OUVINTE E ADMIRADOR DE BOECHAT CRIOU NOVA ESPÉCIE DE ORQUÍDEA EM HOMENAGEM A JORNALISTA: 'FEZ A DIFERENÇA'

Médico aposentado quer doar mudas para família do jornalista, que morreu nesta segunda-feira em um acidente de helicóptero
Renato da Cunha Pereira, em depoimento a João Paulo Saconi
O médico aposentado Renato da Cunha Pereira, de 66 anos, criou uma nova espécie de orquídea para homenagear Ricardo Boechat, de quem era fã Foto: Arquivo pessoal
Quando ainda vivia na capital do Rio de Janeiro, o médico Renato da Cunha Pereira, de 66 anos, sustentava diariamente uma obrigação matinal: ouvir o jornalista Ricardo Boechat no rádio enquanto dirigia para o trabalho na Santa Casa, no centro da cidade. Ainda naquele tempo, há quase duas décadas, ele passou a se comunicar com o âncora por meio de um endereço de e-mail pessoal, que ele já não lembra exatamente como conseguiu. A troca de correspondência virtual entre repórter e ouvinte fez com que os dois criassem um elo significativo o suficiente para ter deixado Renato "sem chão" desde que soube na segunda-feira (11) que nunca mais poderá acompanhar o trabalho de Boechat, morto em um acidente de helicóptero enquanto viajava entre Campinas e São Paulo.
As flores, comumente utilizadas para simbolizar o estado de luto, são agora a síntese do que deixou a amizade à distância construída por Renato e Ricardo Eugênio (assim Boechat gostava de ser chamado por amigos próximos, como eles mesmos relatam). O fã, que gosta de cultivar orquídeas, criou uma nova espécie com o nome do ídolo e fez questão de registrá-la num banco de dados inglês. E acredita que, agora, esse "legado" pertence à família formada por Veruska Seibel e os seis filhos do jornalista.
Abaixo, o depoimento emocionado de Renato sobre a perda do amigo que não conseguiu conhecer pessoalmente:
"Eu e o Boechat sempre tivemos uma ligação, mesmo que nunca tenhamos nos visto pessoalmente. Morávamos em Ipanema, na Zona Sul do Rio [Boechat trabalhou em território carioca por O Globo] . Meu filho estudou com a filha dele, no mesmo colégio. Temos até a mesma idade, com cinco meses de diferença. E eu sempre o ouvia. Acho que a ligação pode ser espiritual.
Acredito que, toda vez que uma flor se abre, é um sorriso de Deus. Crio orquídeas há mais de 20 anos, tenho um laboratório delas como hobby. Em 2017, criei uma espécie nova, registrei com o nome do Boechat e o avisei que queria entregar uma muda. Ele queria vir buscar em Miguel Perereira [município fluminense para onde Renato se mudou], mas falava muito do trabalho que não lhe permitia fazer nada.
Sei que ele era ateu, mas, depois de conversar muito com Boechat, o único lugar onde consigo vê-lo agora é amparado pelo divino. Porque, além de um jornalista incrível, ele era um ser humano gigante. Veio ao mundo para fazer a diferença. O que dizia no rádio era aquilo com que estávamos engasgados. Era o que eu queria dizer quando não havia quem escutasse.
Eu era um anônimo como todos os brasileiros que tinham no Boechat um ouvido atento. Consegui o e-mail dele quando queria fazer alguma denúncia para o jornal. Eu sempre enviava questões assim, como um problema que tive uma vez com o Detran e ele fez questão de me escrever depois para saber que fim teve. Boechat não abandonava as histórias que levávamos ao conhecimento dele. Ele as perseguia.
Assim como eu, muitas pessoas que conheço dizem que conhecem o Boechat e que são amigas dele. São ouvintes e telespectadores também.
O fato é que a flor e as mudas que criei não me pertencem. Acho que esse é o legado que criei para ele, uma forma de eternizá-lo junto à natureza. Daqui a um ano, ou dez anos, que seja, quando o luto passar, quero entregá-las à doce Veruska [apelido pelo qual Boechat chamava a mulher] e às filhas, incluindo a Catarina e a Vanessa. Elas disseram para o pai, segundo ele me disse, que a orquídea foi a homenagem mais bonita que ele já havia recebido. A flor é um sorriso de Deus e, sempre que olhar para a que tem o nome do Boechat, vou lembrar do sorriso dele." (ÉPOCA)

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