EDITORIAL ESTADÃO - 'Velhos demônios'

Cem anos após o fim da Primeira Guerra, causam apreensão impasses que ameaçam ordem global
Cem anos depois do fim da 1.ª Guerra Mundial, causa apreensão a possibilidade de que o nacionalismo exacerbado, que teve papel essencial na deflagração daquele conflito em 1914 e hoje em franca ressurgência, possa levar o mundo mais uma vez a impasses e atritos que ameacem a ordem global. 
No domingo passado, ao receber em Paris os mais importantes líderes mundiais para a cerimônia que lembrou a 1.ª Guerra, o presidente da França, Emmanuel Macron, advertiu que “velhos demônios” que ajudaram a provocar o conflito estão de volta. Foi uma referência específica ao nacionalismo e a seus subprodutos – o ódio étnico, o racismo e a intolerância religiosa.
É preciso ter cuidado com os paralelos históricos, especialmente nesse caso. Em primeiro lugar, não havia, na época da 1.ª Guerra, a sólida experiência de democracia liberal de que o mundo ocidental desfruta hoje – ao contrário, prevalecia então uma forte cultura militarista em grande parte da Europa. Além disso, o planeta estava quase todo dividido em impérios, e estes ruíram ou entraram em decadência como resultado da guerra, tendo como consequência o fortalecimento do nacionalismo – um dos motivos, aliás, da deflagração da 2.ª Guerra. E, finalmente, a situação econômica da Europa é hoje muito melhor do que a experimentada pelos que lutaram a 1.ª Guerra. 
Logo, seria precipitado considerar que o nacionalismo revigorado em diversas partes da Europa e também nos Estados Unidos possa de alguma forma prenunciar um conflito como o que inaugurou a era da destruição em massa, há um século.
No entanto, é preciso reconhecer que as diatribes xenófobas e chauvinistas do presidente norte-americano, Donald Trump, e de vários de seus colegas europeus são um claro lembrete de que a ordem mundial que começou a ser construída depois das duas grandes guerras e que parecia consolidada após o fim da União Soviética – uma ordem baseada na democracia liberal e no multilateralismo – é mais frágil do que se imaginava. Não há condições objetivas para uma nova conflagração, mas isso não significa que não possa haver no futuro – e foi isso o que levou o presidente francês e a chanceler da Alemanha, Angela Merkel, a fazerem sombrias advertências a seus pares sobre os riscos do nacionalismo – sob o olhar impassível de Trump.
Merkel se disse “inquieta” com o questionamento da cooperação internacional e do próprio projeto europeu de paz. Ao explicar a diferença entre patriotismo e nacionalismo, Emmanuel Macron, dizendo-se patriota, declarou que acredita “na cooperação entre diferentes povos” e “no fato de que essa cooperação é boa para todos”, enquanto os nacionalistas “são muito mais inclinados a uma abordagem unilateral e à lei do mais forte”.
Foram palavras dirigidas tanto para o presidente Trump como para líderes como o ministro do Interior da Itália, Matteo Salvini, que mandou barrar imigrantes, ou como o primeiro-ministro da Hungria, Viktor Orban, que defende abertamente uma “democracia iliberal” e faz campanha contra muçulmanos. Com discurso semelhante, a extrema direita da Alemanha tem encontrado espaço para se expandir, o que causa profundo desassossego. 
A soma de crise econômica, fluxo crescente de imigrantes de países pobres, decepção com a União Europeia e fragmentação dos partidos de centro dá força à radicalização nacionalista, pois encontra muito mais ressonância entre os jovens do que remotas lembranças da carnificina da 1.ª Guerra. A ascensão de Trump ao poder nos EUA parece ter sido a senha para que vários países “se deixassem fascinar pelo isolacionismo e pela violência”, como salientou Macron.
Essa retomada nacionalista, no mínimo, prejudica muito a articulação em torno de temas de interesse global, como as mudanças climáticas e o comércio, que deveriam necessariamente ser discutidos em fóruns multilaterais – mas que hoje estão sujeitos aos humores de líderes populistas sem nenhum compromisso com os valores democráticos e a paz mundial.

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