Mulher morre após ter atendimento negado em Samambaia, diz família

Patricia Elen Macedo de Souza, 33 anos, foi levada pela mãe e o irmão ao Hospital Regional de Samambaia na manhã de quinta-feira (6/12) após sofrer três convulsões, mas foi barrada na porta da unidade de saúde. Ela morreu no caminho a uma UPA da região administrativa
Patricia Elen Macedo de Souza  morreu
aguardando  atendimento médico do SUS
(foto: Arquivo Pessoal)
Uma mulher de 33 anos de idade morreu, na manhã de quinta-feira (6/12), em Samambaia, após passar mal e não conseguir pronto atendimento na rede pública de saúde do Distrito Federal. A vítima, identificada como Patricia Elen Macedo de Souza, não resistiu a cinco convulsões e uma parada cardiorrespiratória. Familiares da mulher pediram socorro ao Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) e a levaram ao Hospital Regional de Samambaia (HRSam), no entanto, alegam que não tiveram o amparo de nenhum dos dois serviços.
Em entrevista ao Correio, o irmão da vítima, Samuel Levi Macedo, 22, contou que Patricia vinha passando mal há pelo menos duas semanas. Ela sentia fortes dores no peito. Na quarta-feira (5/12), a mulher foi examinada em um hospital particular, onde trabalhava como recepcionista. O resultado do exame seria divulgado na próxima segunda-feira (10/12). Antes disso, no entanto, ela voltou a passar mal.
"Na manhã de ontem [quinta-feira], a minha irmã teve a primeira convulsão. Eu estava em casa com ela e tentei ajudar de alguma maneira, mas não sabia o que fazer. Liguei para o Samu, mas o atendente não acreditava quando eu falava que ela estava passando mal. Nem mesmo o médico quis ajudar. Ele simplesmente disse que não poderia deslocar uma ambulância até a nossa casa e pediu que eu levasse a minha irmã de carro ao hospital mais próximo", relatou Samuel.
Neste momento, Samuel ligou para a mãe, que estava trabalhando. Ela voltou para casa às pressas, e os três seguiram em direção ao HRSam. "No trajeto, a Patricia teve mais duas convulsões. Quando chegamos ao hospital, rapidamente um segurança nos trouxe uma cadeira de rodas, mas uma enfermeira da unidade recusou atender a minha irmã. Ela nem olhou para a Patricia para entender o que estava acontecendo. Mesmo com minha mãe gritando de desespero, a enfermeira apenas disse que não teria como atendê-la porque o hospital estava cheio e não havia médicos disponíveis naquela hora." 
A enfermeira sugeriu que Patricia fosse levada à Unidade de Pronto Atendimento (UPA) de Samambaia Sul. "Carreguei minha irmã nos braços de volta para o carro e seguimos direto para a UPA. A Patricia teve mais duas convulsões, e, na última, ela parou de respirar. Já não demonstrava nenhum tipo de reação. Ela morreu antes mesmo de chegarmos lá", lamentou o irmão.
A equipe médica que recebeu Patricia tentou reanimá-la, mas sem sucesso. "Os médicos de lá fizeram de tudo, mas já era tarde demais. Eles nos disseram que se a Patricia fosse atendida 10 minutos antes, não teria morrido. Estou decepcionado. Ela morreu nos meus braços, sem que eu conseguisse fazer nada.”
Experiência traumatizante 
Samuel lembra que os últimos minutos ao lado da irmã foram aterrorizantes. “Não consegui dormir hoje. A todo momento lembro dos gritos dela e dos seus pedidos de ajuda da minha mãe a Deus. Minha irmã foi tratada como um animal. Estamos muito abalados. A ficha ainda não caiu. Quando isso acontecer, a dor será enorme”, disse Samuel.
Patricia era casada e tinha uma filha de 5 anos. A menina ainda não sabe da morte da mãe, segundo Samuel. “Mas ela já estranhou a ausência da Patricia, e disse que, agora, a minha irmã está bem, pois está no céu. A Patricia era uma ótima mãe. As saudades dela serão eternas.”
O enterro da mulher ainda não foi agendado. A mãe de Patricia, entretanto, quer marcar o sepultamento ainda nesta sexta-feira (7/12). “Apesar da dor, creio que a Patricia cumpriu a missão dela na Terra. Ela era uma pessoa com um coração maravilhoso e que adorava ajudar aos outros. Estará sempre na nossa lembrança”, consolou-se Samuel.
Polícia investiga. Saúde lamenta 
A 26ª Delegacia de Polícia, em Samambaia Norte, vai apurar as condutas do Samu e do Hospital Regional de Samambaia. Ainda na quinta-feira, a mãe de Patricia registrou um boletim de ocorrência na unidade policial. A Secretaria de Saúde, por sua vez, lamentou o caso.
De acordo com a pasta, a mulher não passou por nenhuma avaliação no HRSam e não chegou a efetuar a guia de atendimento. “Contudo, diante da narrativa dos fatos, a direção do Hospital está investigando o acontecimento e a Unidade Setorial de Correição Administrativa deve instaurar os procedimentos necessários para apurar possíveis responsabilidades”, informou a secretaria, por nota.
Em relação ao Samu, a Secretaria de Saúde respondeu que o servidor da central telefônica seguiu o protocolo e, diante da indisponibilidade das ambulâncias da região – que estavam em atendimento – e a gravidade do caso, foi indicado que a paciente fosse imediatamente levada à Unidade de Pronto Atendimento.
Ainda segundo a secretaria, o corpo de Patricia foi encaminhado ao Serviço de Verificação de Óbito de Ceilândia e a família comparecerá ao local nesta sexta-feira (7/12) para orientações e, se necessário, autorização para a realização de necropsia.

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