito a São Paulo, onde a classe média estava apresentando a tendência de ignorar os governos do PSDB e buscar um governador com o perfil dele. Ele conseguiu substituir o PSDB como referência para este eleitorado e avançar em nichos que os tucanos nunca conseguiram, o eleitorado mais pobre do PT. Nisso as igrejas evangélicas tiveram grande peso.
A polarização, então, seria mais de nichos e setores da sociedade do que de partidos e ideologias? 
Sim, é uma divisão social. O PT fez a parte dele e está lá. O PSDB, não. Em grande parte pela baixa aprovação com a qual o Alckmin deixou o governo de São Paulo e o Doria deixou a Prefeitura, que foram 36% e 26%, respectivamente, de “ótimo” e “bom”. Se o Alckmin estivesse mais bem aprovado, o antipetista paulista votaria nele. Hoje, o Bolsonaro se espalhou pelo Brasil, mas ele avançou porque o Alckmin largou atrás em São Paulo, que sempre foi a base eleitoral do PSDB. No começo da campanha, o Alckmin tinha 6% e o Bolsonaro, 18%. Se, a partir dos paulistas, ele conseguisse tomar 6 pontos, era o que precisava para empatar e poder disputar competitivamente.
E o que o senhor acredita que explica essa situação em São Paulo? 
O PSDB ganhou a eleição de 2016. O partido foi o maior vitorioso daquelas eleições municipais. No entanto, a partir de 1° de janeiro começou uma briga interna, que vazou para o público, do Doria querendo ser candidato a presidente, disposto a disputar com o Alckmin. O PSDB gastou muita energia com aquilo, ao invés de se colocar na disputa eleitoral. Os prefeitos eleitos tomaram posse em 1° de janeiro de 2017. Imagine se, no dia 5, o PSDB tivesse feito um grande ato com todos esses prefeitos lançando o Alckmin como candidato à Presidência? Era outra dinâmica.
Muito se dizia que Alckmin cresceria a partir do início do horário eleitoral gratuito, que ele possuía em dimensão muito maior que os adversários. Por que não funcionou dessa vez? 
Em todas as últimas eleições, foram ao segundo turno os dois candidatos com o maior tempo de televisão. Eu diria que houve uma diversificação dos meios de informação. Ainda é um componente relevante, talvez ainda o mais relevante, mas em uma proporção de 60%, contra 95% de antes. A TV ainda pauta as redes sociais. Agora, a propaganda começou para os estados na sexta-feira e para presidente em um sábado. A facada no Bolsonaro foi na quinta seguinte. Não deu tempo de exibir as propagandas e sentir os impactos. A facada fez duas coisas: colocou em décimo plano a propaganda dos candidatos e fez substituir Lula pelo Bolsonaro no centro da atenção da mídia.
Se Bolsonaro furou o bloqueio do PSDB e conquistou a direita, porque o senhor acha que Ciro Gomes não conseguiu o mesmo com a esquerda? 
O PT não permitiu a entrada do Ciro com a capacidade de manter os votos com o Lula até pouco tempo antes da eleição. A facada no Bolsonaro aconteceu no dia 6 e a candidatura do Haddad só foi anunciada no dia 11. Essa foi uma estratégia de sucesso. Se isso não tivesse sido feito, o Ciro poderia ter pego esses votos. O PT segurou os votos com o Lula até a primeira semana de setembro e isso foi fundamental para neutralizar o crescimento do Ciro, junto com aquele acordo para asfixiar as alianças [com o PSB] e o tempo maior na televisão.
O PT errou em demorar para fazer uma crítica mais firme contra Jair Bolsonaro?
Na minha visão, essa crítica ainda não foi feita, pelo menos de forma ampla. O partido claramente agiu planejando enfrentar Bolsonaro no segundo turno, pela avaliação de que ele era um adversário mais fraco. Só que já está claro que isso se mostrou um erro, uma vez que agora Bolsonaro aparece com chances de vencer em primeiro turno ou ir para o segundo com uma votação mais forte do que teria normalmente.
Pensando em possíveis cenários após as eleições. Como o senhor imagina um eventual governo Bolsonaro? 
O grande problema do Bolsonaro é que ele não tem um partido. Nós tivemos dois presidentes nesta situação: Jânio Quadros e Fernando Collor. Para que os partidos existem? Eles fazem a conexão da sociedade com o governo. Quando se trata de um partido grande, há uma rede de relações que ajudam a costurar as identidades e dá o tom ao governo. O mais próximo que o Bolsonaro tem disso é o meio militar, é esse o partido dele. Isso é preocupante, porque os militares não sabem como é a política. Nosso sistema continuará sendo de coalização e precisará negociar com a Câmara com base em cargos e verbas. E o que os militares vão pensar disso? Não se sabe. A questão é que a política foi recolocada dentro dos quartéis.

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