EDITORIAL DO JORNAL O GLOBO - O fracasso de Trump mostra vantagens do acordo com o Irã

Rompimento das conversas com a Coreia do Norte comprova o risco da diplomacia personalista
O estilo agressivo e voluntarista de Donald Trump já ficara explícito nas primárias do Partido Republicano, quando atacou sem medidas os concorrentes à disputa pela Casa Branca no pleito de 2016. Eleito, o Trump da campanha se mudou para a Casa Branca. A mais recente demonstração de que ele continua o mesmo foi dada na tentativa frustrada de fechar um acordo histórico com a Coreia do Norte de Kim Jong-un, o mais novo da família de ditadores do país mais retrógrado e fechado do planeta.
Fiel a seu estilo personalista, Trump decidiu lançar uma espécie de “diplomacia cara a cara”, valendo-se da suposta competência de negociador adquirida como empresário do ramo imobiliário. Com a ajuda de Moon Jae-in, presidente da Coreia do Sul, o presidente americano manteve um encontro inédito com o ditador de Pyongyang, em junho do ano passado, em Cingapura.
Trump fez questão de transparecer um bom relacionamento pessoal com o norte-coreano, e não deixou de se gabar disso. Os dois assinaram um curto documento em que a Coreia do Norte se comprometia a trabalhar para a paz, com a desnuclearização da Península Coreana. Como gesto de boa vontade, Kim suspendera o lançamento experimental de mísseis, cada vez de maior alcance, e passou a desativar um local de testes para aperfeiçoamento de foguetes.
O segundo encontro, em Hanói, no Vietnã, no mês passado, terminou em fracasso, inclusive antes do tempo. Ficou evidente que o modelo Trump de acertos diplomáticos é problemático, por depender muito de uma pessoa, o presidente. Trump queria avanços na desmobilização nuclear do país, e Kim, o relaxamento de sanções. Restou ao presidente dos EUA levantar-se e ir embora. Trump, desde a campanha, critica o entendimento feito entre os Estados Unidos de Obama, Alemanha, Reino Unido, França, Rússia e China com o Irã, também em torno de armas nucleares. Prometeu rompê-lo unilateralmente, e assim o fez. Os signatários restantes tentam mantê-lo.
Mas, ao contrário do projeto personalista de Trump para a Coreia do Norte, o acordo com o Irã foi amplamente discutido entre Washington, seus parceiros e os iranianos, sem a participação direta de Barack Obama. Foi um acordo costurado de forma mais profissional. Houve concessões de parte a parte, porém com o avanço, entre outros, de o Irã permitir a supervisão externa do cumprimento do acordo, e se conseguiu, ainda, retardar o programa persa de armas nucleares. Com isso, tem-se — ou tinha-se — tempo para outros progressos. Diferente do método personalista de Trump, em que qualquer desentendimento entre dois negociadores tem dificuldades de ser revertido em outra instância.

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