Não há voto de classe nem voto identitário

A visão tacanha de mundo de Bolsonaro ofende a mim e a um outro punhado de pessoas, porém não à maioria da população
Miguel De Almeida*
Tudo indica que o discurso politicamente incorreto do candidato Jair Bolsonaro provocou o efeito desejado — o de torná-lo conhecido. Por trás de seus ataques, não havia apenas preconceito, havia principalmente estratégia. As chamadas categorias identitárias, antes de tudo, pertencem ao universo civilizatório, ainda são um nirvana a ser alcançado; e são exploradas em clivagens por seus adversários.
Como assim?
As lindas passeatas das mulheres, quase mundo afora, na prática e na estatística, de pouco serviram.Nos últimos dias, nas redes sociais, mulheres sempre engajadas na defesa de seus direitos passaram a defender voto no capitão. Diziam as pesquisas, o misógino disputava o coração delas com Haddad e levava ligeira vantagem. Pelo jeito, não há um voto feminino em uníssono.
Não sabemos a opinião dele sobre a Lei de Responsabilidade Fiscal ou sobre o Seguro-Desemprego, mas sabemos bem o que pensa das mulheres. Mesmo assim...
Do mesmo jeito, não há um voto gay, outra área bombardeada pelo candidato. Na rede, vejo um vídeo de um eleitor que diz: “Minha bicha amiga, que não é aceita pelo seu papai, pela sua mamãe, queria que o presidente te aceitasse? Te manca… São todos homofóbicos, não é um só, são todos eles. Então, escolhe um que vai te dar educação, segurança… porque, na verdade, nenhum te aceita, bonita.” Não sabemos a opinião dele sobre como resolver os problemas atuariais, sequer sobre o incentivo à produção de etanol, porém estamos informados a respeito do que pensa sobre os homossexuais.
Apesar disso...
No caso, poderia ser mais um vídeo falso difundido pelos correligionários de Bolsonaro, não se lesse nas redes sociais militantes gays também em sua defesa. E não se ouvisse ainda da boca cheia de amigos gays a declaração explícita de voto na chapa do sociólogo heteu Mourão. Em todos os casos, a justificativa é um posicionamento contra a volta dos petistas ao poder. Contra a roubalheira do PT etc. São pessoas que votam num candidato abertamente contra suas próprias identidades. Seria como se eu, escritor, defendesse a censura e queima a livros que contrariam minha visão de mundo. Ou concordasse com a interdição de um livro, como “Submissão”, de Michel Houellebecq, onde a distopia narrativa prevê uma derrocada da civilização causada pelos imigrantes muçulmanos na Europa.
O discurso preconceituoso de Bolsonaro se aproveitou de um erro de avaliação de quem se encontra passos à frente na civilização. Nem todos toleram gays, muitos discordam das cotas sociais, muitos enxergam na liberdade feminina um atentado à família.
A visão tacanha de mundo de Bolsonaro ofende a mim e a um outro punhado de pessoas, porém não à maioria da população. E isso é histórico. Durante o período áureo do nazifascismo, vários importantes intelectuais europeus simpatizavam ora com Hitler ora com Mussolini, enfim, com suas ideias desde sempre preconceituosas em relação a judeus, gays e negros. Você acha que a judia Hannah Arendt deixou de amar seu amante nazista Martin Heidegger?
O momento atual brasileiro, em meio à maior crise econômica já vista em nossa história (PT/MDB na veia), com mais de 12 milhões de desempregados, é bem próximo do vivido pelos alemães na década de 1930. Não há a hiperinflação alemã, mas existe um ódio ressentido indiscriminado contra tudo e todos. Terreno fértil para se gastar bala contra grupos identitários de muito barulho, porém sem unidade ou amplo consenso junto à sociedade.
A pesquisa Datafolha registrou que um dos núcleos duros de apoio a Bolsonaro se encontra na lendária classe C, cuja ascensão se deu no reinado petista. Peraí, você leu isso mesmo? Sim, o grupo privilegiado pelas políticas sociais e econômicas do PT quer tudo, menos a volta do PT ao poder. Devem olhar em volta (ou nos bolsos) e se lembrar diariamente do que perderam com o poste de Lula.
Aí há outro dado histórico. Na última eleição de Jacques Chirac, em 2002, contra Jean-Marie Le Pen, já no segundo turno, as pesquisas trouxeram uma desagradável surpresa a toda a rive gauche do planeta. Quem eram os desgraçados eleitores deste xenófobo e intolerante fascista Le Pen? Responsáveis por surpreendentemente deixar Lionel Jospin, socialista charmoso, batido logo no primeiro turno? Em sua maioria eram filhos de imigrantes chegados à França poucas décadas antes. Sim, os filhos odiavam a possibilidade de recepcionar outros desterrados como seus pais. (Poderíamos lembrar ainda o eleitorado conservador de origem hispânica na Flórida, e seu ódio contra os latino-americanos.) Assim como a luta de classes é uma invenção política, não uma evidência estatística, a solidariedade identitária parece seguir semelhante ficção. Soa ser mais um desejo meu e seu, só que não compartilhado pela ampla maioria do eleitorado bolsonarista — ou ao menos, sem ganhar tanta importância como gostaríamos. Sob essa lupa, se entendem a vitória de Obama e a derrota de Hillary. Ele, negro, não fez um discurso de clivagem racial, mas algo voltado a todos, inclusivo. Ela, sim, entre vários erros, reafirmou sua condição de primeira mulher a chegar à Presidência. Como se sabe, não será nesta vida.
*Miguel De Almeida é editor e escritor
ARTIGO PUBLICADO ORIGINALMENTE EM O GLOBO(08.10.2018)

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