EDITORIAL ESTADÃO - Inflação em fase perigosa

Sem pânico, é hora de olhar com mais cuidado a evolução dos preços e da expectativa nos mercados
Sem pânico, é hora de olhar com mais cuidado a evolução dos preços e da expectativa nos mercados. Essas expectativas serão determinadas em parte pelas cotações do petróleo e do dólar e por seus efeitos na economia brasileira. Serão afetadas também pelo resultado das eleições e pelo comportamento do presidente eleito, ou, antes disso, pelas ações dos classificados para o segundo turno. Se o novo governo começar num ambiente de pressões inflacionárias ainda moderadas, tanto melhor, especialmente porque haverá outros grandes desafios econômicos. Mas o quadro é certamente menos tranquilo do que até há pouco tempo. A inflação oficial deu um salto, passando de -0,09% em agosto para 0,48% em setembro. Com isso, o número acumulado em 12 meses avançou de 4,19% para 4,53%, segundo a última apuração do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA). Os números foram divulgados ontem pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
Com os novos dados fica mais difícil prever se o Banco Central (BC) manterá a taxa básica de juros em 6,50% até o fim do ano. Analistas do mercado reafirmaram essa expectativa, depois de conhecido o IPCA de setembro. A alta acumulada no ano ficou em 3,34%. Há uma boa possibilidade, ainda, de um número abaixo da meta de 4,50% em dezembro de 2018. A prévia de setembro, o IPCA-15, veio com aumento de apenas 0,09% porque a sua apuração, encerrada no meio do mês, captou só parcialmente a elevação de preços dos combustíveis. O impacto apareceu plenamente no IPCA fechado no fim de setembro.
Os preços de combustíveis saíram de uma queda de 1,86% em agosto para uma elevação de 4,18% em setembro. Só esse aumento produziu um impacto de 0,24 ponto porcentual no índice completo – metade, portanto, da alta do IPCA. Se nada parecido ocorrer no trimestre final de 2018, o índice geral poderá evoluir mais suavemente, completando uma alta estimada por vários analistas em cerca de 4,20%.
Esta hipótese é um bom argumento, à primeira vista, para apostar na manutenção da taxa básica de juros em 6,50% nas duas próximas deliberações do Comitê de Política Monetária (Copom) do BC, marcadas para o fim de outubro e para dezembro. Juros básicos ainda contidos poderão facilitar as vendas de fim de ano, se as instituições financeiras mantiverem a tendência de redução modesta do custo do crédito. Se isso ocorrer, e se o presidente eleito mostrar bom senso até a posse, seu governo poderá encontrar um ambiente econômico um pouco mais animado e mais seguro que o de hoje.
Também há, no entanto, bons argumentos para contemplar com cautela os três meses finais deste ano. Mesmo sem o impacto dos maiores aumentos, a inflação de setembro ainda seria menos comportada que em meses anteriores.
Excluídos os preços de alimentos e combustíveis com maior volatilidade, sobraria uma alta de 0,28% em setembro, segundo a Guide Investimentos. Economistas costumam trabalhar com vários núcleos, obtidos com diferentes depurações do índice geral. Pelos cálculos da Guide, a média dos núcleos avançou 0,27% em setembro, quase o dobro da taxa de agosto, de 0,14%. 
Além disso, a oscilação dos preços internacionais do petróleo está fora do controle da Petrobrás e das autoridades brasileiras. Também fora de controle brasileiro estão os juros internacionais e sua influência nas cotações do dólar. A instabilidade cambial tem-se refletido no Brasil, até agora sem grande impacto inflacionário, mas esse efeito poderá ser maior, se as condições políticas aumentarem a insegurança de empresários e investidores.
Na prática, o novo governo começará de fato, embora de forma limitada, bem antes da posse do presidente eleito. O atual Executivo ainda poderá executar tarefas importantes, como completar a execução orçamentária com o menor desequilíbrio possível ou encaminhar alguma reforma. O Copom tomará as novas decisões com a atenção focada no próximo ano. Mas qualquer erro do presidente eleito poderá prejudicar todos esses cuidados.

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