DIONÍSIO DA SILVA - BOECHAT: CONVERSAS DE BASTIDORES

Colega de Ricardo Boechat em programa de rádio semanal, o professor Deonísio da Silva relembra o amigo jornalista morto nesta segunda-feira
Deonísio da Silva*
O jornalista Ricardo Boechat na TV Band. Ganhou em 2016 o Troféu Imprensa de melhor apresentador de telejornal Foto: Divulgação/Band
Sempre muito bem recebido em todos os auditórios, o jornalista Ricardo Boechat tinha uma conversa ainda mais clara do que seus olhos nas palestras de corpo presente.
Admirado até por quem mais discordasse do que concordasse com ele, a ninguém deixava indiferente e quando subia ao palco era precedido desta fama de dizer sempre o que pensava ou sentia, inclusive sobre si mesmo, como quando confessou aos ouvintes da Bandnews estar passando por uma depressão.
Suas conferências eram intervenções encantadoras pelo viés encontrado para criativas reflexões, como a que fez na mais recente de suas participações na Universidade Estácio de Sá, no Rio de Janeiro, onde foi sempre bem recebido por alunos e professores.
O tema era a ética no comportamento e ele sugeriu às dezenas de alunos presentes e aos outros milhares à distância (a conferência era transmitida on-line) inusitada providência: um espelho para contemplar a própria imagem. Sim, literalmente uma reflexão. Ou uma forma elegante de lembrar o velho conselho materno em forma de pergunta: “você não se enxerga, não?”. Deu um exemplo concreto: “Diante de tal espelho, você teria coragem de encontrar uma nota de R$ 100 no chão, olhar disfarçadamente para os lados e guardá-la, sem entregar a quem pudesse encontrar o verdadeiro dono?”.
Nas conversas fora do ar, preparando a pauta de nosso programa semanal ao vivo, ele tinha curiosidade de saber como eram pronunciadas em latim palavras ou frases. Ele queria ouvi-las antes, tal era o cuidado com a qualidade. Lembro-me de ter insistido para que repetisse para ele duas ou três vezes uma frase da cerimônia religiosa da Quarta-feira de Cinzas, logo após a Terça- Feira Gorda de Carnaval: Memento, homo, quia pulvis es et in pulverem reverteris (Lembra, homem, que és pó e ao pó retornarás). Essa frase sempre comoveu muito o meu amigo ateu.
Tinha enorme curiosidade pela cultura clássica e procurava sempre aperfeiçoar seu lastro intelectual, aquele minimum minimorum que nossa geração aprendeu numa disciplina chamada conhecimentos gerais, ministrada na escola desde os primeiros anos e depois inexplicavelmente retirada até do ensino médio.
Boechat começou a carreira na década de 1970 no jornal Diário de Notícias, onde trabalhou com o colunista Ibrahim Sued e deu início a uma longa trajetória na área que o consagrou no jornalismo impresso: as colunas de notas. Nos anos 1980, foi para O GLOBO e assumiu a coluna Swann. Foto: Alberto Dutra / Agência O Globo
Quando apenas a jornalista Giovanna Chirri entendeu a declaração de renúncia lida em latim pelo papa Bento XVI, dando um furo mundial, comentamos que de jornalistas encarregados de cobrir o Vaticano não era exagero esperar que soubessem alguns rudimentos de latim.
Se assim fosse, teriam ao menos algum sobressalto ao ouvir certas palavras-chave na língua oficial daquele Estado soberano. E essa curiosidade poderia levá-los a perguntar a alguém o que o papa estava dizendo, afinal. Deveriam saber também algo sobre o tema das abdicações papais para evitar as besteiras ditas por alguns e repetidas por tantos Brasil afora.
Os jornalistas não podem saber tudo, mas devem saber a quem perguntar o que não sabem. E ter suficiente humildade para isso. Ricardo Boechat, um homem de boa-fé, procurava perguntar a quem sabia o que ele não sabia nem poderia saber e por isso fazia um jornalismo de tão alta qualidade.
Boechat arrebatou três prêmios Esso de Jornalismo, entre tantos outros reconhecimentos. Foi um dos mais qualificados representantes de uma geração e de uma escola de jornalismo formada no batente das redações e nas ruas, em busca de faces novas para notícias e comentários, atualmente dados quase do mesmo modo por quase todos.
*escritor, professor federal aposentado e professor visitante da Universidade Estácio de Sá.
ARTIGO PUBLICADO NA REVISTA ÉPOCA

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